Watchmen, Massacre de Tulsa, racismo e a Fundação Palmares

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Uma nova série de heróis estreiou há pouco na HBO. A série, Watchmen, propõe uma continuação da história em quadrinhos de mesmo nome, escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons, passada numa linha do tempo alternativa. O primeiro episódio começa com a reconstrução do Massacre de Tulsa, também chamado de Massacre de Greenwood. Esse Massacre é considerado um dos marcos da intolerância, do racismo e da luta dos afro-americanos na história dos Estados Unidos. Entretanto, durante muitas décadas, houve uma tentativa de apagar e esquecer essa parte da história. Watchmen, desde o primeiro momento, propõe uma discussão pesada sobre a questão do racismo, demonstrando a força que tal questão tem atualmente no império americano.

Em 30 de maio de 1921, Dick Rowland, um jovem negro de 19 anos, entrou num elevador do edifício Drexel operado por Sarah Page, uma jovem branca de 17 anos. Pouco tempo depois, Sarah gritou e o jovem Rowland fugiu da cena. Isso foi o bastante para o jovem negro ser preso e o jornal Tulsa Tribune, mantido por brancos, estampar a manchete: “Negro ataca garota em elevador”, um título dúbio que leva a entender que a garota tinha sido estuprada ou, pelo menos, que existiria uma tentativa de estupro. No editorial do mesmo jornal, o título foi “Linchamento de negro esta noite”. Apesar de tudo isso, o caso contra Dick Rowland foi arquivado em setembro e Sarah Page sequer prestou queixa contra ele. O mais provável, segundo muitos especialistas, é que Rowland tropeçou e segurou no braço de Page, o que a fez gritar. Entretanto, esse mero tropeção teve consequências, no mínimo, nefastas.

Tulsa era uma cidade dividia. O Legislativo estadual de Oklahoma havia aprovado, fazia pouco tempo, as leis segregacionistas conhecidas popularmente como Leis Jim Crow para impedir, juntamente com a própria Constituição do estado, o voto negro. Além disso, Tulsa aprovou em 1916 uma lei, apesar de inconstitucional, proibindo que negros ou brancos residissem em bairros em que três quartos ou mais de moradores fossem de outra raça, gerando uma segregação geográfica na cidade. Dentro do panorama local, outros dois pontos chamam a atenção: a busca por recolocar os veteranos da Primeira Guerra na economia e o boom do petróleo que impulsionava a economia.

Apesar de todas as dificuldades, o bairro negro de Greenwood conseguiu um grande desenvolvimento, tanto social quanto econômico, chegando até a ser chamado de “Wall Street Negra”. Havia vários profissionais liberais com um ótimo nível educacional. O comércio, também, florescia com grande intensidade, e a prosperidade reinava no bairro, em oposição à parte branca da cidade.

Entre 31 de maio e 1º de junho de 1921, o bairro de Greenwood foi arrasado em virtude, segundo os brancos que o atacaram, do incidente no elevador entre Dick Rowland e Sarah Page.

Por volta das 20 horas, três homens brancos foram até onde Rowland estava preso e exigiram que o xerife entregasse Rowland para ser linchado. Do lado de fora, uma multidão estava esperando para linchá-lo. Apesar de toda essa pressão, o xerife e seu vice, que por sinal era negro, não entregaram Rowland. Em torno de 21 horas, 25 homens negros , incluindo vários veteranos da Primeira Guerra Mundial, foram até o tribunal e ofereceram ajuda ao xerife que recusou. Depois das 22 horas, com a divulgação do que estava ocorrendo, um grupo de 75 homens negros armados foi ao tribunal e encontrou uma multidão de cerca de 1500 homens brancos, muitos armados. Após o som de alguns tiros, houve uma grande confusão, e o grupo dos negros se dirigiu para Greenwood. Nas horas seguintes, os moradores brancos de Tulsa invadiram Greenwood, ateando fogo em tudo que encontravam pela frente e atirando, com muitas armas fornecidas por autoridades locais, em toda pessoa negra que encontrassem. O cinema que estava no caminho dos brancos serviu de palco para um assassinato. Igrejas foram queimadas e pessoas foram mortas na rua ou em suas casas. Mas os tiros não vinham apenas da terra. Aviões particulares foram usados para atacar o bairro negro e o fogo e a violência, por fim, destruiram 35 quarteirões de Greenwood. Ao final, 800 pessoas foram internadas em hospitais e mais de 6.000 residentes negros foram presos e detidos. A contagem oficial dos mortos chegou a 36, 26 negros e 10 brancos. Entretanto, o cálculo atual, feito por historiadores, chega a um número bem maior, entre 100 e 300 pessoas, fazendo de Tulsa o maior massacre racial da história dos Estados Unidos.

Certamente há uma enorme tensão racial nos Estados Unidos e essa tensão é uma das bases para o funcionamento da democracia estadunidense. Após a Guerra de Secessão e o fim da escravidão nos Estados Unidos, os afro-americanos rapidamente começaram um grande desenvolvimento social, econômico e político. Entretanto, esse desenvolvimento ameaçou a supremacia branca e o equilíbrio entre os partidos políticos e a questão foi resolvida através do enfraquecimento do lado mais fraco. Uma série de leis, incluindo as famosas Leis Jim Crow, foi implementada para impedir o desenvolvimento da população negra. A resistência e a luta dessa população, nos Estados Unidos, permanece viva e enfrentando o poder, agora crescente, dos supremacistas brancos e de seus aliados.

A série Watchmen, mesmo abordando uma linha do tempo alternativa, mostra a potência da tensão racial provocada pelo racismo e a transição de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de controle, no sentido de Foucault e Deleuze, onde a informação é manipulada e controlada, com o objetivo de esvaziar ou evitar o empoderamento das camadas mais vulneráveis da população. No sexto episódio, um herói negro chamado Justiça Encapuzada percebe como essa sociedade tenta controlá-lo e torná-lo dócil e, então, começa sua revolta contra toda opressão. Uma revolta insana, mas com seus objetivos bem definidos e que prossegue ao longo de décadas, fruto de um ódio racial que, nesse caso, tem sua origem no Massacre de Tulsa e no racismo.

No Brasil, Bolsonaro imita Trump, tentando utilizar a tensão racial a seu favor. Um bom exemplo disso é a escolha de Sérgio Nascimento Camargo para presidente da Fundação Palmares, um negro que suaviza o racismo, vê aspectos positivos na escravidão e ataca todo movimento negro no Brasil, além de ser contra qualquer reparação histórica e querer mandar representantes da raça negra para a África, entre tantos absurdos. A sua escolha é justificada, pelo governo, por ser alguém alinhado à direita e às posições do governo. Na verdade, foi uma pessoa escolhida a dedo, uma vez que é negro e ataca os negros, possibilitando, assim, que se tenha uma ideia que é possível ser contra qualquer empoderamento dos negros sem ser racista, ou seja, apenas sendo de direita, o que não é verdade.

Alexandre L Silva

P.S.: Quem for ou estiver na cidade do Rio de Janeiro está convidado para quarta, 04/12/2019, tomar um café e discutir política no PolitizarSim, Rua Marques nº 3 — Humaitá, próximo à Cobal do Humaitá. Horário 18:30.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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