Você pode chamar corretamente alguém de fascista?

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A extrema direita não aceita ser chamada de fascista e, para tal, seus seguidores costumam se defender dizendo que quem faz tal afirmação “não sabe o que é fascismo”. A base dessa falsa argumentação é a ideia de que o fascismo deve ser reduzido a Benito Mussolini e aos acontecimentos ligados a ele na primeira metade do século XX (1). Aliás, essa é uma das características que estruturam o discurso da extrema direita: a confusão. A extrema direita é chacriniana, isto é, ela “veio pra confundir e não pra explicar”. Por isso, o objetivo deste texto é rebater esse argumento simplório, deixando claro que é possível e cabível chamar boa parte da extrema direita de fascista.

A fonte dessa confusão é a falsa identidade entre fato histórico e ideologia. Um fato histórico é um acontecimento marcante do passado e que, portanto, não pode ser alterado. Além disso, o fato histórico é um marco, também, para o presente e referência para um determinado período histórico e para o estudo do historiador. Não é o caso, aqui, de fazer uma diferenciação entre fato histórico, fato historiográfico, acontecimento e processo histórico, uma vez que isso não tem nenhuma importância para o argumento em questão (2). Assim, a Segunda Guerra Mundial, a Revolução Francesa e o Período Fascista Italiano são exemplos de fatos históricos. O fato histórico é, assim, aquilo que fornece a referência, no tempo e no espaço, para a narrativa de um historiador.

É evidente que ao chamar alguém, hoje, de fascista, você não está dizendo que essa pessoa estava presente e atuante durante a primeira metade do século na Itália de Mussolini, pois você não está fazendo uma afirmação direta sobre esse período histórico, mas sim uma afirmação sobre a ideologia desse indivíduo.

Marx apresenta três definições desse conceito ao longo de seus textos: 1) “um sistema de crenças características de uma classe ou grupo particular”; 2) “um sistema de crenças ilusórias (ideias falsas ou falsa consciência”); 3) o processo geral da produção de significados ou ideias” (3). As ideias e crenças presentes na ideologia funcionam como uma espécie de mistificação que garante as ilusões que uma classe tem de si mesma, dentro de um determinado modo de produção, protegendo as estruturas sociais e econômicas vigentes” (4). Apesar dessas definições marxistas serem mais precisas, pode ser usada, aqui, até mesmo uma definição mais popular de ‘ideologia’, considerando ideologia como um conjunto de ideias que define sua posição política. Dessa forma, ao chamar alguém de fascista o que você está dizendo é que a ideologia que essa pessoa tem é fascista, ou seja, uma ideologia que pode ser definida através de determinadas características e que tem muito, mas muito mesmo, em comum com a ideologia defendida por Mussolini e Giovanni Gentile, por exemplo.

Portanto, para saber se você está certo em chamar uma determinada pessoa de fascista, você precisa conhecer, basicamente, duas coisas: quais os princípios e a orientação política dessa pessoa, para saber se ela se enquadra na ideologia fascista, e conhecer as principais características da ideologia fascista ou, obviamente, ter uma boa definição do que seja o fascismo.

Roger Griffin apresentou uma definição concisa de fascismo em seus livros. Segundo Griffin, fascismo é “um gênero de ideologia política cujo núcleo mítico em suas várias permutações é uma forma palingenética de ultranacionalismo populista” (5). Obviamente, essa definição é concisa, mas precisa de uma explicação, o que será feito a seguir.

Quando Griffin fala de um núcleo mítico está fazendo referência a qualquer “mito político” que está no centro da mobilização de ativistas e apoiadores e que legitima de forma irracional a política fascista. Dessa forma, o mito é essa força irracional que mobiliza e puxa, com sua potência, todos os membros para um mesmo caminho; a força que os inspira.

Ser uma “forma palingenética” significa que essa ideologia está amparada na ideia de renascimento ou de ressurgimento, uma vez que ‘palin’ é entendido como novamente, de novo, e ‘gênesis’ como nascimento, criação. Dessa maneira, o fascismo pretende estar baseado num conceito bem próximo daquilo que Mircea Eliade chama de “nostalgia das origens” (6), gerando, assim, a ideia de um recomeço, uma volta a um tempo de grandeza ou, em boa parte dos casos de fascismo, um tempo descrito, mesmo não sendo, superior e que espelha a grandeza de um povo. Assim, Mussolini retorna à Roma do Período Antigo e Bolsonaro quer de volta o Período da Ditadura e, por não ser suficientemente distante, apela à grandeza do Império brasileiro.

O ultranacionalismo e o populismo estão diretamente ligados. Ambos estão presentes principalmente nos discursos dos líderes fascistas e seus adoradores, evocando, sempre, a ideia de que formam o único grupo capaz de representar o povo e a nação. Assim, o “ultranacionalismo populista rejeita tanto os princípios do absolutismo quanto os do governo representativo pluralista” (7). Nesse ponto, o carisma toma o lugar daquilo que é racional e legal, apelando para o conceito metafísico de ‘povo’.

Evidentemente, essa definição não esgota tudo aquilo que pode ser apontado como caraterística do fascismo, todavia, já é o suficiente para que se perceba que você pode utilizar a palavra ‘fascista’ para descrever muitos daqueles que estão na extrema direita brasileira.

Alexandre L Silva

P.S.: Caso exista algum interesse sobre o tema, demonstrado através do número de leituras deste artigo, escreverei outro texto com o objetivo de descrever detalhadamente o fascismo em suas diversas versões.

NOTAS

(1) Há também aqueles que defendem que o fascismo é de esquerda, mas essa tese é tão esdrúxula que nem vale a pena ser considerada.

(2) Para uma discussão sobre fato histórico e fato historiográfico: KOSSO, Peter. Philosophy of historiography. In: TUCKER, Avieser (ed.) A companion to the philosophy of history and historiography. Malden: Wiley-Blackwell, 209. Sobre a noção de acontecimento: MENDES, Luís César Castrillon e RIBEIRO, Renilson Rosa. Acontecimento. In: FERREIRA, Marieta de Moraes, OLIVEIRA, Margarida Dias de. Dicionário de ensino de história. Rio de Janeiro: FGV, 2019.

(3) WILLIAMS, Raymond. Marxism and literature. Oxford: Oxford University Press, 1977. P. 55.

(4) NIELSEN, Kai. The concept of ideology: some marxist and non-marxist conceptualizations, in https://www.kainielsen.org/uploads/1/1/9/0/119098149/the_concept_of_ideology_some_marxist_and_non_marxist_conceptualizations.pdf P.147.

(5) GRIFFIN, Roger. The nature of Fascism. Londres/Nova York: Routledge, 2006. Ed. eletrônica, posição 48. Também: GRIFFIN, Roger. A Fascist century: essays by Roger Griffin. Nova York: Palgrave Macmillan, 2008. P. XII.

(6) ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano.Trad. Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992. P. 48 e ss. Mircea Eliade afirma que essa nostalgia diz respeito a um tempo primordial, uma situação originária.

(7) GRIFFIN, Roger. The nature of Fascism. Op. Cit. Posição 61.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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