Você está sendo manipulado?

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De modo geral, manipulação é o esforço, comportamento ou forma de influência capaz de afetar a conduta ou percepção de outros visando o objetivo daquele que a promove. Boa parte das das definições acrescenta que isso ocorre “através do uso de meios enganosos ” (HORN, p. s/n). A manipulação é algo que sempre existiu na história da humanidade, entretanto, com o desenvolvimento de nossa sociedade, mais e mais meios são criados para manipular não só o indivíduo, mas toda sociedade.

O maquiavelismo, presente na manipulação política contemporânea, vem do nome do filósofo e teórico político Nicolau Maquiavel (Niccolò di Bernardo dei Machiavelli) que estabeleceu, principalmente no seu livro O Príncipe, as estratégias que um governante deve seguir para conquistar e manter o poder. Nessa obra, o autor deixa claro que, se for preciso, o governante pode e deve mentir, enganar, manipular. Entretanto, Maquiavel também afirma que é desejável que os governantes mantenham os princípios éticos, sempre que possível. Assim, a mentira e a manipulação não são as primeiras opções, mas alternativas que podem ser sacadas pelo governante (BERECZKEI, p.1). Dessa forma, pode ser afirmado que o maquiavelismo político contemporâneo é mais permissivo, pois aceita a manipulação e a mentira como primeiras opções, que o próprio Maquiavel. Richard Christie and Florence Geis, dois grandes teóricos da personalidade, descrevem o maquiavelismo, através de cinco fatores: manipulação, amoralidade, cinismo, frieza emocional e falta de empatia (BERECZKEI, p.3).

Maquiavélicos (na vida e na política) nunca dizem a ninguém a verdadeira razão de suas ações, a não ser que isso seja necessário para conseguirem aquilo que desejam e, como já afirmavam os sofistas na antiguidade, procuram dizer o que as pessoas querem ouvir. Buscam nos outros desejos, preconceitos, necessidades que, muitas vezes, são encontrados no lado mais obscuro dos indivíduos e, partindo daí, manipulam para que as pessoas ajam de acordo com seus objetivos. Não é difícil, por exemplo, encontrar um antigo preconceito que esteja dormindo no fundo da alma de um indivíduo, de forma inconsciente, e, através da mídia, propaganda, discurso ou outra forma de comunicação, fazer com que desperte de maneira virulenta.

Ideologias também estão presentes na manipulação de indivíduos ou grupos. Através de mensagens indiretas, a consciência é destruída e modificada para mistificar um determinado conjunto de ideias como, por exemplo, a falsa consciência de que indivíduos de classes inferiores não podem ser o motor da história. Dessa forma, um indivíduo que não está no topo da sociedade se sentiria diminuído e buscaria a redenção de todos os males fora de si e fora de sua classe, negando, portanto, a democracia e apelando a uma ditadura.

Não é fácil perceber se você está sendo manipulado, mas aqui vão algumas dicas. Se você está mitificando alguém, então é certo que você está sendo manipulado. Se defende uma pessoa não se importando com a argumentação de quem o acusa, você está sendo manipulado. Se defende ações, discursos ou posicionamentos que o prejudicam, sinto muito, você continua sendo manipulado. Se você tem grandes preocupações com o que não afeta sua vida, você foi manipulado. A perda da autonomia e da consciência crítica é uma das consequências mais nefastas da manipulação e do maquiavelismo.

“A manipulação é uma ação motivadora interessante. Não é exatamente coerção, não precisamente persuasão, e não inteiramente semelhante ao engano. É um fenômeno generalizado que ocorre em quase todas as caminhadas da vida: política, arte, educação e até relações interpessoais” (HANDELMAN, p.1). Entretanto, a manipulação pode trabalhar com a coerção, a persuasão e o engano; isso em qualquer campo. Na vida cotidiana ou na política, por exemplo, mentiras e coerções são usadas para manipular um indivíduo. Fake news transbordam em discursos governamentais e ideólogos, como Steve Bannon, trabalham com o lado irracional das pessoas com o objetivo de atingir seus ideais. O dog whistle, informações codificadas passadas para determinados grupos, é usado em todos os países para manipular multidões. A manipulação cria, em cada um dos manipulados, a ilusão de liberdade e autonomia, fazendo com que pensem que escolheram livremente, mas, na verdade, há um afastamento do pensamento crítico, já que esse é nublado, e uma troca da autonomia pela heteronomia, em que as regras são ditadas pelo outro.

“Aprendemos que quanto mais profunda a frustração, mais fácil se torna vender falsas esperanças” (HANDELMAN p.85). Portanto, em momentos de crise (pessoal, profissional, financeira, política, econômica) há uma grande oportunidade para manipuladores agirem.

John McHoskey sugere que maquiavélicos e manipuladores tem, em geral, algum desvio ou problema de personalidade, estabelecendo o borderline como o mais propício para agir dessa maneira devido a um grupo de fatores como: descontrole das emoções, viver nos limites do comportamento ético e o conflito com a lei e as regras (BERECZKEI,p.42). Em relações aos manipulados, o transtorno modelo é outro, a paranoia. O comportamento com estilo paranoico tem por característica, no manipulado, uma estrutura lógica toda baseada em um princípio absurdo. “A tática da paranoia é uma estratégia manipuladora de manobrar o objetivo de adotar uma ideia dominante como base para sua visão de mundo” (HANDELMAN, p.87). Um método eficiente, segundo Handelman, é implantar uma ideia fixa na mente do manipulado.

A manipulação pode ocorrer através de uma conversa, um discurso, ações, mídia, propaganda e muitas outras formas de interação e comunicação. O que foi descrito aqui no texto é válido tanto no que diz respeitos às relações pessoais (patrões, amigos, companheiros, conhecidos) quanto nas relações políticas e sociais. O mais importante para não ser manipulados é estar consciente das formas de manipulação para reconhecer os manipuladores. Resista à manipulação, pois é a única forma de você defender sua autonomia e sua liberdade.

Alexandre L Silva

Referências:

BERECZKEI, Tamás. Machiavellianism: the psychology of manipulation. Londres, Routledge, 2018.

HANDELMAN, Sapir. Thought manipulaiont: the use and abuse of psychological trickery. Santa Barbara, Praeger/ABC Clio,2009.

HORN, Arthur. Manipulation: Dark Psychology to Manipulate and Control People. Kindle Edition.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na UFF e na UERJ. Articulista de opartisano.org e escritor da New Order no Medium.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na UFF e na UERJ. Articulista de opartisano.org e escritor da New Order no Medium.