Uma pequena estória sobre dois grandes homens ou o encontro entre Milton Santos e Bento Prado Júnior

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Essa é uma estória em que não posso evitar a primeira pessoa, uma vez que foi contada diretamente a mim, em uma das inúmeras conversas que tivemos em São Carlos (SP), pelo próprio Bento Prado. Para quem não conhece os personagens dessa estória, porém, farei uma breve descrição.

Bento Prado Júnior (1937–2007), filósofo, crítico literário, professor universitário, tradutor, poeta, amigo e orientador é uma figura de destaque no cenário cultural desde os anos 1960. Na filosofia, escreveu sobre os temas mais diversos, indo de Rousseau à psicanálise, de Wittgenstein à poesia, tendo um destaque especial para sua obra sobre Bergson, “Presença e Campo Transcendental: Consciência e Negatividade na Filosofia de Bergson”, citada por especialistas de todo o mundo. Apresentou, quando estiveram no Brasil, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir e, em função de sua crítica à ditadura, foi perseguido pelo Comando de Caça aos Comunistas, tendo que sair do Brasil e fugir para a França.

Milton Santos (1926–2001), geógrafo, advogado, jornalista e professor universitário, foi o maior nome da renovação da geografia no Brasil nos anos de 1970. Seus escritos sobre a urbanização no Terceiro Mundo e, mais recentemente, sobre a globalização, tiveram grande impacto para a crítica do capitalismo no âmbito da geografia. Também foi perseguido, chegando até a ser preso, pela Ditadura Militar, tendo que sair do Brasil e ir para a França para lecionar e ser livre. Recebeu o prêmio Vautrin Lud, em 1994, considerado o prêmio Nobel da Geografia. Sendo o único latino-americano a receber tal honraria, é também o geógrafo brasileiro mais conhecido.

Na década de 1990, eu estava fazendo meu mestrado na Universidade Federal de São Carlos e tinha como orientador Bento Prado Jr. Em uma conversa, fora do âmbito acadêmico, começamos a falar de Milton Santos. Não recordo se a conversa começou em função de uma entrevista de Santos que assisti na TV ou ao falarmos de outro assunto, só recordo a estória que me foi narrada por Bento.

Disse-me Bento que, em uma ida à USP, uma pessoa se aproximou dele e o cumprimentou, chamando-o pelo nome. Em seguida disse: — eu lhe conheço, mas você não me conhece. Bento, então respondeu: — realmente, não o conheço. Foi quando o desconhecido se apresentou: — eu sou Milton Santos, também professor aqui na USP. Depois disso, Milton Santos falou sobre seu trabalho e conclui que Bento não o conhecia em função do racismo que está nas entranhas de nosso país.

Bento Prado contou-me essa estória com orgulho de ter um colega como Milton Santos na USP e, com todas as palavras, reconhecendo a grandeza de Santos e lamentando toda distorção ideológica e todo mal provocado pelo racismo. Naquela época, o uso da expressão “racismo estrutural” não era comum, mas, com certeza, Bento identificaria o episódio no interior desse conceito.

Contei essa estória com o objetivo de mostrar o alcance do “racismo estrutural” e como, das mais diversas maneiras, esse racismo alcança a todos nós. Mesmo dentro da academia, local de pluralidade e crítica, mesmo entre pessoas que sempre combateram o racismo, como eu e Bento Prado, o racismo estrutural provoca seus efeitos, enevoando a grandeza de personalidades simplesmente pela sua cor de pele. Em outros níveis da sociedade, esse racismo chega a seu nível máximo, promovendo genocídios dentro da população negra.

Temos, todos, que combater essa estrutura, estrutura essa capaz de prejudicar a todos. Com o racismo estrutural perdemos toda a história de um povo, não vemos toda pujança intelectual de grandes pensadores como Milton Santos, Achille Mbembe, Angela Davis e tantos outros, e perdemos nossa humanidade quando não lamentamos e protestamos contra a morte de um outro ser humano.

Não há como deixar de falar do racismo estrutural, com toda erística utilizada por quem é racista. Racistas envergonhados criticando o “Black Lives Matter”, dizendo que “todas as vidas contam”. É evidente que toda vida é importante, mas não é a vida de quem tem a pele branca que está em risco, quase que oficialmente. Quem tem a pele branca, um detalhe genético irrelevante, é, socialmente, protegido e, quando é morto, provoca uma comoção pública, diferente de um cidadão negro. Por isso, então, gritamos que “vidas negras importam”.

Personagens como o presidente da Fundação Palmares, instrumento de opressores de todo um povo, buscam, junto com aqueles que promovem o discurso racista, apagar a história e fazer de uma instituição, que deveria lutar pela consciência negra, mais uma arma para a ideologia racista e, assim, promover o racismo estrutural.

Devemos lutar, também, contra a extrema direita, uma vez que ela traz, em seu bojo, todo ranço dos supremacistas brancos. Não há como ser racista sem perder a própria humanidade. Dessa forma, o racismo nada mais é que o reconhecimento da própria inferioridade.

Deixo, aqui, minha saudade de Bento Prado Júnior e Milton Santos, duas grandes figuras que ajudam a lembrar que devemos ser fortes e combater essa mal que, infelizmente, ainda assola o país e o mundo.

Alexandre L Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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