Trump, Irã e as possíveis linhas de fuga deleuzianas para o conflito no Oriente Médio

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A leitura tradicional apresentada por muitos analistas políticos na mídia convencional não consegue dar conta da complexidade da realidade mundana. Interpretações levando em conta uma visão binária e maniqueísta de nosso mundo são apenas tentativas pouco inteligentes de capturar aquilo que normalmente chamamos de real ou, por outro lado, direcionamentos e manipulações da opinião pública, como ocorre no recente conflito entre Estados Unidos e Irã, o qual, por sinal, será analisado um pouco mais detalhadamente no interior desse artigo.

Para demonstrar como essa visão binária, construída apenas de aspectos selecionados da realidade não funciona, citemos alguns exemplos. Juan Guaidó, autoproclamado presidente da Venezuela — aliás, qualquer um pode se autoproclamar — tem como seu maior aliado os Estados Unidos e é reconhecido por governos de extrema-direita, como o do Brasil, como presidente da Venezuela. Entretanto, analisando seu partido, o Voluntad Popular (VP), encontra-se uma agremiação que se autointitula de esquerda, progressista e que é membro da Internacional Socialista. Uma interpretação binária, que leva em conta apenas esquerda e direita, terá dificuldade de englobar essa aparente contradição. Em função disso, a orientação de seu partido não é divulgada na mídia brasileira, já que não conseguiriam explicar o caso sem a introdução de novos parâmetros.

Recentemente, um historiador brasileiro tentava elucidar o que chamou, com razão, de ataque terrorista dos Estados Unidos contra o Irã, em seu canal no YouTube. Ao fazê-lo, descreveu o governo iraniano como extrema-direita. Mas, será que essa polarização pode ser aplicada a uma teocracia em que seu principal líder é também o líder supremo no campo religioso? Não, como reconheceu Foucault ao entender a importância da Revolução Iraniana que depôs o xá Mohammad Reza Pahlavi, em 1979. Para Foucault, essa revolução representava a ideia de espiritualidade política que leva ao transtorno e a transformação, assim como a tentativa de afastar formas políticas opressoras. Portanto, não é certo tentar reduzir o Irã aos conceitos ocidentais, pois, se assim fosse, teríamos que explicar uma extrema-direita estadunidense que recebe apoio de uma extrema-direita brasileira por atacar a extrema-direita iraniana; puro no sense.

Outro exemplo curioso é a fuga do terrorista brasileiro Eduardo Fauzi, um dos responsáveis pelo ataque à produtora do Porta dos Fundos, para a Rússia. Muitas pessoas comentaram essa notícia, em sites de esquerda, achando que foi o maior erro da vida dele, uma vez que a Rússia é um país comunista, um grave erro por parte delas. Evidentemente, a Rússia não é um país comunista. Esse erro vem, principalmente, de duas fontes. A primeira é o fato da Rússia ser a principal república da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A segunda é que a Rússia, no campo militar, é a principal oposição aos Estados Unidos, isto é, a segunda força nesse campo no mundo. Portanto, se Fauzi será deportado ou não dependerá de vários motivos que uma visão simplista e binária não consegue descrever, em função de suas limitações. O mais provável, nesse caso. é que a Rússia aja pragmaticamente e atenda o pedido brasileiro. Caso isso não seja feito, é um indício para algo muito mais grave e que deverá, futuramente, ser analisado.

Para uma melhor interpretação de toda essa multiplicidade, precisamos de uma visão de mundo que não se limite a aprisionar e reduzir os objetos que analisa. Devemos sair, pelo menos em determinadas situações, da lógica cartesiana e buscar conceitos que nos permitam pensar de forma que acompanhem todas essas mudanças e diferenças existentes no mundo e na política. Gilles Deleuze e Félix Guattari, por exemplo, apresentam conceitos como os de rizoma e linhas de fuga que permitem pensar, de uma forma inovadora, todo movimento existente nessas multiplicidades. Um rizoma, como no conceito botânico, é algo que cresce horizontalmente, polimorfo e que é composto, na visão desses autores, de linhas que crescem de maneira irregular e sem um caminho predefinido. Assim, essas linhas de fuga escapam a toda tentativa totalizadora e encontram, sem uma lógica definida, outras linhas e novos caminhos. Cabe aqui, talvez, tentar buscar o caminho de maior intensidade para que possamos conhecer melhor o que está acontecendo no mundo.

Se não podemos afirmar, com certeza, que os Estados Unidos criaram a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, pelo menos podemos dizer que ambos só existiram em função do solo fértil fornecido por eles. Como afirmou Robin Cook, ex-ministro britânico das Relações exteriores, “Bin Laden foi, no entanto, produto de um erro de cálculo monumental das agências de segurança ocidentais. Durante os anos 80, ele foi armado pela CIA e financiado pelos sauditas para travar a jihad contra a ocupação russa do Afeganistão” (1). O Estado Islâmico, por sua vez, só começou realmente a existir com a derrubada de Saddam Hussein por George W. Bush, sendo seu auge com a saída dos Estados Unidos do Iraque no governo Obama (2). Como pode ser percebido, os Estados Unidos reconhecem a necessidade de criar conflitos no Oriente Médio para atender seus interesses e, assim, Donald Trump apenas continuou a tradição dos presidentes estadunidenses. Entretanto, Trump tem contra si o fator da incompetência política que é inerente à extrema-direita pelo mundo, o que pode pesar muito no futuro.

O Irã acabou de iniciar (08/01/2020) a Operação Mártir Soleimani, atacando duas bases dos EUA no Iraque: Erbil e Ain Al-Asad. Não foi divulgado, ainda, se algum cidadão ou soldado estadunidense morreu ou foi ferido nesse ataque (3). A resposta iraniana, até aqui, pode ser considerada modesta, restando saber como o Pentágono se comportará.

Analisando as forças que mais importam nesse conflito, sabemos que os EUA precisam do conflito no Oriente Médio, Israel também tem um peso muito grande para os EUA e Trump procura se fortalecer, enquanto o Irã não pode ser humilhado pelas ações estadunidenses. Trump apostou alto, esperando criar um novo grande inimigo para a opinião pública de seu país, já que precisa disso para afastar qualquer problema maior que possa agravar a questão do impeachment, proteger os senadores republicanos que deverão votar contra o impeachment e manter uma vantagem para as próximas eleições presidenciais. Resta saber se o Irã irá aceitar o jogo proposto por Estados Unidos e Israel e não dar uma resposta à altura dos ataques sofridos. Não é interessante para nenhum país do mundo guerrear contra a maior potência mundial, mas, como vimos, nem sempre a lógica é cartesiana, o que significa que nem todas as cartas estão sobre a mesa.

Em pronunciamento feito agora (08/01/2020), em resposta aos ataques iranianos, Danald Trump afirmou que nenhum estadunidense ou iraquiano foi morto nos ataques. Com isso, Trump cantou vitória, fez leves ameaças contra o Irã, demonstrando não desejar uma escalada das agressões, e culpou a administração Obama pelos problemas, jogando para a plateia e seus eleitores. A única resposta prática, segundo o discurso de Trump, será mais sanções econômicas contra o país persa. Apesar da tímida resposta do Irã, ninguém sabe o caminho das linhas de fuga. Trump assassinou o principal general de um aliado, já que o Irã lutava contra o Estado Islâmico ao lado dos EUA. Com isso e com o rompimento do acordo nuclear por parte dos Estados Unidos, Trump fez de um aliado um inimigo potencial, uma vez que sabe da importância do conflito para seu país no Oriente Médio e para seus próprios interesses na política interna. Todavia, ninguém sabe ao certo os caminhos das linhas de fuga. O Irã e sua sociedade podem estar planejando micro ataques que dificultem muito a vida dos estadunidenses na região, uma vez que o tempo de um estado como o Irã não é o mesmo que a da terra do capitalismo. Outras respostas, mais imediatas, ainda podem acontecer por parte dos iranianos, mas, por enquanto, o desenho não parece ser de uma grande guerra.

Alexandre L Silva

Notas:

1) https://www.theguardian.com/uk/2005/jul/08/july7.development

(2) https://super.abril.com.br/historia/os-eua-criaram-o-estado-islamico-e-a-siria-o-fez-invencivel/

Também: https://www.novacultura.info/single-post/2017/05/20/Como-EUA-ajudaram-a-criar-a-Al-Qaeda-e-o-ISIS

(3) Acreditem, pode existir algum soldado estadunidense que não seja cidadão do país, já que imigrantes podem ir à guerra pelos EUA, mas nem por isso ganham a cidadania, como ocorria na cidade-estado de Atenas no século V a.C.

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