Só os vivos podem produzir: pandemia, depressão econômica e o desgoverno do Brasil

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Todos falam de recessão, nesse momento difícil em que o mundo se encontra. No Brasil, as coisas não são diferentes. Muitos economistas apontam um quadro de recessão no país para o próximo ano, com um recuo considerável do PIB brasileiro. Entretanto, o quadro que começa a se desenhar, para o mundo, é de uma grande recessão ou, até, de uma depressão. No caso brasileiro, o risco de uma depressão é cada vez maior, uma vez que a economia do país, antes da pandemia do SARS-CoV-2, já dava uma série de sinais que não andava bem (1). Além disso, o governo brasileiro caminha para um agravamento da crise, lutando de forma absurda contra o isolamento social e insistindo em medidas que prejudicam os trabalhadores e, por consequência, todo o país.

Não há uma única definição do que seja depressão, mas todos sabem que a depressão é caracterizada por um período muito mais severo na economia do que uma recessão. Na depressão, há uma drástica queda da grande maioria, senão de todos, os indicadores econômicos: queda drástica do PIB, grande aumento do desemprego, queda vertiginosa dos índices de investimento e produção, desvalorização da moeda (obviamente, não em todos os casos, pois a depressão pode ser mundial), falta de liquidez na economia, perda de confiança no mercado, indisponibilidade de crédito, falências e insolvências, queda no mercado de ações, deflação ou hiperinflação, aumento da dívida pública, redução do comércio internacional, alta volatilidade dos investimentos, alta das taxas de juros ou taxas baixas mas sem efeito e, o mais importante, uma queda brutal na qualidade de vida da maioria das pessoas, que certamente será refletida no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

A revista The Economist sugere que, buscando pela internet, há “dois critérios principais para distinguir uma depressão de uma recessão: uma queda no PIB real superior a 10% ou uma queda que dure mais de três anos” (2). A Grande Depressão, por exemplo, que teve seu início em 1929 nos Estados Unidos, preenche ambos os critérios. Outros especialistas acrescentam mais características para tentar definir uma depressão: altos índices de desemprego (cerca de 20% ou mais), queda de preço dos ativos, perda salarial real, falta de confiança dos mercados e acionistas, taxas de juros sendo cortadas, mas sem nenhum efeito nos investimentos, mercado imobiliário afetado fortemente (3).

Durante um bom tempo, muitos economistas apostaram que a questão da depressão já não existia mais e que o mundo tem meios para evitá-la. Seguindo Milton Friedman e seus professores, Arthur F. Burns e Homer Jones, economistas como Robert Lucas, da Universidade de Chicago, chegaram a afirmar que o problema capital da depressão já tinha sido resolvido para todos os fins práticos (4). O próprio Friedman afirmava que o Federal Reserve (sistema de bancos centrais estadunidenses) poderia ter evitado a Grande Depressão, fornecendo aos bancos mais liquidez. The National Bureau of Economic Research (Bureau Nacional de Pesquisa Econômica), para citar outro exemplo estadunidense, sequer elenca a questão da depressão (5).

Já no começo da crise provocada pela pandemia da COVID-19, ficava claro o risco de uma depressão. Mas, somente agora, a imprensa internacional e os economistas pelo mundo começam a pensar sobre o assunto. A diretora administrativa do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, afirmou que a crise do novo coronavírus pode causar “as piores conseqüências econômicas desde a Grande Depressão” (6). James B. Bullard, presidente do Federal Reserve Bank of St Louis, disse à Bloomberg que “a taxa de desemprego pode chegar a 30% no próximo trimestre e que a economia pode contrair-se em 50%” (7). O Goldman Sachs já prevê uma contração econômica de 34% e uma taxa de desemprego de 13,2% no segundo trimestre do ano, enquanto o Deutsche Bank de 33% de contração e 12% de desemprego (8).

No que diz respeito ao Brasil, as previsões não são nada boas. No início de abril, a melhor previsão era da Fitch Ratings, com uma redução de 2% do PIB em 2020. A JGP Gestão de Recursos aponta para 6% (9). O Instituto Internacional de Finanças afirma que o PIB brasileiro cairá abaixo da média global, tendo um recuo de 4,1% (10). O Banco Mundial, por sua vez, declarou que o PIB brasileiro deverá cair 5% (11). Finalmente, a OMC (Organização Mundial do Comércio) chega a firmar que o PIB do Brasil encolherá 11,6 % no ano em que estamos (12).

Apesar de tudo que foi colocado acima, em 20 de março de 2020, o governo brasileiro anunciou, oficialmente, uma previsão de crescimento (crescimento, isso mesmo!) de 0,02%. Uma semana antes, já com o conhecimento da crise, o crescimento apontado pelo governo era de 2,1% (13). Como explicar tais anúncios? Má fé e mentira, incompetência, demência? E o mais incrível nisso tudo é que não é só o governo que é capaz de tais afirmações. O USB AG, uma instituição financeira com sede em Zurique, afirmou que, com a pandemia, o brasil crescerá 0,7%; isso no início de março (14).

O mundo está diante do pior cenário econômico desde a Grande Depressão de 1929, segundo boa parte da imprensa internacional (15). Uma recessão que se encaminha para uma depressão tingida com as cores das bandeiras de praticamente todos os países. Diferente da Grande Depressão de 1929, essa nova depressão que se anuncia não tem por causa a economia humana, mas, sim, a própria natureza. Todavia, pelo menos uma coisa devemos aprender de 1929. A riqueza gerada pelos ‘Loucos Anos Vinte’ (Roaring Twenties) não teve uma divisão sequer perto de justa, com os ricos ficando com quase todo bolo e os pobres com seus salários achatados. Isso, aponta Hobsbawm, foi uma das grandes causas para o surgimento da depressão (16), pois impossibilitou o crescimento do consumo.

O governo brasileiro está longe, pelo que tudo indica, de aprender com a história. Contrato Verde e Amarelo, proposta de auxílio de duzentos reais, aumentada pela Câmara para seiscentos, demora para entregar o dinheiro do auxílio, socorro aos bancos infinitamente maior do que aos desempregados e aqueles que estão passando por dificuldades em seus empregos, burocracia massacrante para os mais pobres, luta para acabar com isolamento social, com os casos da doença aumentando.

Não é hora de ser ultraliberal. Apenas pensando primeiro em vidas e garantir o socorro àqueles que mais precisam é que o país, por tabela, poderá manter o seu principal capital: os brasileiros.

Caso a COVID-19 se espalhe, nosso sistema de saúde entre em total colapso e as mortes cheguem a índices alarmantes, como já começam a chegar, teremos um país arrasado e, por fim, a volta do isolamento social não servirá mais de nada, pois a doença já se terá alastrado de tal modo que não teremos mais como enterrar nossos mortes, se bem que nossa economia estará enterrada no Planalto.

Portanto, devemos encarar de frente a luta contra esse fantasma da depressão, pois, caso queiramos manter esse modelo ultraliberal, a derrota é certa. Entretanto, com o (des)governo que temos, há o sério risco do país mergulhar num caos econômico e social, a não ser que uma vacina ou um medicamento efetivo contra a COVID-19 apareça e nos salve de boa parte dessa insanidade para que possamos lutar livremente contra a outra parte, que é política.

NOTAS

1. Antes da pandemia, o desemprego já havia subido para 11,6% no trimestre com o fim em fevereiro de 2020. Vide: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/03/desemprego-aumentou-antes-de-pandemia-do-novo-coronavirus-crescer.shtml
O crescimento do PIB brasileiro foi de apenas 1,1% e, mesmo assim, o Financial Times desconfiou desse crescimento: https://www.ft.com/content/bc552d72-15cf-11ea-9ee4-11f260415385
Vários outros indicadores, como a grande desvalorização da moeda, demonstram que a economia brasileira, além de fraca, não é saudável para enfrentar um grande desafio.

2. https://www.economist.com/finance-and-economics/2008/12/30/diagnosing-depression

3. https://www.economicshelp.org/blog/glossary/economic-depression/

4. https://www.nytimes.com/2009/01/05/opinion/05krugman.html

5. https://www.nber.org/cycles/recessions_faq.html

6. https://www.rtbf.be/info/monde/detail_la-grande-depression-le-traumatisme-economique-du-20ieme-siecle?id=10479759

7. http://article19.ma/accueil/archives/126640

8. Ibid

9. https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/04/09/em-nova-onda-de-revisoes-economistas-esperam-queda-de-ate-6percent-do-pib-em-2020.ghtml

10. https://exame.abril.com.br/economia/iif-preve-que-pib-global-caira-28-e-que-brasil-encolhera-41-em-2020/

11. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-04/banco-mundial-preve-queda-de-5-do-pib-do-brasil-este-ano

12. https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/04/08/omc-preve-queda-de-ate-32-no-comercio-pib-sul-americano-desabaria-em-11.htm

13. https://exame.abril.com.br/economia/governo-passa-a-ver-crescimento-de-002-no-brasil-em-2020/

14. https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/11/com-pandemia-brasil-pode-crescer-apenas-07-em-2020-preve-banco.htm

15. Vide: https://www.bbc.com/news/business-52273988 também: https://www.nytimes.com/2020/04/14/us/politics/coronavirus-economy-recession-depression.html

16. HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX 1914–1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. P. 104 e ss.

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Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na UFF e na UERJ. Articulista de opartisano.org e escritor da New Order no Medium.

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Alexandre L Silva

Alexandre L Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na UFF e na UERJ. Articulista de opartisano.org e escritor da New Order no Medium.

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