Relações perigosas: o atentado contra o Porta dos Fundos e os protestos no Brasil de 2013

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Estava revisando alguns textos de Freud e Lacan para escrever um texto sobre o ódio e a política através da visão da psicanálise, mas tive que parar. Esse texto seria essencial para o entendimento do que ocorre no Brasil nesse momento, mas ficará para depois, em virtude de tudo que está sendo descoberto agora. Infelizmente, não tenho, diferente de outros textos que apresentei aqui, uma solução nem uma interpretação capaz de construir uma teoria fundamentada sobre os fatos atuais. Portanto, deixarei apenas algumas observações para que não possamos ser enganados por discursos rasos sobre o atentado contra a produtora do Porta dos Fundos e suas consequências, na tentativa de esboçar o início do desenho de uma teoria para isso tudo.

Toda a imprensa noticiou o atentado ocorrido contra a produtora do Porta dos Fundos, em 24 de dezembro de 2019, no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro. Um grupo com interesses políticos atirou coquetéis molotov na sede da produtora, o que caracteriza um atentado terrorista, apesar de não ter sido registrado como tal pela Polícia Civil. Um possível motivo para isso, seria o fato do crime de terrorismo ser um crime federal, o que levaria a investigação para a Polícia Federal comandada por Sérgio Moro, algo que não seria desejável para um bom andamento da investigação, uma vez que os investigados pertencem, pelo que se sabe, ao integralismo, uma ideologia que também está presente na base de apoio do governo Bolsonaro (1).

A única pessoa reconhecida pela polícia, até o momento, no grupo que praticou o atentado é Eduardo Fauzi Richard Cerquise. Eduardo tem outras 24 anotações criminais, desde extorsão até violação da Lei Maria da Penha, e viajou para Paris em 29 de dezembro, um dia antes de ter a prisão temporária decretada. De lá, pelo que se sabe, foi para Rússia, onde tem uma namorada. Muitos partidária da esquerda comemoraram, já que consideram a Rússia um aliado e um país comunista, ledo engano. O partido de Vladimir Putin, Rússia Unida (Единая Россия) é um partido pragmático, com boas relações com seu principal oponente, o Partido Comunista Russo. Entretanto, encontramos diversas ideologias em seus quadros e o partido, por sua vez, define a si mesmo pela ideologia que chama “conservadorismo russo”. Também não pode ser esquecido que Putin esteve envolvido, segundo as investigações estadunidenses, na eleição de Donald Trump. Portanto, se for do interesse de Putin entregar Fauzi, ele será entregue, caso contrário, não. Putin age pragmaticamente, sem muito interesse em ideologias.

Outra notícia importante, não só para o caso em questão, saiu hoje na imprensa alternativa. Um vídeo republicado mostra uma das principais militantes das Manifestações de 2013, Eloisa Quadros (Sininho) anunciando uma greve de fome de dois rapazes do movimento Black Blocs pela soltura desse mesmo Eduardo Fauzi (2) que, por sinal, já era filiado ao PSL, uma vez que sua filiação é de 2001. Nunca é demais lembrar que o PSL é o partido pelo qual Jair Bolsonaro foi eleito e Sininho, por sua vez, é uma manifestante intitulada de esquerda, mas que combate, até hoje, o que chama de “esquerda institucional”, ou seja, a esquerda partidária, criticando duramente Dilma, o PT e todo o sistema político e institucional presente durante os governos do PT. Apesar disso, não pode ser chamada de anarquista, já que anseia pelo voto, segundo suas próprias palavras (3).

A relação entre as Manifestações de 2013 (Jornadas de Junho), principal motor para a queda de Dilma, e a extrema-direita que hoje está no poder está clara, uma vez que entre os black blocs encontramos integralistas, como Eduardo Fauzi, da Frente Integralista Brasileira e do PSL. Portanto, Sininho e seu grupo ou foram usados por essas pessoas para derrubar Dilma ou faziam parte, também, desse projeto.

No tocante às Jornadas de junho, a participação dos integralistas entre os black blocs não é a única indicação de que o golpe contra Dilma foi planejado. Rogério Chequer, líder do Movimento Vem Pra Rua, foi candidato ao governo de São Paulo, em 2018, pelo Partido Novo, um dos apoiadores das políticas econômicas de Bolsonaro. O MBL (Movimento Brasil Livre) é basicamente um movimento anti-petista e que foi acusado, pela Revista Fórum, de ser patrocinado pela Koch Industries, empresa petroleira estadunidense que tinha interesse em desestabilizar a Petrobras (4). Entre os nomes mais conhecidos do MBL temos: Kim Kataguiri, deputado federal pelo DEM (Democratas) de São Paulo; Renan Santos, empresário que responde a mais de 60 processos; Fernando Holiday, vereador de São Paulo pelo DEM. Todos eles apoiaram a candidatura de Bolsonaro. Outro movimento de extrema direita que estava presente em 2013 é conhecido como Revoltados. O grupo era liderado por Marcello Reis e tinha uma grande base de ofensas online contra Dilma e o PT, sendo que sua principal reivindicação era a intervenção militar no Brasil.

Apesar de ter deixado de fora muitos outros atores importantes para esse complexo quadro, tenho a certeza de que boa parte do desenho do poder está exposta. Portanto, nada foi por acaso e os pontos que ligam as relações de poder estão todos sendo ligados.

P.S.: O principal motivo de Eduardo Fauzi ter fugido para Rússia, ao que tudo indica, é que lá ele tem um filho de três anos com uma dançarina de 29 anos, de origem russo-israelense, chamada Anna Cherneykina (ex ou atual namorada). Apesar disso, o DECRETO Nº 6.056, DE 6 DE MARÇO DE 2007, que promulga o Tratado de Extradição entre a República Federativa do Brasil e a Federação da Rússia, celebrado em Moscou, em 14 de janeiro de 2002, não prevê, em nenhuma de suas partes, que a extradição possa ser negada em função de filhos ou família. Portanto, legalmente, ele pode ser extraditado (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2007/Decreto/D6056.htm).

Alexandre L Silva

Notas:

1) https://www.esmaelmorais.com.br/2019/12/integralista-e-nomeado-assessor-da-ministra-damares/

(2) https://www.brasil247.com/brasil/lideres-de-2013-fizeram-greve-de-fome-por-eduardo-fauzi-autor-de-atentado-ao-porta-dos-fundos

(3) https://ponte.org/elisa-quadros-sininho/

(4) https://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/13/politica/1426285527_427203.html

(5) https://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/13/politica/1426285527_427203.html

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.