Quem manda no Brasil e o que eles querem

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Convivi, ao longo dos anos, com pessoas de diferentes tendências políticas e de diversos partidos. Ao conviver com pessoas ligadas à extrema-direita, anos atrás, percebi que só se interessavam numa coisa: “se dar bem”. Exploravam esse nicho pouco concorrido da política para obter vantagens pessoais e o resto pouco importava. Com o crescimento dessa opção política, muitos hoje, insanos, passam a acreditar nos princípios extremos dessa forma de fazer política. Entretanto, Bolsonaro, exemplar antigo da extrema direita, tem como principal objetivo o “se dar bem”. Faz de tudo para isso, não importando o que destrua ou a quem prejudique. Esse egoísmo, somado a uma grande incompetência, explicam a facilidade com que foi encampado pelo ultraliberalismo.

Bolsonaro não tem, visivelmente, a capacidade de distinguir entre neoliberalismo e ultraliberalismo, não conhece as diferenças entre Milton Friedman e Friedrich Hayek, por exemplo. Também não tem conhecimento das bases macroeconômicas brasileiras e, para ele, pouco importa. Seu interesse é no poder e em destruir seus inimigos. Apesar disso, foi construído, por um projeto político internacional e pelos preconceitos de boa parte do povo brasileiro, como uma grande força para disputar uma eleição corrompida.

Hoje, Bolsonaro atende a seus interesses e, para isso, obedece fielmente os desejos e ordens das elites nacional e internacional. Nesse ponto, poderia haver uma contradição entre essas elites, mas não há. A elite econômica brasileira é subserviente à internacional, principalmente àquela dos Estados Unidos. Dessa forma, Bolsonaro, alguém com um pensamento estreito e, em muitos pontos, fascista, foi encampado por uma direita ultraliberal, do ponto de vista econômico.

O governo joga com a categoria “emprego” politicamente, mas, segundo o projeto ultraliberal, o emprego não tem a mínima importância. A curva de Phillips que apresenta um trade off (escolha) entre desemprego e inflação é deixada de lado e substituída pela regra de Taylor, que foca no trade off entre taxas de juros e taxa de inflação. Portanto, nesse projeto, o desemprego é um mero detalhe e não tem espaço importante no campo macroeconômico. Isso demonstra que, em sua política econômica, a única coisa que interessa é o mercado e os mais ricos. As consequências disso todo mundo sente, mesmo que não queira admitir. Quem pode citar uma política diretamente positiva do governo em questão?

O Estado, dentro da visão ultraliberal que comanda a economia brasileira, deve ser reduzido ao seu mínimo. O Estado, segundo esse projeto, só deve cuidar da segurança, sendo ela entendida como proteção da propriedade. Em outras palavras, o Estado deve apenas proteger os ricos.

Esquartejamento da Petrobras e sua possível venda, venda do pré-sal a preço de banana, venda das estatais, abertura total da economia para os estadunidenses, reforma da Previdência e aumento do tempo de serviço (trabalhar mais), pacote de medidas fiscais e pacto federativo, redução dos salários, fima da estabilidade para o servidor público, arrocho na aposentadoria de militares que não possuem uma alta patente, fim dos fundos públicos e direcionamento desses fundos para banqueiros e rentistas (dentro desse pacote, como pagamento da dívida pública), ataque às universidades públicas etc. Tudo isso representa o desmonte do Estado e o favorecimento das classes mais ricas.

Enquanto isso, a extrema pobreza dispara no país desde o início do planejamento do golpe em Dilma. Em 2018, ainda no governo Temer, mais de 13 milhões e meio (6,5 por cento da população) viviam com até 1,9 dólar por dia. Para se ter uma ideia do problema, em 2014, o índice era de 4,5 %. A desigualdade social, também, só aumenta. Segundo o IBGE e o índice Gini, indicador da diferença de renda, subiu pelo 17º (décimo sétimo!) trimestre seguido. Quem mais perdeu foi justamente a população mais pobre, 5% dos mais pobres perdeu 3,2% de sua renda Enquanto isso, 1% dos mais ricos aumentou seu rendimento em 8,4 em 2018.

O que foi dito até aqui serve para afirmar o óbvio: quem manda no Brasil são as elites econômicas a serviço dos interesses estrangeiros. Alguém poderia argumentar que isso sempre aconteceu, o que seria verdadeiro, mas nunca de forma tão completa. Não há preocupação nenhuma com a pobreza e a miséria e a classe média continua sendo achatada. O Estado brasileiro está correndo um grande risco de praticamente desaparecer, restando o mínimo para dizer que existe um país chamado Brasil. Para a classe privilegiada, não há moral e, por isso, uma pessoa como Bolsonaro, com tantas acusações pesadas sobre suas costas, é aceito como presidente.

Alexandre Lessa da Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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