Por que não há uma grande união entre as esquerdas brasileiras?

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A questão do poder — ou das relações de poder — está presente em todas as relações humanas, e isso não é diferente quando observamos os partidos políticos (1). Este texto não é uma análise partidária ou apaixonada da falta de união entre as esquerdas, mas uma visão racional da relação entre partidos políticos e poder.

Nessas eleições municipais de 2020, vemos o PSOL de Boulos, em São Paulo, disputar os mesmos votos com o PT de Jilmar Tatto. No Rio de Janeiro, não houve um acordo para o lançamento de Marcelo Freixo (PSOL) como candidato das esquerdas e, em virtude disso, Benedita da Silva (PT) e Renata Souza (PSOL) também disputam o mesmo eleitorado. Mas, afinal, o que inviabiliza um acordo entre os partidos da esquerda?

Essa akrasia (2) presente na relação entre os partidos da esquerda no Brasil pode dificultar o combate à extrema direita que atualmente está no poder e inviabilizar sua queda. Entretanto, precisamos entender os motivos para esse desencontro e buscar uma resposta para resolver o difícil impasse que se encontra nesse espectro político.

O PT é o fiel da balança, uma vez que, como maior partido de esquerda, seu posicionamento orientará o caminho a ser seguido pela esquerda. Não foi divulgado o que realmente aconteceu no Rio de Janeiro para impedir a candidatura de Freixo a prefeito, e Benedita como vice. Em São Paulo, por sua vez, manifestações de personagens do PT deixaram transparecer mais o ocorrido e, daí, podemos ter uma ideia do que está acontecendo.

Guilherme Boulos (PSOL) sempre foi o candidato mais viável da esquerda para uma eleição em São Paulo, todos já sabiam disso. Entretanto, o PT decidiu lançar, mesmo sem chances de ganhar, Tatto como candidato a prefeito. A cada dia, isso vem se confirmando, mas Tatto continua a ter um número de votos que pode significar a não ida de Boulos para o segundo turno das eleições. Muitas personalidades já sugeriram ao PT para retirar a candidatura de Tatto. Entretanto, a ala mais forte do partido defende a manutenção da candidatura de Tatto, afirmando que é a que mais tirou votos do candidato da extrema direita, o que, de fato, não é um argumento válido, pois poderia ajudar muito Boulos a tirar esses mesmos votos.

A questão, aqui, é quase uma escolha de Sofia para o PT. Apoiar Freixo no Rio e, principalmente, Boulos em São Paulo, é reforçar o PSOL, o que implicaria duas grandes consequências para o Partido dos Trabalhadores e para o Brasil. A primeira seria um fortalecimento da esquerda, fazendo com que ela tenha reais condições de competir contra a direita e a extrema direita. A segunda, seria um enfraquecimento do PT, uma vez que passaria a apoiar candidatos de um outro partido, correndo o risco, no caso de Boulos, de criar uma liderança nacional de esquerda fora do PT e que competiria, em outras ocasiões, com o próprio PT.

Eis aí o impasse que o PT enfrenta: poder deixar de ser o principal partido de esquerda no Brasil para fortalecer a luta contra uma política fascista, não tendo a certeza que esse fortalecimento será o suficiente para derrotar a extrema direita, ou tentar continuar a ser o principal partido da esquerda brasileira e enfraquecer o campo de seu espectro político.

No atual momento, eu defendo a união, mas sei o quanto ela é difícil.

Alexandre L Silva.

NOTAS

(1) …captar o poder em suas extremidades, em suas últimas ramificações … nas suas formas e instituições mais regionais e locais, principalmente no ponto em que ultrapassando as regras de direito que o organizam e delimitam (FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979. P.182).

(2) Akrasia em Grego, ou acrasia, em Português significa fazer uma escolha que não é a correta, apesar do conhecimento do que é o melhor. Assim, um fumante, apesar de saber que o cigarro faz mal, escolhe continuar fumando, e isso é um exemplo de acrasia. Platão, em seu diálogo Protágoras (358d), é um dos primeiros a explorar o tema, argumentando que a akrasia é, na verdade, um produto da ignorância (a pessoa, na verdade, não conhece o que é o melhor, apenas pensa que conhece). Aristóteles, por outro lado, afirma que a akrasia, traduzida comumente como incontinência, é consequência de algum pathos (paixão, emoção) e está localizada na opinião que não acompanha a reta razão (Ética à Nicômaco, Livro VII, 1–10). Também, para Aristóteles, há dois tipos de akrasia: impetuosidade (propeteia) e fraqueza (astheneia).

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