Pentecostalismo, Neopentecostalismo e a Ascensão da Extrema-Direita no Brasil: Parte II : A teologia do domínio e a ascensão da extrema-direita.

Max Weber, em em sua obra A ética protestante e o espírito do capitalismo, já demonstrava que o protestantismo, em especial certas vertentes pós-luteranas chamadas de “protestantismo ascético” ou puritanismo, eram um solo fértil para o desenvolvimento do capitalismo. Conceitos como predestinação (calvinismo, pietismo), separação entre puros e impuros (anabatistas), a importância do trabalho, da vocação (Calvino), disciplina favorecem o desenvolvimento do capitalismo. Afinal, como o capitalismo iria se desenvolver plenamente dentro de uma ética católica, em que a usura é conceituada como pecado? Portanto, já de início a ética protestante tem uma grande vantagem para o capital e essa vantagem, com o surgimento dos “puritanismos”, só aumenta. Por exemplo, quando se fala em predestinação, duas consequências aparecem: a riqueza de alguém na terra é sinal de sua escolha por Deus e, também, se alguém é pobre é porque Deus quis assim. Com isso, a riqueza passa a ser considerada, como afirma Weber, um fim em si mesma.

Em 2019, a Netflix lançou em seu catálogo uma série documental chamada The family. Essa série apresenta a história de uma organização que, por sinal, não aceita ser chamada assim. Baseada na figura de Jesus, ela pretende influenciar, através de sua interpretação do cristianismo, todos os poderosos dos Estados Unidos e do mundo. Há um certo exagero na série, mas fica evidente através de fotos, vídeos, depoimentos e documentos que essa organização tem uma grande influência e, portanto, também um grande poder nos EUA e no mundo. Uma organização evangélica que se apresenta como uma espécie de igreja invisível cuja função seria aconselhar e apoiar aqueles que são os escolhidos. E quem são os escolhidos? A resposta é fácil: os poderosos. Assim como essa organização, numerosas igrejas protestantes têm uma grande influência no cenário político e econômico estadunidense. Como a própria série afirma, as igrejas são as instituições menos transparentes em relação ao fisco dos Estados Unidos e isso é só uma amostra do poder que essas igrejas têm dentro do país. A Família certamente é uma das mais poderosas “igrejas” e talvez a primeira em que vemos surgir um novo tipo de teologia chamada de teologia do domínio.

Como já descrevi na outra parte desse texto (https://medium.com/@alexandresilva_94761/pentecostalismo-neopentecostalismo-e-a-ascens%C3%A3o-da-extrema-direita-no-brasil-parte-i-descri%C3%A7%C3%A3o-e27d80c6288e) as igrejas neopentecostais costumam ser conhecidas, entre outras coisas, por sua teologia da prosperidade, ligando o sucesso na vida terrena ao sucesso na vida espiritual. Assim, essas igrejas prometem mostrar o caminho para o sucesso material, já que você faz parte, entrando na igreja, do povo de Deus e, com isso, merece o sucesso. A teologia do domínio não abandona a da prosperidade. O correto seria afirmar que a teologia do domínio engloba a da prosperidade, visto que é um passo além dos objetivos dessa primeira.

Figuras como Peter Wagner (teólogo estadunidense), David Harold Chilton (pastor estadunidense) e Gary Kilgore North ( economista estadunidense membro da Escola Austríaca) são representantes teóricos da teologia do domínio. Basicamente, a teologia do domínio afirma que, com Adão, o homem tem o domínio sobre a Terra. Após o pecado original, esse domínio é perdido, mas Deus faz de Israel o povo da promessa. Entretanto, com o sacrifício de Cristo, esse domínio é repassados aos crentes e eles têm por dever e direito dominar o mundo, cada uma de suas nações, para que Cristo possa voltar. Em outras palavras, os crentes deverão assumir o poder terreno que é seu por direito divino. Cabe a essas igrejas dominar o poder econômico e político em cada país. Cada fiel tem papel importante nessa história, já que é parte integrante desse domínio, um eleito para abrir caminho para a volta de Cristo.

Dessa forma, vemos esse tipo de protestantismo abrir caminho para Donald Trump, nos Eua e Jair Messias Bolsonaro no Brasil. Seu objetivo é conquistar cada vez mais o poder e, com isso, acumular riqueza e força para que seus líderes assumam as principais posições de poder no mundo. Quem ainda tiver alguma dúvida para isso, recomendo consultar o livro de Edir Macedo, Plano de Poder, para perceber que o objetivo do livro é que a igreja governe o país através de suas lideranças, não respeitando o princípio de um Estado laico e, portanto, sendo um atentado contra um dos pilares da democracia.

Devo lembrar que o voto evangélico foi o maior responsável pela eleição de Bolsonaro para presidente do Brasil em 2018. Os evangélicos que votaram em Bolsonaro representam mais que o dobro daqueles que votaram em Fernando Haddad. Em números, a diferença a favor de Bolsonaro foi de 11.552.780, maior que a diferença total entre os candidatos (10.715.087). Elegeram um candidato que ora é católico, ora é batizado por um pastor, mas que se comprometeu com a agenda moral evangélica e com o apoio político a esse grupo. Portanto, o rebanho seguiu seus pastores na busca da grande transformação de ovelhas em lobos e na busca pelo domínio através da religião. O resultado disso todos sabem: o atraso intelectual, cultural, político e econômico do Brasil, assim como a ascensão da extrema-direita em território nacional.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na UFF e na UERJ. Articulista de opartisano.org e escritor da New Order no Medium.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na UFF e na UERJ. Articulista de opartisano.org e escritor da New Order no Medium.