Pentecostalismo, Neopentecostalismo e a Ascensão da Extrema-Direita no Brasil: Parte I: Descrição do Pentecostalismo, do Neopentecostalismo e da Teologia da Prosperidade

Existem várias religiões monoteístas no mundo, as três maiores são judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Em todas três encontram-se divisões. O objeto de investigação deste texto é, na realidade, uma subdivisão do cristianismo: o protestantismo neopentecostal e sua relação com a política brasileira. Portanto, o texto começará com uma descrição do pentecostalismo e do neopentecostalismo para, só depois, entrar na questão política. Para tal, resolvi dividir essa investigação em dois textos: o primeiro uma descrição do pentecostalismo, do neopentecostalismo e da teologia da prosperidade. O segundo, uma apresentação da teologia da dominação e sua relação com a política brasileira, em especial com a extrema-direita e a eleição de 2018. Como não tenho muito tempo para escrever, só escreverei a segunda parte se houver leitores para ela. Medirei isso segundo o número de aplausos, alguns poucos já bastam, mas nenhum significa que o texto não tem interesse e não vou perder meu tempo para não ser lido.

Há inúmeras divisões dentro do cristianismo, mas as principais são: catolicismo, ortodoxia e protestantismo. O protestantismo tem sua origem no século XVI com Martinho Lutero (Martin Luther, em Alemão) e a chamada Reforma Protestante, uma cisão que nasceu de críticas à doutrina católica ( as 95 Teses de Lutero) e apoio dos príncipes luteranos ( a famosa Carta de Protesto) que não consideraram as teses de Lutero, como o fez a Igreja Católica, uma heresia. Apesar de não ser a primeira divergência no seio da Igreja, Lutero foi o primeiro a realmente provocar uma separação dentro do cristianismo ocidental duradoura. Assim, o protestantismo cresce na Europa e se diversifica com a criação de diversas correntes. Os luteranos na Alemanha (depois de 1517), os anglicanos (1534) na Inglaterra, o calvinismo ou presbiterianismo (ainda no século XVI) (Suíça, Holanda e outras partes da Europa), os batistas (século XVII, ingleses e holandeses), pietistas (Alemanha, século XVII), puritanos (século XVII, na Inglaterra). Chegando à América, em especial nos EUA, a pluralidade de denominações explodiu naquele país. Igrejas do protestantismo clássico começaram a se transformar e novas denominações foram surgindo. Aquelas que interessam ao texto tem sua origem logo no início do século XX, as pentecostais e, posteriormente, as neopentecostais.

O pentecostalismo é, geralmente, dividido em três ondas, apesar de alguns analistas acrescentarem uma quarta.

A primeira onda pentecostal (pentecostalismo clássico) tem seu primeiro grande evento, segundo alguns autores, em 1906, em uma igreja na rua Azusa (Azusa Street Mission), em Los Angeles, Califórnia, liderada por William Joseph Seymour, um pregador afro-americano. Entretanto, em 1901 Agnes Ozman, uma estudante do Bethel Bible College de Charles Parham em Topeka, Kansas, é considerada, por muitos, a primeira pessoa a “falar em línguas” e a primeira manifestação do pentecostalismo nesse sentido. Charles Parham, professor de Ozman, pregador e aquele que lançou as bases do pentecostalismo, fundou um movimento de igrejas independentes chamado de Apostolic Faith (Fé Apostólica), mas antes disso já havia criado e ensinado as bases do pentecostalismo. Parham foi um homem controverso, com acusações de sodomia, práticas racistas e simpatia pela Ku Klux Kan. Dessa forma, esse movimento é marcado pela forte presença de mulheres, afro-americanos e racistas, mas todos desenvolvendo uma espécie de diálogo, já que a doutrina e a necessidade de crescer os unia. Igrejas pentecostais históricas, como a Assembleia de Deus e a Igreja do Evangelho Quadrangular nascem desses eventos e logo chegam ao Brasil, juntamente com a Congregação Cristã, fundada pelo italiano Louis Francescon.

Em relação à doutrina, a primeira onda é marcada por alguns atributos importantes. Antes de tudo, pentecostalismo vem de Pentecostes, termo advindo do grego Πεντηκοστή (pentekostē) que significa “quinquagésimo”. Diz respeito, portanto, ao festival celebrado no quinquagésimo dia após o domingo de Páscoa, em que o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos e seguidores de Jesus enquanto estavam em Jerusalém comemorando a “festa das semanas” (Shavuot — do hebraico:שבועות, “[sete] semanas” ). Assim, essa simbologia remete a um “segundo batismo”, sendo o primeiro feito por água e o segundo pelo Espírito Santo (fogo), tal qual acreditam, os fiéis, acontecer em suas igrejas. A glossolalia, suposta capacidade de falar línguas desconhecidas através de transe espiritual, é outro fator presente no pentecostalismo desde suas origens. A cura espiritual e as “profecias” também são características presentes nessa subdivisão do protestantismo. Aliás, entre “os dons” encontrados nessa vertente, os principais são os que já foram citados: a glossolalia, a fé que cura e as revelações (profecias). Perceba-se, aqui, a grande importância do Espírito Santo nessa doutrina. Além das características citadas, são encontradas, principalmente nas primeiras igrejas brasileiras que pertencem ao início do pentecostalismo: um aguerrido anticatolicismo, a crença na proximidade da volta de Jesus Cristo e um comportamento asceta que negava o chamado “mundo”.

A segunda onda (Pentecostalismo da Cura Divina, Pentecostalismo recente,Renovação Carismática, Pentecostalismo Neoclássico) nasceu entre as décadas de 1950 e 1960. Na Califórnia, na igreja Episcopal em 1960, encontra-se sua primeira consolidação. Privilegiou, essa onda, os “dons extraordinários”, com forte ênfase na glossolalia e a renovação, ao invés da criação, das denominações já existentes, incluindo as tradicionais. Assim, fiéis que passaram por supostas experiências com o Espírito Santo permaneceram em suas denominações. Episcopais, anglicanos, batistas, etc, passaram a ter uma corrente pentecostal dentro de suas igrejas. Essa onda chegou até a Igreja Católica, com o surgimento dos católicos carismáticos, em 1967. Entretanto, novas denominações também surgiram nesse período. No Brasil, denominações tradicionais e novas ganham força nesse período, podendo ser citadas: a Igreja do Evangelho Quadrangular, a Casa da Bênção, a Igreja Pentecostal Deus é Amor, a Igreja Evangélica Pentecostal da Bíblia no Brasil e a Igreja Evangélica O Brasil para Cristo. Entre as características dessas igrejas, podem ser citadas: forte ênfase na cura divina, prática do exorcismo, diversificação dos meios de divulgação da doutrina (tendas armadas em ambientes públicos, radiodifusão, aluguel de teatros e cinemas, cruzadas de evangelização).

A terceira onda (Neopentecostalismo, Movimento das Maravilhas, Movimento dos Sinais e Maravilhas) começa por volta dos anos 1970, quando a palavra “neopentecostal” é usada pela primeira vez para designar um grupo de igrejas, nos EUA, não alinhadas com as denominações da época, mas que seguiam a visão pentecostal. Em 1983, Peter Wagner, um dos apoiadores do movimento que surgia, cunhou a expressão “terceira onda” e afirmou que as duas primeiras ondas continuavam, mas agora, na terceira onda, o Espírito Santo estaria vindo com “sinais e maravilhas”. Isso acabaria por dar mais importância aos sinais (manifestações corporais, risadas, quedas, gritos, urros) do que a glossolalia e fortalecendo, também, as profecias e as curas. Na década de 1990, ocorre a Benção de Toronto, um termo cunhado por jornalistas britânicos e que diz respeito a um conjunto de avivamentos em que multidões eram conduzidas pela Associação de igrejas Vineyard, também conhecida como Movimento Vineyard. A semente dessa associação data de 1975, quando Kenn Gulliksen reuniu alguns estudos bíblicos no clube feminino de Beverly Hills (EUA). Esses estudos ficaram muito populares no mundo das celebridades, entre elas Bob Dylan. Em 1977, John Wimber (músico, quaker e, posteriormente, pastor) fundou Capela do Calvário (Calvary Chapel), uma associação de igrejas protestantes, em Yorba Linda, Califórnia. Entretanto, pelo ministério do Espírito Santo e pela ênfase nas curas, houve um conflito entre os membros da associação. Em 1982, Wimber muda o nome de sua igreja para Anaheim Vineyard Christian Fellowship. Gulliksen, a seguir, entregou as igrejas sob sua supervisão a Wimber, iniciando sua liderança no movimento Vineyard. Alguns tópicos que caracterizam Vineyard são: o ensino demonstrativo de sinais e maravilhas de John Wimber, um ambiente que exige menos preparação de seus fiéis (dizia: “venha como você é”), afastar qualquer atmosfera dogmática, ênfase na conexão com Deus através da adoração através da “música contemporânea de adoração (Wimber foi cantor e pianista de sucesso, tendo passado pelo The Paramours, grupo posteriormente chamado The Righteous Brothers), o clero é formado através de anos de serviço no papel de liderança leiga da igreja, no lugar da formação em seminários, como era o costume nas igrejas pentecostais. Vineyard tem igrejas afiliadas em todo o mundo e o movimento dos sinais e maravilhas só fez crescer desde então.

O neopentecostalismo, com a difusão em escala midiática do “evangelismo do poder” (power evangelism), tenta se situar entre a tradição bíblica e um modo particular de ser cristão. A própria Bíblia é interpretada através de sinais, maravilhas, revelações e contato direto com o Espírito Santo. Técnicas de marketing são usadas para atrair e manter fiéis. O demônio, assim como suas legiões, é frequentemente citados. A perseguição das religiões de matriz africana, em especial no Brasil, também está muito presente. E tudo isso é feito atavés de megashows em megaigrejas, utilizando táticas e rituais que remetem ao paganismo e se fundamentam num maniqueísmo cósmico e moral entre o bem e o mal. O neopentecostalismo, de modo bem weberiano, vez a trazer na sua ética e na sua teologia, aquela da prosperidade, uma relação íntima com o capitalismo. O evangelho da prosperidade (também chamado de evangelho da saúde e da riqueza, evangelho do sucesso e fé de semente) entende a Bíblia como um contrato entre Deus e seus crentes, contrato esse que garante a saúde e as bençãos financeiras para aqueles que estão no mundo material. A fé, as doações à igreja e a fala ou confissão positiva ajudam a aumentar essas dádivas. Dentro dessa perspectiva, a pobreza e a doença são vistas como maldições e, por isso, deve ser procurada uma reconciliação com Deus, através de dízimos, doações, etc, para que essas maldições terminem. O empoderamento do povo de Deus também faz parte dessa doutrina, já que Deus sempre quer o melhor para o seu povo. Nos EUA, tele-evangelistas como Jimmy Swaggart e Jim and Tammy Bakker defenderam essa teologia. No Brasil, todas as grandes denominações neopentecostais defendem a doutrina. Igreja Universal do reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja de Nova Vida, Igreja Renascer em Cristo, Igreja Mundial do Poder de Deus, Comunidade Sara Nossa Terra, Igreja Paz e Vida, Igreja Cristo Vive são exemplos de neopentecostalismo e difusão da teologia da prosperidade.

Aviso: como não houve nenhum aplauso indicando interesse, não escreverei a segunda parte.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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