ONU: desigualdade e concentração de renda são os grandes problemas do Brasil

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A ONU divulgou seu relatório de Desenvolvimento Humano 2019, com dados sobre 2018 e abarcando 189 países ( pagina em Inglês:

http://report.hdr.undp.org/). Nesse relatório, o Brasil ocupa a posição 79, segundo o IDH (índice de desenvolvimento humano), com índice de 0,761 em 2018, apenas 0,001 de aumento no índice em relação ao ano de 2017, o que o fez cair uma posição em relação a 2017 e 3 posições em relação a 2013. Mas isso não é o que mais chama a atenção nos indicadores da ONU. A concentração de renda e a desigualdade são os pontos mais importantes, referentes ao Brasil, desse estudo.

Um esclarecimento se faz necessário, antes da abordagem desses dois temas. Desigualdade e concentração de rendas estão interligados no estudo da ONU, mas não são a mesma coisa. A concentração de renda é uma questão econômica, enquanto a desigualdade é trabalhada segundo uma série de fatores tais como a economia, a tecnologia, meio ambiente, clima, direitos, políticas, entre outros. Portanto, a concentração de renda é um dos aspectos da desigualdade, segundo a ONU.

No tocante à desigualdade, o Brasil é o sexto país mais desigual do mundo, empatado com Botswana, na África Austral, com o Coeficiente de Gini de 53,3 (quanto menor o valor do coeficiente, menos desigual é o país). Dessa forma, pode ser afirmado que o Brasil é um dos campeões da desigualdade pelo mundo, apesar de todas as vantagens climáticas e ecológicas que ainda temos. Isso significa que o Brasil aumentou sua desigualdade em relação a outros países que o Gini brasileiro é o pior desde 2012, pelo menos.

Quanto à concentração de renda, o Brasil é a segunda maior concentração de renda no mundo, só perdendo para o Catar. Em números, 1% da população mais rica concentra 28,3% da renda brasileira (29% no Catar). Também os 10% mais ricos concentram 41,9% do total da renda brasileira. Entretanto, quando analisamos os 40% mais pobres, vemos que eles possuem apenas 10,6% da renda. Esses dados revelam o quanto a concentração de renda é prejudicial ao país.

Enquanto isso, o Jornal Nacional, da TV Globo, aponta a corrupção como o problema que mais preocupa os jovens brasileiros, segundo uma pesquisa. A corrupção é um problema importante em todo mundo, mas está longe de ser o principal problema brasileiro. A concentração de renda e a desigualdade, usando a terminologia da ONU, constituem, juntas, o principal problema de nosso país e do mundo. Não há desenvolvimento humano nem crescimento sem um mínimo de igualdade, coisa que não ocorre no Brasil. O que passa a existir é apenas exploração, deixando os mais pobres sem acesso ao mínimo de condições para se ter uma vida digna e poder, mesmo dentro de uma visão capitalista, buscar um desenvolvimento enquanto classe e enquanto indivíduo.

Já abordei, em outro texto, o quão perversa é nossa divisão de renda, o que gera uma falta de preocupação da camada mais rica em produzir e gerar empregos. A renda do 1% mais ricos só cresceu nos últimos anos, mesmo com a crise. Por outro lado, os mais pobres só vem perdendo poder de compra, além da inflação ser mais pesada para a camada mais pobre. Aliás, comparativamente, a inflação é inversamente proporcional à riqueza, isto é, quanto mais você tem, menor a inflação. Assim, como um pobre será capaz de se especializar, estudar e fazer um bom trabalho se ele ganha cada vez menos, tem um custo de vida maior e é obrigado, portanto, a trabalhar mais para poder sobreviver. Do outro lado, por que um rico irá investir na produção e no emprego, já que ganha cada vez mais não fazendo isso? A lógica é simples, quem paga pela crise são os pobres e apenas eles.

Quanto às políticas econômicas e sociais do governo Bolsonaro, vemos que elas só tendem a aumentar a desigualdade e a concentração de renda. Quando um trabalhador é despedido e, ao invés de receber uma multa de 40% de seu Fundo de Garantia, passa somente a receber 20%, esse trabalhador terá uma renda menor, enquanto seu empregador gastará menos e, assim, terá uma renda maior. O mesmo acontece com o valor da aposentadoria, reduzida por Bolsonaro e, então, gerando uma renda menor para que é mais pobre. Também, aumentar o tempo de vida e de contribuição para se aposentar terá o mesmo efeito para os assalariados. Outro ponto importante são os cortes que estão sendo feitos no cálculo do salário mínimo, reduzindo o poder de compra de quem o recebe ou o tem na base de cálculo de seu salário.

O que vemos no Brasil, portanto, é o agravamento dos principais problemas do país através de políticas econômicas ultraliberais, assim como aconteceu no Chile. Defender uma posição contrária a essa é abandonar a racionalidade e optar pela camuflagem de dados e pela mentira. O governo não está fazendo nada para melhorar esses problemas, pelo contrário, só os agrava, como demonstramos. Entretanto, o governo sabe que as crises do capitalismo são cíclicas e, nesse momento, reza, ou melhor, ora para que essa crise termine por conta do próprio movimento do capitalismo. Todavia, mesmo com a crise encerrada, a concentração de renda e a desigualdade permanecerão sendo os verdadeiros problemas do Brasil.

Alexandre L Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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