O que significa “GGG” para a extrema-direita e os conservadores

GGG significa, no mundo da política estadunidense, Deus (God), armas (guns) e gays. O triplo G representa uma plataforma de campanha da extrema-direita americanas e dos conservadores para eleger candidatos dessa corrente política. Certamente, a direita americana teria dificuldades em eleger candidatos que tem como plataforma simplesmente o corte de impostos dos mais ricos e o enfraquecimento das políticas sociais. A classe trabalhadora branca e protestante americana precisaria de um inimigo mais próximo que pudesse odiar, de algo que lhe desse segurança e a empoderasse e, também, de um grande ideal que a protegeria. Os três G’s correspondem a tudo isso. O inimigo, aquele que ameaça a família tradicional americana, seus ideais, a base sólida da América branca é a comunidade LGBT, representada, por eles, pela palavra “gay”. O empoderamento vem do uso do segundo G, das armas, que também reforça o individualismo e a visão machista de mundo. O terceiro G, Deus, é o ideal da América protestante e aquele que deve guiar os passos de toda humanidade; obviamente, a interpretação de Deus do protestantismo branco estadunidense.

Políticos como Newt Gingrich (deputado do Partido Republicano), Jim Inhofe (senador do Partido Republicano) e o próprio Donald Trump defendem essa plataforma e se elegeram com a ajuda dela. A partir do 11 de setembro, cresce a ideia de uma guerra entre as civilizações cristã e muçulmana, junto com um aumento do medo e da falta de segurança, terreno fértil para os sectários da direita e dos ideais evangélicos. A ideia defendida pelos principais pensadores sociais dos séculos XIX e XX (Friedrich Nietzsche, Auguste Comte, Herbert Spencer, Emile Durkheim, Max Weber, Karl Marx, Sigmund Freud) de que o pensamento religioso iria passar por um alto índice de enfraquecimento parece não se sustentar, o que leva ao enfraquecimento do conceito de Estado laico. Dessa forma, várias igrejas e organizações cristãs nos Estados Unidos começam a ganhar mais poder e influenciar “as pessoas certas”. Há uma simbiose entre política, religião e capitalismo que favorece, por sua vez, o machismo e demais preconceitos. A comunidade LGBT está, mais uma vez, na linha de tiro, e não só nos EUA. Um exemplo disso é a relação entre uma organização americana cristã, conhecida como The Fellowship ou The Family, e o projeto de lei para a proibição de práticas homoafetivas em Uganda que chegou a prever pena de morte para essas práticas.

No Brasil, fica evidente a influência desse tipo de plataforma na eleição de 2018. Não só na eleição do candidato de extrema-direita à presidência, Jair Bolsonaro, mas também na de inúmeros deputados e senadores. Fake news atacando assuntos pontuais (parte da estratégia americana) como a famosa mamadeira em forma de pênis, masturbação de bebês, “ideologia de gênero”assolaram o mundo político brasileiro. Juntamente com isso, a promessa, por parte de Bolsonaro, de liberação do porte de armas e a defesa do candidato por parte dos mais conhecidos pastores e líderes neopentecostais impulsionaram a extrema direita para a vitória nas eleições.

Enquanto isso, o Brasil registra uma morte de LGBT a cada 16 horas, o prefeito do Rio de Janeiro tentou, por todos os meios, censurar na Bienal do Livro uma revista em quadrinhos que mostrava um simples beijo entre dois rapazes, o Governador de São Paulo manda apreender apostilas que abordam a diversidade sexual e a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo Jair Bolsonaro, responsável pela ideia da mamadeira citada no texto, produz, sem parar, discursos homofóbicos.

No tocante às armas, o governo brasileiro luta para liberar cada vez mais o seu acesso a qualquer pessoa. Especialistas se assustam e criticam tal posicionamento, esperando que isso gere uma explosão de violência no país.

Já no que diz respeito a Deus, a corrente neopentecostal domina a orientação dos costumes do governo brasileiro. Assim como nos EUA, as igrejas são as instituições menos transparentes em relação ao fisco. Através da teologia do domínio, pastores, bispos e apóstolos dessas igrejas ganham mais e mais poder e ajudam a consolidar a extrema-direita. Formam, juntamente com outras bancadas, a base de apoio desse governo. A sigla BBB faz referência a essas bancadas (boi, bíblia, bala).

Como foi demonstrada, a plataforma GGG, nativa dos EUA, se espalhou pelo mundo e ameaça outros países, assim como as bases da civilização ocidental. Progressistas em todo o mundo devem se preocupar com essa plataforma e aqueles que a defendem. Lutemos, portanto, por mais direitos e menos direita.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.