O que significa apoiar o atual governo de extrema-direita brasileiro

Eu gostaria de ter tempo para revisar meus textos, mas, infelizmente, isso não é possível, portanto, peço desculpas aos leitores. Gostaria, também de escrever sobre estética, filosofia da linguagem, ontologia, psicanálise, as questões do tempo e do sujeito, mas a realidade brasileira me impede. Penso que deveria pedir desculpas a mim mesmo por isso. Entretanto, não tenho como não gastar o meu tempo livre escrevendo sobre política. Vejo uma realidade nublada, “caché sur le manteau de l’ignorance”. Através de todas essas nuvens, vejo uma humanidade retrocedendo, destruindo suas grandes conquistas e defendendo a bandeira do abuso, do preconceito e da indignidade. Defendo a democracia, prefiro um governo de esquerda ou centro esquerda, mas não escreveria uma linha se o Brasil fosse governado pelo centro ou direita. Sempre respeitei os verdadeiros liberais e, em várias ocasiões, eles mostraram, também, seu respeito. O liberalismo apresenta vários pontos positivos e outros que discordo, mas que não iria às ruas por causa disso, no caso da vitória de um liberal nas eleições. Todos aqueles que aceitam a vitória, em eleições, de seus opositores são democratas e, portanto, merecem todo respeito. Ao contrário, aqueles que tratam seus opositores como inimigos de guerra, não deveriam estar jogando o jogo democrático, aliás, deveriam ser proibidos de entrar nesse jogo. Afinal, a democracia não é perfeita, mas é a melhor forma de governo até aqui. Quem pensa o contrário, não deveria ir votar.

O que significa apoiar o governo de extrema-direita de Bolsonaro? Em primeiro lugar, significa a negação da liberdade. Abrir mão da liberdade para um indivíduo é assinar um atestado de escravidão. É não ter o direito de discordar e escolher ser tutelado, alguém que é incapaz de fazer suas próprias escolhas. Em outras palavras, é considerar-se uma pessoa inferior. A liberdade é o grande pilar do liberalismo e negá-la é condenar qualquer posição liberal, é querer voltar a uma espécie de absolutismo, onde a vontade do soberano é a lei.

Em segundo lugar, é defender uma política econômica voltada apenas para os mais ricos. As classes baixa e média estão pagando um alto preço nesse governo, afinal, a quem favorece a reforma da Previdência? E a venda das estatais? E um aumento menor do que o devido do salário mínimo? E a subserviência aos Estados Unidos? E a destruição das políticas sociais? E por aí vai.

Terceiro, é viver dentro de uma sociedade repleta de mecanismos de controle e de disciplina. É ser vigiado o tempo todo, tentando fugir da punição por não ter abrido mão de sua liberdade e de sua dignidade. Um exemplo, o que está acontecendo com a Ancine (Agência Nacional do Cinema), onde a censura foi instalada e vários projetos recusados por questões ideológicas. Outro exemplo, o que acaba de acontecer com as instituições federais, como universidades e hospitais, que não poderão mais ter seu proprio domínio, pois estarão incluídas em um único domínio, um único portal, “gov.br\”. Assim, todo o conteúdo produzido por essas instituições passará por um único ponto controlador, sendo previamente analisados por ele antes da publicação. Isso, obviamente, busca o total controle daquilo que é divulgado por essas instituições, acabando com qualquer tipo de liberdade, inclusive a acadêmica.

Quarto, é ser contra a educação e a pesquisa. É agredir às universidades públicas que são responsáveis pela grande maioria das pesquisas do país. É pensar que a pesquisa é possível sem investimento (corte de quase 50% das bolsas de pesquisa) e, ao mesmo tempo, pensar que o país pode progredir sem tais pesquisas. É desejar o pior para si próprio, ou para seus filhos e netos, já que com a destruição das universidades públicas, as particulares, inferiores em qualidade e pesquisa, ficarão em seu lugar.

Quinto, é abrir mão da justiça e do devido processo legal. É pensar que, por um “combate à corrupção” que não existe, tudo é possível, até mesmo julgar alguém, incluindo a si próprio, de forma arbitrária. Afinal, se um juiz tem todo o poder para julgar segundo a sua própria vontade, ele pode muito bem não gostar de você e decidir condená-lo. E se a vontade desse juiz sofrer a pressão de um outro, digamos, de um general, sua condenação poderá se dar em virtude disso. Sem justiça, o império do terror é instalado.

Sexto, é atacar e negar os direitos humanos. Direitos humanos são direitos e liberdades básicas de todo ser humano. Portanto, é recusar a liberdade, a vida, a propriedade, a dignidade. É dizer que o Estado não tem limites e que o “soberano” tudo pode. É desvalorizar a própria vida e considerar todos, inclusive a si mesmo, como alguém sem direitos básicos.

Sétimo, é empoderar o pior tipo de pessoas, aquelas que defendem a tortura, a ditadura, o totalitarismo. Pessoas violentas e que não tem respeito pela dignidade humana, odeiam à democracia e os valores que marcaram o desenvolvimento de nossa sociedade. É estar do lado do mal. Para comprovar isso, basta perguntar: torturar é algo bom? A violência que extrapola os limites legais e/ou morais é algo desejado? Obviamente, não. Esse tipo de pessoa, como demonstrou boa parte do governo ao ofender Brigitte Macron, despreza a educação e a polidez, virtude mínima para a existência de nossa civilização.

Oitavo, é estar ao lado da mentira e contra a verdade. Esse governa trabalha com a desinformação, em 68 dias de governo, por exemplo, Bolsonaro fez 82 afirmações falsas. Durante a campanha, um imenso número de fake news foram divulgadas, principalmente através de whatsApp. Enfim, Bolsonaro usa a mentira, assim como o restante de seu governo, para manipular seus apoiadores.

Além disso, muitas outras coisas poderiam ser ditas, mas prefiro parar por aqui. É importante que comecemos a pensar num meio para sairmos dessa situação. Portanto, faço um apelo para a criação de uma frente ampla democrática, que abrigue gente de todos os setores e partidos do espectro democrático. Já não está em jogo se o futuro governo será de esquerda, de centro ou de direita. O que está em jogo é se teremos uma democracia nos próximos anos. Esse é mais um aviso que faço, confiando num mínimo de republicanismo das pessoas certas.

Alexandre Lessa da Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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