O novo coronavírus e o pior governante que um país poderia ter

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Acabei de acessar um dos sites responsáveis pelos índices da COVID-19 (1) e o índice de letalidade já passa de 4,5 %. Em meu primeiro artigo sobre o assunto (2), em 11 de março de 2020, o índice era de 3,59%, o que demonstra que o vírus está cada vez mais perigoso no mundo. Já sabemos, como é comum em todos os vírus, que o Sars-CoV-2, o novo coronavírus, está sofrendo mutações. Estudos chineses já demonstram que o vírus mudou, e está mais agressivo (3). Esses estudos analisaram duas cepas do vírus, L e S. O vírus tipo L é o original e, pelo que foi descoberto, menos agressivo que o tipo S, que já sofreu mutação. No Brasil, também uma mutação surgiu, o que dificulta ainda mais o combate à doença (4).

Mais de 500 mil casos, quase 24 mil mortos no mundo, o vírus em mutação e ficando mais fatal, olimpíadas adiadas, países com todos os níveis de desenvolvimento fechados e, enquanto isso, aquele que está na Presidência do Brasil chama a COVID-19 de um simples “resfriadinho”; resfriadinho não mata! Resfriado não é gripe, Bolsonaro, e COVID-19 é algo muito mais preocupante que os dois juntos. Para se ter uma ideia, o índice de letalidade de uma gripe, incluindo a H1N1, que é muito mais letal, fica entre 0,01 e 0,08, muito inferior ao da COVID-19 (mais de 4,5%).

É evidente que o desespero de Bolsonaro para que as atividades econômicas voltem ao normal é em função da pressão sofrida por ele por parte da elite econômica que o comanda. Também, para agradar o núcleo duro que lhe apoia, passou a considerar celebrações religiosas, como os cultos em igrejas evangélicas, atividades essenciais. Na mesma linha, o prefeito do Rio de Janeiro tenta fazer com que lojas de conveniência e lojas de materiais de construção voltem a funcionar, assim como as escolas públicas. Tais autoridades querem acabar com o isolamento social, enquanto o gráfico de contaminação e mortes só sobe (5). Não há lógica em um tal raciocínio, apenas interesses econômicos dos mais poderosos.

Foi o pior momento possível para o mundo dar uma guinada à direita e ressuscitar a extrema-direita, especialmente no Brasil. Todas as medidas adotadas na Europa, e mesmo nos Estados Unidos, reforçam a ideia de um Estado de bem-estar social (Welfare state), mesmo com governos de extrema-direita, em muitos casos. A razão de ser de qualquer estado é sua sociedade, seu povo. Não pode ser aceito um estado que só pense em proteger os poderosos, sem se importar com o seu povo, especialmente aqueles que mais precisam. Empréstimos, liberação do FGTS, atraso permitido para pagamentos de impostos são medidas inócuas em relação à pandemia e seus efeitos.

Bolsonaro não está preocupado com a população, somente com a elite econômica que lhe deu poder. Sua massa de manobra, militares, policiais, evangélicos, a parte preconceituosa da classe média e antipetistas, na sua maioria, ainda o sustenta, apesar de não ter mais a mesma força. O restante da população já se deu conta do perigo que corremos com um governo que nega todas as evidências e não demonstra um mínimo de interesse social. Os brasileiros, apesar de toda manipulação ilegal que existiu durante as eleições, escolheram o pior candidato possível. Isso mesmo, não existia candidato pior, mesmo que comparássemos todas as eleições do período pós-ditadura militar. Agora, estamos prestes, segundo o próprio Ministério da Saúde, a enfrentar “três epidemias simultâneas” (6): COVID-19, influenza e dengue. Acrescento que, junto da dengue, ainda temos a chikungunya e a síndrome de Guillain-Barré. Sarampo, febre amarela e outras doenças também avançam no país, mas Bolsonaro parece esquecer de tudo isso. De maneira extremamente perversa, Bolsonaro contraria todos os especialistas: médicos, pesquisadores, cientistas, economistas. Só não entendo por que procura o hospital Albert Einstein para se tratar, quando deveria procurar um ideólogo que lhe curasse de todos os seus graves problemas intestinais. Não acredita na ciência e em especialistas, então não recorra a eles e viva segundo o seu próprio discurso, se é que consegue se manter vivo. Tenha coerência, Bolsonaro.

Vivemos um momento que representa um marco para a história da humanidade e que será ensinado a todas as gerações desde agora. Assim como a peste negra do século XIV, a gripe espanhola de 1918 (que, por sinal, não é espanhola, mas nasceu, mais provavelmente, nos Estados Unidos), a Grande Depressão de 1929, as duas Grandes Guerras, a Pandemia de COVID-19 é um momento sombrio para a humanidade. Negar essa evidência é negar a própria realidade e quem o faz ou sofre de algum transtorno mental ou é alguém sem inteligência alguma ou, ainda, uma pessoa cruel e egoísta que só deseja o mal para o próximo. Qualquer que seja a alternativa, uma pessoa assim não pode continuar no governo.

Alexandre L Silva

NOTAS

(1) Acessado em 26/03/2020 às 16:45 h. https://www.worldometers.info/coronavirus/

(2)https://medium.com/@alexandresilva_94761/o-coronav%C3%ADrus-e-o-governo-brasileiro-capitalismo-e-preven%C3%A7%C3%A3o-6f128c1682e5

(3)https://veja.abril.com.br/saude/coronavirus-sofreu-mutacao-e-se-tornou-mais-agressivo-diz-estudo-chines/

(4)https://catracalivre.com.br/saude-bem-estar/sequenciamento-de-genomas-mostra-que-coronavirus-sofreu-mutacoes-no-brasil/

(5)https://experience.arcgis.com/experience/38efc69787a346959c931568bd9e2cc4

(6)https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,estamos-com-tres-epidemias-simultaneas-diz-secretario-do-ministerio-da-saude,70003249641

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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