O erro do PSDB que possibilitou Bolsonaro chegar ao poder

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O PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) foi responsável pelo maior erro político da história do Brasil. A Globo dos partidos políticos ajudou a eleger uma mistura de SBT e Record político, num erro de cálculo que não é comentado pela mídia. Só encontro, nas mídias tradicionais e em muitas alternativas, uma visão tendenciosa dessa história, o que tentarei afastar através da minha análise.

O PT (Partido dos trabalhadores) conseguiu três vitórias seguidas nas eleições presidenciais (2002, 2006, 2010), elegendo Lula nas duas primeiras e Dilma na terceira. Em 2014, Dilma sai como candidata à reeleição pelo PT. Aécio Neves, candidato do PSDB, chega ao segundo turno das eleições disputando a presidência com Dilma Rousseff. O segundo turno ocorre e Dilma sai vitoriosa com 51,64% dos votos, contra 48,32% de Aécio Neves. Aqui, tudo começa.

A economia brasileira, em 2014, já apresentava todos os sinais que passaria por uma recessão: PIB tendo um crescimento mínimo (0,1%) em com paração com 2013 (2,7%), a balança comercial brasileira apresentou um déficit de US$ 3,959 bilhões (anunciado desde janeiro, com um saldo mensal negativo), queda nos investimentos de 4,4%, a despesa do consumo das famílias teve uma grande desaceleração (crescimento de 2,2% em 2013 comparado a 2012 e, apenas, 1,3% de 2013 para 2014), além de uma grave crise em toda economia mundial e que afetava, principalmente, as commodities, ou seja, a imensa maioria dos produtos exportados pelo Brasil.

Com todo esse cenário, o PT cometeu, também, um grande erro, reeleger Dilma Rousseff. O apego ao poder, natural a todo partido político no mundo, fez o PT disputar cada voto na eleição e conseguir a reeleição. Entretanto, como já sabemos, o revesamento de partidos no poder é algo fundamental para uma democracia e a nossa, ainda muito recente e frágil, poderia ser manipulada caso isso não acontecesse. Foi o que ocorreu. Naquela época, lembro de ter conversado com um professor liberal da UFRJ e afirmado que o PT deveria ter perdido a eleição, pois, com isso, garantiria o fracasso do PSDB e fortaleceria o Partido dos Trabalhadores. Entretanto, muitas vezes a racionalidade fica de fora quando se fala em poder e reconheço que, no caso em questão, seria pedir demais que um partido deixasse o poder. Isso seria correto do ponto de vista da democracia e da estratégia, mas seria ir além dos desejos humanos, demasiadamente humanos que estão presentes em todos os partidos. Em função disso, então, o PT não percebeu, ou não quis perceber, o perigo que se aproximava.

Ao invés de aceitar democraticamente a derrota, Aécio Neves não a aceita e, junto com o PSDB, decide fazer uma oposição sectária, aproveitando a crise econômica e a recessão que assolam o país. Apesar da crise econômica não ser fruto de uma administração incompetente de Dilma, mas de condições externas, Aécio e o PSDB, juntamente com toda mídia tradicional, inviabilizam econômica e politicamente o governo Dilma. Despenca o apoio popular a seu governo, matérias na mídia tradicional criticam duramente o governo, o PSDB se aproxima do PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) e das forças de direita, os empresários, notadamente a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) apoiam e orquestram manifestações contra o governo, enfim, o PSDB, presidido por Aécio, arma um contragolpe mortal em relação a Dilma e que golpeará, também, o próprio PSDB e a frágil democracia brasileira. O resultado todos sabem: entre 2 de dezembro de 2015 e 31 de agosto de 2016, Dilma é afastada e, ao final, o impeachment acontece, com a ascensão de Michel Temer à presidência.

Evidentemente, depois de tudo isso, o PSDB já pensava em reinar absoluto nas eleições de 2018, sem Aécio, pois no meio da caminho Aécio foi acusado de corrupção e, hoje, por exemplo, já são nove processos em que ele é réu ou investigado. Os tucanos, juntamente com o empresariado e a mídia, acreditavam que, após o governo desastroso de Temer para a população em geral, aliás, com o apoio do PSDB, o partido tucano ganharia com folga a eleição de 2018. Não foi o que aconteceu.

No final de 2016, Donald Trump foi eleito nos Estados Unidos e, com isso, a história do Brasil, misteriosamente, ganha um novo rumo. O PSDB, que já comemorava a eleição de Hillary Clinton — José Serra, um dos figurões do PSDB e ministro das Relações Exteriores de Temer disse, em entrevista, que a “eleição de Trump seria um pesadelo” — perdeu o apoio dos EUA e viu crescer, através de toda uma estratégia com origem na América do Norte, a candidatura de um deputado preconceituoso, com ligações escusas, adorador da ditadura e da tortura e com um baixíssimo nível intelectual e moral; Jair Bolsonaro. Em virtude disso e, também, da escolha de Geraldo Alckmin, o PSDB não consegue chegar ao segundo turno da eleição de 2018, ganha por Bolsonaro.

Por tudo que foi afirmado, o PSDB cometeu o maior dos erros, o que possibilitou Bolsonaro a chegar ao poder. Entretanto, o partido parece não ter aprendido. Vem apoiando a política econômica contra os pobres e a classe média de Paulo Guedes e Bolsonaro e, agora, pretende dar uma guinada ainda mais à direita.

Erros todos cometemos, mas persistir no erro…

Alexandre L Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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