O Dilema das Redes e as relações sociais no interior do capitalismo

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Preâmbulo

Um documentário estadunidense vem, a cada dia, ganhando mais espaço na internet e nas rodas de conversas, virtuais ou não, aqui no Brasil; trata-se de O dilema das redes. Em função dessa importância ganha, em tão pouco tempo, por essa produção, resolvi assistir ao documentário e escrever este texto. Entretanto, essa não foi a única motivação, há também minha discordância em relação aos comentários que encontrei na rede e a necessidade de jogar um pouco de luz sobre o que está acontecendo na sociedade contemporânea, no tocante ao tema do produto da Netflix.

O documentário

Basicamente, O dilema das redes é um documentário com alguns elementos de drama que ilustram seu conteúdo, não fazendo dele, apesar disso, um docudrama, segundo a visão que tenho dessa classificação. Seu conteúdo principal, expondo de maneira breve, é formado pelos depoimentos de ex-funcionários que tiveram cargos-chave dentro de empresas de redes sociais e outras big techs que se aproveitam dos dados fornecidos por essas redes para fazer mineração de dados, manipular usuários e obter lucros. Através desses depoimentos, o projeto das redes sociais é apresentado, fazendo com que o espectador perceba como tais redes são estruturadas com o objetivo de manipular, vigiar, controlar, disciplinar e viciar seus usuários.

Todo o filme é construído com a meta de que o espectador perceba que o que está sendo vendido, através das redes sociais, não são apenas dados, mas o próprio usuário. O indivíduo passa a ser o grande produto dentro daquilo que muitos chamam de ‘capitalismo de vigilância’ (1), rompendo qualquer barreira ética colocada, tradicionalmente, pela sociedade.

A conclusão do documentário é realizada através da reflexão desses ex-funcionários arrependidos. Todos apontam para os perigos que as redes representam e apontam sugestões que caminham em dois sentidos: regulamentações jurídicas rígidas e boicote das redes, isto é, pararmos, todos, de usarmos as redes sociais.

Crítica

Encontrei muitas críticas na internet pelo documentário apresentar, na maior parte do tempo, homens brancos, quase todos da mesma geração, e esses mesmos homens serem responsáveis pela narrativa principal do filme. Entretanto, isso é algo esperado, uma vez que tais pessoas representam o perfil dos executivos das empresas em questão; mais uma falha a ser notada nelas. Todavia, isso não é o que mais importa.

O que se passa, durante todas as partes do documentário, é a ideia que estamos diante de algo inteiramente novo e que, portanto, ainda não temos instrumentos teóricos para pensar o fenômeno das redes, sendo que as soluções apresentadas são desdobramentos dentro da mesma estrutura. Todavia, essa novidade não é tão radical, como proposto, mas apresenta apenas um desdobramento do próprio capitalismo e, dessa forma, há condições teóricas que apontam para uma solução mais profunda desse dilema. Uma leitura do Anti-Édipo de Deleuze e Guattari ou um estudo sobre as relações de poder na obra de Foucault forneceria os instrumentos necessários para o tratamento do problema. Entretanto, optei por uma análise mais antiga, se bem que igualmente provocante, para provar que as ferramentas para pensarmos os problemas atuais existem, basta trabalharmos com elas.

Na seção I, Cap.1, item 4 do primeiro livro de O Capital de Karl Marx (2) é encontrada a descrição do “caráter fetichista da mercadoria”. Afirma Marx que:

ela (a mercadoria) não só se mantém com os pés no chão, mas

põe-se de cabeça para baixo diante de todas as outras mercadorias, e em sua cabeça de madeira nascem minhocas que nos assombram muito mais do que se ela começasse a dançar por vontade própria (3).

Esse trecho demonstra o caráter místico da mercadoria, seu encantamento ou fetiche. Fazendo uma comparação com a religião, Marx demonstra que esse fetiche faz o trabalhador esquecer do próprio caráter social envolvido na produção de um objeto, deixando de levar em consideração o trabalho envolvido na sua produção e passe, portanto, a considerar a mercadoria como algo que tem vida própria e que, portanto, deve ter um valor por si.

Essa “objetividade fantasmagórica”, nas palavras de Marx e Lukács (4), está presente também nas redes sociais. Há uma reificação (5), conceito muito utilizado por Lukács, da mercadoria ‘redes sociais’ e que é reforçada pelo documentário ao apresentar tais redes como “ferramentas”. Não pode ser esquecido que redes sociais pertencem a empresas e essas empresas, por sua vez, contém relações de trabalho e outras relações intersubjetivas e subjetivas. Não só os trabalhadores, mesmo em altas funções, não conseguem ver os objetivos daquilo que criam, como muitas pessoas não percebem que estão trabalhando para a empresa, e gratuitamente. Cada um que posta, comenta, escreve, dá like ou faz qualquer movimentação nas redes sociais não está somente entregando seus dados, de forma gratuita, para uma empresa vender para outras empresas, mas, também, está executando um trabalho que constitui o conteúdo da empresa. Um exemplo evidente está neste texto que escrevo, pois o Medium nada seria sem textos iguais a esses (6). Apesar disso, muitas pessoas acreditam que estão recebendo uma mercadoria fantástica, sem pagar nada por isso, sem enxergar as relações sociais envolvidas nisso.

A atividade nas redes acaba por produzir a alienação de todos os envolvidos em sua construção, tendo efeito direto na subjetividade de cada um de nós e ajudando a produzir a sociabilidade desejada, pelo capital, de cada trabalhador, pago ou não, no interior dessas empresas. Dessa forma, aparece o que Marx chama de estranhamento, que funciona como obstáculos epistemológicos que permitem promover a apropriação do trabalho e mantendo uma relação dialética com a alienação (7). Mas essa dominação não faz apenas que o usuário ou o trabalhador seja alienado em relação às próprias redes que constrói, ela leva à “coisificação do espírito” e enfeitiça as relações humanas, inclusive aquela que um indivíduo mantém consigo mesmo (8). Nesse feitiço, o inventor de estratégias de dominação, como o caso do botão de like, pode não ter ideia do que está fazendo, uma vez que está perdido no interior da fragmentação do trabalho, incapaz de ver o todo e os objetivos desejados no âmbito do capital.

“O mundo ao mesmo tempo presente e ausente que o espetáculo faz ver é o mundo da mercadoria dominando tudo o que é vivido (9)”. Esse mundo, descrito por Guy Debord em 1967, é potencializado pelo avanço do capitalismo e de seus mecanismos de controle, como é o caso das redes. Nelas, o ser humano é coisificado, dirigido, manipulado e vendido, dentro de “um processo de desenvolvimento quantitativo” (10), transformando a vida humana em mera representação e, obviamente, gerando lucro para as empresas que exploram a vida humana transformada em um grande espetáculo presente nas telas de nossos computadores e gadgets.

Assim como Privacidade Hackeada, O Dilema das Redes é um documentário que ajuda a desvendar o papel da internet dentro do atual esquema de dominação do capitalismo, apesar de não ser esse seu principal foco. As soluções apresentadas, por seus participantes, ainda estão no âmbito do próprio capitalismo e, em nenhum momento, visam a superação dele ou, ao menos, um movimento estrutural que o transforme e o faça caminhar no sentido de um novo projeto em que o ser humano seja respeitado e tenha consciência daquilo que produz. Para tal, seria necessário abandonar a ideia de tudo é mercadoria e que há aspectos dos seres humanos que não podem ser reduzidos ao lucro. Em outras palavras, só deveria existir um dono para essas redes, a sociedade, e elas só poderiam existir a partir do momento que respeitassem os direitos de cada indivíduo. Isso é obviamente possível, mas mexeria com a estrutura do sistema capitalista, levando a uma série de protestos e ações por parte dos poderosos. Todavia, não seria hora de enfrentá-los? As propostas que recorram a uma nova legislação ou a um boicote são facilmente manipuladas por essas grandes empresas, o que nos levaria, mais uma vez, a todos os problemas apresentados neste texto. Começamos, enquanto sociedade, a perceber o impacto que as redes têm em nossas vidas e, com isso, podemos ver que elas estão inseridas no interior de uma estrutura muito maior e que devemos, através de nossa consciência e vontade, modificar, caso busquemos, verdadeiramente, a liberdade enquanto seres humanos.

Alexandre L Silva

NOTAS

(1) A expressão ‘capitalismo de vigilância’ foi popularizada pela professora aposentada de administração e negócios da Harvard Business School, Shoshana Zuboff, significando uma etapa do capitalismo marcada pela capacidade de monetizar dados obtidos através da vigilância. Para mais detalhes: ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism: the fight for a human future at the new frontier of power. Nova York: Publicaffairs, 2019.

(2) MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Editorial Boitempo, s/d. Edição eletrônica.

(3) Ibid.

(4)Ibid, Livro I, cap.1, seção 1. Também: LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe. Trad. de Rodnei Nascimento e rev. de Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2003. P.194: “A essência da estrutura da mercadoria já foi ressaltada várias vezes. Ela se baseia no fato de uma relação entre pessoas tomar o caráter de uma coisa e, dessa maneira, o de uma “objetividade fantasmagórica” que … oculta todo traço de sua essência fundamental: a relação entre os homens.”

(5) Reificação (do latim res: coisa) é um conceito de Marx, mas que chega a seu auge com sua reestruturação por Georg Lukács. Em tal conceito, próprio da sociedade capitalista, as atividades trabalhistas, as relações de trabalho e, até mesmo, a própria subjetividade humana são sujeitadas ao caráter de objeto da mercadoria, fazendo com que essa mercadoria passe a ser considerada, magicamente, como algo que tem um valor em si e por si. Dessa forma, a mercadoria passa a ser pensada, apenas, através de seu caráter quantitativo e inanimado.

(6) A bem da verdade, o Medium já me ofereceu pagamento por meus textos, mas desistiu em seguida, dizendo que moro em um local em que isso não é possível. Não preciso nem comentar o que penso.

(7) Vide: MARX, Karl. Manuscritos econômicos-filosóficos. Trad. Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2008. Sobre a diferença entre alienação e estranhamento em Marx: RANIERI, Jesus. Alienação e estranhamento: a atualidade de Marx na crítica contemporânea do capital. Em http://biblioteca.clacso.edu.ar/ar/libros/cuba/if/marx/documentos/22/Alienacao%20e%20estranhamento....pdf

(8) ADORNO, Theodor W., HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, s/d. Edição eletrônica. “O preço da dominação não é meramente a alienação dos homens com relação aos objetos dominados; com a coisificação do espírito, as próprias relações dos homens foram enfeitiçadas, inclusive as relações de cada indivíduo consigo mesmo.”

(9) DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Trad. Francisco Alves e Afonso Monteiro. Lisboa: Edições Antipáticas, 2005. P. 23.

(10) Ibid. P. 24.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na UFF e na UERJ. Articulista de opartisano.org e escritor da New Order no Medium.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na UFF e na UERJ. Articulista de opartisano.org e escritor da New Order no Medium.