O desempoderamento das minorias na América Latina

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Durante algum tempo, na América Latina, houve um esforço de empoderamento, por governos de esquerda, de classes menos privilegiadas da população. Cresceu o empoderamento, apesar de ainda pequeno, dos negros no Brasil. Na Bolívia, a população indígena também se empoderou com a ascensão de um de seus representante no governo do país. No Equador, principalmente durante a primeira parte do governo de Rafael Correa, com Alberto Acosta à frente da Assembleia Constituinte, os indígenas também foram empoderados por uma visão mais à esquerda. Isso demonstra, não apenas nos países e grupos citados, um empoderamento crescente de classes e raças mais vulneráveis da população como ocorre com negros, indígenas, mulheres, LGBTQ, pobres e outras, durante a existência dos governos de esquerda.

Atualmente, com a presença maciça dos Estados Unidos na política do continente e com a ascensão da direita e, principalmente, da extrema-direita ao poder, aflora um forte movimento de desempoderamento das classes e grupos menos privilegiados. Sem perceber que também é prejudicada ou por puro preconceito, grande parte da classe média desses países acaba apoiando esse desempoderamento. Com isso, a velha ideologia dos supremacistas brancos chega ao poder e se traduz através do machismo, racismo e da homofobia que se espalham por esses países.

No Brasil, um deputado federal que é também coronel da Polícia Militar (Coronel Tadeu) destruiu uma obra que fazia parte de uma exposição sobre a consciência negra na Câmara dos Deputados. Após a destruição, um outro deputado (Daniel Silveira) discursou no plenário da Câmara em defesa do coronel e afirmou, de forma leviana e mentirosa, que 99% dos traficantes são negros, além de outras barbaridades que demonstram seu racismo. O que mais impressiona é que ambos os deputados pertencem ao PSL, partido responsável por eleger Bolsonaro, alguém marcado por uma série de declarações racistas e homofóbicas, presidente do país. Outras ações, por parte do Governo Federal e governos estaduais, confirmam essa tendência de ataque à população negra, como é o caso do Pacote Anticrime formulado pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro. Um dos itens do projeto, por exemplo, pode isentar de dolo um policial que mata se for alegado escusável medo, surpresa ou violenta emoção, uma verdadeira licença para matar quem a polícia mais mata, a população negra. Mas não só a raça negra é afetada pela extrema-direita brasileira. A população indígena também sofre com o apoio de Bolsonaro e seu governo aos garimpeiros, grileiros e fazendeiros que invadem reservas indígenas e são responsáveis por grande parte das queimadas na Região Amazônica.

Evo Morales, ex-presidente da Bolívia e ele também um membro dos indígenas na região, foi deposto através de um golpe que começou com a denúncia de fraude pela OEA (Organização dos Estados Americanos). Está claro que a elite branca boliviana se aliou aos Estados Unidos e a países da região submissos a ele, como o Brasil e Colômbia, para tirar Morales do poder. Não conseguindo derrotá-lo eleitoralmente, aproveitaram a presença e a denúncia da OEA para desferir o golpe. Luis Fernando Camacho,advogado católico, pertencente a uma família de empresários e ele, também, empresário, foi o principal responsável pelos protestos que levaram à queda de Evo Morales. Assim como a autoproclamada presidente da Bolívia, Jeanine Añez, Camacho tem um perfil conservador, de direita e com apelo ao fundamentalismo cristão. Añez e Camacho fizeram da Bíblia seu escudo e o norte para o futuro da Bolívia em seus discursos. A Bíblia e o cristianismo são usados para enfrentar os partidários de Morales, em sua grande maioria indígenas e que foram empoderados por Morales. Esse empoderamento, além de estar patente pelos índices de fome e pobreza que melhoraram muito com Morales e pela inclusão política de grupos indígenas, é emblematicamente percebido através da liberdade religiosa apresentada pela Constituição de 2009 que retira da Igreja Católico seu status de religião oficial. O governo de Morales permitiu aos indígenas, católicos ou não, afirmarem sua crença na Mãe Terra (Pachamama) e em seus valores religiosos, coisa que está sendo negada por Camacho e Añez (https://www.independent.co.uk/voices/bolivia-protests-coup-evo-morales-socialism-election-religion-a9208871.html).

O conflito entre dois projetos nacionais no Equador enfraqueceu a esquerda. O projeto de Rafael Correa da revolução cidadã e do povo “Uno”, isto é, com uma só identidade, entrou em conflito com o projeto da Assembleia Constituinte da sociedade civil diversa e multiétnica. Esse conflito , juntamente com o avanço da crise das commodities, enfraqueceu o Equador e o atual presidente, Lenín Moreno, acusado de traição por seu antigo aliado, Rafael Correa, adotou uma política liberal, o que acabou por prejudicar os mais pobres e a população indígena local. Essa população não se deu por vencida e através de enormes protestos e manifestações, conseguiu que o Moreno recuasse no aumento de 123% nos combustíveis, assim como nos chamados ajustes econômicos de cunho liberal, uma vitória para as comunidades indígenas que há décadas estão presentes na luta política equatoriana.

Os protestos e manifestações, assim como a perseguição a classes e etnias mais vulneráveis, também estão presentes em outros países. Em Honduras, por exemplo, a população, formada em sua maioria pela mistura de espanhóis e indígenas, protesta contra a privatização dos sistemas de saúde e educação. Lá, em 2016, a coordenadora do Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (COPINH), Berta Cáceres, foi assassinada. Por esse crime, militares, funcionários do governo e da DESA (empresa Desarrollos Energéticos SA) foram condenados. Antes de morrer, Berta Cáceres acusou Hillary Clinton de estar por trás do último golpe de Estado em seu país.

Outro exemplo de revolta contra a política e a economia ultraliberal, além do desempoderamento de populações fragilizadas e indígenas, é encontrado no Chile. Sebastián Piñera, presidente do país, teve que recuar a tal ponto de sua política econômica e social que até a criação de uma nova constituição foi aceita pelo por ele. Entretanto, os protestos ainda não pararam e seu governo encontra-se acuado. Um fato que chama a atenção nesses protestos é o uso da bandeira Mapuche, povo indígena do Chile e da Argentina reconhecido pela luta por seus direitos, como símbolo para os manifestantes.

Apesar de boa parte da América Latina ter optado, através da livre escolha, por um socialismo democrático e das transformações em relação ao padrão liberal de economia não serem tão grandes quanto as desejadas por seus povos, as elites locais, apoiadas por agentes estrangeiros, lutam para que os ideais ultraliberais e segregacionistas sejam implantados através de uma ideologia que, em muitas de suas características, lembra o que foi feito pelo nazismo. Culpar ou prejudicar um povo, uma raça ou a parte fragilizada de uma população é repetir a covardia praticada pelo fascismo e pelo nazismo. Negros e índios no Brasil, indígenas nos países andinos e da América Central, pobres em todo o mundo sofrem com o desempoderamento e os ideais de quem só pensa na manutenção do status quo daqueles que sempre possuíram a imensa parte do poder. Essas pessoas não pensam apenas em manter o poder, mas buscam aumentá-lo e rebaixar ainda mais aqueles que estão do lado da diversidade e da diferença, através de uma ideologia de extrema-direita preconceituosa e segregadora.

Alexandre L Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.