O delirante texto de Ernesto Araújo sobre Žižek e a pandemia

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Eu sempre comentei que faltava quadros à extrema-direita brasileira, uma vez que, há muito tempo, ninguém queria ocupar essa parte tão desprezada do espectro político brasileiro. Tive contato com diversas pessoas que buscaram ocupar esse espaço, todas elas marcadas por interesses pessoais e a vontade de subir na vida, seja de que forma for. Também notei que faltava competência nesses indivíduos e, por outro lado, sobrava uma certa retórica vazia. O chanceler brasileiro é apenas mais um exemplo do que sempre falei.

Em seu texto “Chegou o Comunavírus”, Ernesto Araújo comete uma série de despautérios: critica indiretamente a China, tenta aproximar ao máximo o comunismo do nazismo, algo que já foi criticado pela própria Alemanha, ataca a OMS (Organização Mundial da Saúde), apresenta o globalismo como uma das etapas planejadas para a chegada do comunismo (sabe-se lá como!), afirma que a pandemia atual está servindo ao comunismo. Delírios com sentido, um sentido torto. Todavia, em meio a tantos devaneios, algo de bom surge, mesmo sem o autor perceber: Araújo acaba por demonstrar, ao longo de todo seu texto, o perigo sanitário da pandemia da COVID-19. Se o vírus em questão tem todo o potencial citado por Araújo, então o risco para o ser humano é enorme. Em nenhum momento, o autor trata o vírus como uma mentira ou a pandemia como uma invenção. O que diz, de maneira insensata, é que a pandemia está sendo usada pelo comunismo. Ao não negar o vírus, a pandemia e, muito pelo contrário, afirmar que a pandemia pode ser usada em função de sua força, o chanceler acaba contrariando o negacionismo do Planalto. Uma prova disso é a parte do texto em que diz: “a pandemia, colocando indivíduos e sociedades diante do pânico da morte iminente…”, logo Ernesto Araújo confirma, com sua publicação, o real perigo desse vírus.

O texto também é repleto de falhas que vão além de seu teor ideológico. Ao analisar Žižek, filósofo que é o autor da obra alvo do texto, Araújo chama o texto que tanto critica de ingênuo (1). Entretanto, se a obra é ingênua e o autor idem, qual a razão de afirmar que o esloveno deve ser levado a sério (2)? Alguém com uma obra ingênua não merece ser levado a sério, muito menos ser considerado tão perigoso.

Žižek é criticado, no texto em questão, por afirmar que a frase alemã “Arbeit macht frei” (o trabalho liberta) ainda é um lema correto. Essa frase é conhecida por ter sido colocada na entrada de vários campos de concentração da Alemanha na época do nazismo, o que já deveria ser o bastante para não ser citada por Žižek. Araújo critica o filósofo por ele ter afirmado que os nazistas não erraram na substância, mas no uso que fizeram da frase (3). Ora, se a frase está errada em sua essência, se é uma mentira, então o trabalho não liberta. Entretanto, o texto do chanceler diz que trabalho e liberdade são dois valores sagrados da humanidade (4). Então, qual a razão de não os unir? Aliás, essa união entre trabalho e liberdade, vou até mais longe, entre liberdade, trabalho e propriedade é uma das bases do liberalismo, como demonstra Locke em seu “Segundo Tratado de Governo”.

Usando uma interpretação de Foucault de fundo de quintal, Araújo critica a visão que Žižek tem da linguagem, pois, segundo o brasileiro, ao dizer que a linguagem é composta de regras, Žižek a está colocando de quarentena, sujeito ao esquema de vigiar e punir (5). Da mesma forma, Araújo critica o sanitarismo (“sanitariamente correto”), dizendo que ele “algema” e “ameaça o indivíduo” ao não permitir que esse diga o que bem desejar (6). Aqui, todos percebem quem Araújo está defendendo, seu chefe e, para isso, usa uma noção de liberdade que, pelo menos, deve ser chamada de estúpida. Não há essa liberdade total e absoluta de poder dizer e fazer tudo. Se um médico, por exemplo, testou um paciente e descobriu que ele é alérgico à penicilina, esse médico não pode dizer à enfermeira para ministrar penicilina ao paciente. Falar, muitas vezes, é fazer, como já demonstrou o filósofo da linguagem J. L. Austin. Assim, Bolsonaro, ao discursar contra aquilo que é correto no âmbito da saúde, está provocando uma calamidade sanitária, por isso ele não o deve fazer, além de constituir crime, o que deveria levar ao seu afastamento.

Araújo ainda tem uma série de outros delírios, falando de projeto globalista, climatismo, ideologia de gênero, imigracionismo, racialismo, antinacionalismo e cientificismo (7). Mas, o certo é que a pandemia desnudou o rei: a extrema-direita não teve mais como esconder sua cara e, com isso, a maioria conseguiu enxergar toda monstruosidade escondida pela máscara da falsa moral.

NOTAS

(1) “cito e comento, a seguir, alguns trechos do livreto de Žižek, essa obra-prima de naïveté canalha”. Essa, como todas as citações feitas, são do texto de Ernesto Araújo, econteado em https://www.metapoliticabrasil.com/post/chegou-o-comunav%C3%ADrus

(2)”…deve-se levar Žižek a sério?Muito a sério.

Žižek é provavelmente o escritor marxista mais lido nos últimos trinta anos.”

(3) “Žižek repete aqui o lema colocado na porta do campo de concentração de Auschwitz, a ultracínica, perversa afirmação de que “O trabalho liberta”. Segundo ele, portanto, os nazistas não erraram na substância, erraram apenas no uso que fizeram dessa frase.”

(4) “Segundo esse expoente do marxismo, Arbeit macht frei é o “lema correto” da nova era de solidariedade global que se avizinha em consequência da pandemia, e o que diferencia este novo mundo do campo de Auschwitz é que agora se fará bom uso desta horrível mentira que perverte e humilha dois valores sagrados da humanidade, o trabalho e a liberdade.”

(5) “… Se o espírito vive na linguagem e se a linguagem não passa de regras a serem aprendida e respeitadas (sim, respeitadas!), isso significa que a linguagem está, como o comportamento social na quarentena, sujeita aos mecanismos de

“vigiar e punir”.

(6) “O sanitariamente correto te agarra, te algema e te ameaça: “Se você disser isso ou aquilo, você coloca em risco toda a sociedade, se você pronunciar a palavra liberdade você é um subversivo que pode levar toda a sua população a morrer — então respeite as regras.”

(7)”O vírus aparece, de fato, como imensa oportunidade para acelerar o projeto globalista. Este já se vinha executando por meio do climatismo ou alarmismo climático, da ideologia de gênero, do dogmatismo politicamente correto, do imigracionismo, do racialismo ou reorganização da sociedade pelo princípio da raça, do antinacionalismo, do cientificismo. São instrumentos eficientes, mas a pandemia, colocando indivíduos e sociedades diante do pânico da morte iminente, representa a exponencialização de todos eles.”

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na UFF e na UERJ. Articulista de opartisano.org e escritor da New Order no Medium.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na UFF e na UERJ. Articulista de opartisano.org e escritor da New Order no Medium.