Mino Carta e a desprezível apatia brasileira

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Ontem, assisti a um vídeo do jornalista Mino Carta em que afirmava, lembrando o historiador Raymundo Faoro, que “o Brasil é a obra-prima da Dinastia de Avis” e que (o Papa) “Alexandre VI é um gênio da maldade, da malignidade que caracteriza esse nosso Brasil”. Completa dizendo que o que o atormenta é a impotência da falta de um povo que se disponha a brigar depois de tanto sofrimento e humilhação durante toda nossa história, sendo Bolsonaro a “cereja do bolo” de toda essa obra-prima. Apesar disso, Carta assevera que tira o chapéu para todos aqueles que pertenceram à luta armada durante a ditadura militar. O que pensar disso?

Antes de mais nada, quero deixar bem claro que entendo o sentimento de Mino Carta em relação ao período em que vivemos e a apatia de nossa população em relação a todos os absurdos que estão acontecendo. Quanto ao julgamento moral, aquele que envolve o bem e o mal, prefiro não comentar, uma vez que isso nada acrescentaria ao questionamento que pretendo desenvolver.

A primeira coisa que notei nas afirmações de Mino Carta é que o Brasil é uma construção. Um país que começou a ser construído através de tratados formulados com o auxílio e o poder do Papa Alexandre VI, um dos principais responsáveis pela divisão do território americano entre Portugal e Espanha e, também, através da ganância e da força da segunda dinastia portuguesa, aquela de Avis. Vale lembrar que Alexandre VI também era conhecido por sua ganância, por comprar votos dos cardeais para sua eleição e por fazer um papado orientado para o favorecimento de si e de sua família (Bórgia ou Borja).

Dom Manuel (Manuel I de Portugal), rei de Portugal quando o Brasil foi descoberto, já começa a se preocupar mais atentamente com a dívida pública portuguesa e as maneiras de captar recursos para a expansão marroquina da época (1), integrando o crédito à economia portuguesa. Evidentemente, os portugueses, nessa época, estavam interessados em encontrar ouro e prata em suas colônias, coisa que não aconteceu tão cedo no Brasil que, por sinal, teve como primeira grande exploração o pau-brasil, seguido da cana-de-açúcar. Somente ao final do século XVII, os portugueses encontraram aquilo que tanto desejavam, isto é, ouro, em Minas Gerais. Entretanto, a dívida pública brasileira já tinha seu começo, uma vez que vários governadores faziam empréstimos para si e esses, por sua vez, eram contabilizados para a Colônia (2), demonstrando que desde o início o público e o privado se mesclavam de forma sórdida no Brasil.

Desde seu começo, O Brasil foi pensado como algo a ser explorado. Colonizado por degredados que viam o país como uma grande punição, por uma Coroa que só pensava em explorar suas riquezas e que só o elevou à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves em função da ameaça napoleônica, o país sempre foi construído de cima para baixo. Dom Pedro I só se torna imperador em função das ordens de Dom João VI para manter o Brasil como posse da Casa de Bragança, a quarta dinastia portuguesa. Isso faz com que o país não siga os passos de seus vizinhos no continente e acabe por se tornar uma monarquia, enquanto os outros países da América se transformaram em repúblicas. As poucas tentativas de rebeliões, que se tornam muitas quando passadas para vários livros de história, são facilmente sufocadas pelo Império, demonstrando que o poder sempre veio de cima para baixo nesse país.

Com a queda de Pedro II e do Império, também não tivemos um movimento realmente popular que fosse responsável pela mudança de governo. Deodoro da Fonseca, que por sinal era monarquista, é o nome mais citado daquele golpe de Estado tramado por militares, políticos e a elite brasileira. Mais uma vez, o povo é apenas informado de uma mudança que vai afetar por completo a sua vida.

Da mesma forma, o golpe que estabeleceu o Estado Novo, com Getúlio Vargas chegando ao poder, também foi obra da aliança do exército e da burguesia da época, não sendo o povo mais que um detalhe a ser ludibriado, algum tempo depois, com a descoberto do chamado “Plano Cohen” (que nunca existiu) que visava transformar o Brasil em uma espécie de União Soviética.

O Golpe Militar de 1964, assim como o Golpe Parlamentarista de 1961 contra Jango, demonstram um outro nível de manipulação das massas. Com o luxuoso auxílio dos Estados Unidos, as Forças Armadas e a elite nacional manipularam boa parte da população para que lutasse contra seus próprios interesses, demonstrando que não precisavam movimentar a maior parte da população, mas sim um número suficientemente grande para que pudessem justificar as barbaridades que ocorreriam a seguir. Sem dúvida, o Golpe de 1964 foi uma demonstração de como a elite e as forças armadas são capazes de entregar o país em nome de algum poder. Mais uma vez, o Brasil continuou a ser construído, ou destruído, de cima para baixo, sendo as bravas reações a isso insuficientes para deter o vampirismo das classes dominantes e potências internacionais.

Quase no final da Ditadura Militar, entre 1983 e 1984, existiu um grande movimento com participação popular chamado ‘Diretas Já’. Esse movimento reivindicava eleições diretas no Brasil e o fim da ditadura. Grandes comícios e passeatas surgiram no país e o povo foi à rua. Apesar disso, a ditadura só terminou em 1985, não em função do movimento, mas porque o mundo já não suportava mais os regimes ditatoriais estabelecidos nos anos 1960 e 1970, uma vez que os Estados Unidos, nesse momento, já havia demonstrado interesse pela mudança desses regimes por democracias liberais. Cabe, ainda, ressaltar que houve a Lei da Anistia que planejava que tal anistia fosse ampla, geral e irrestrita, impedindo que crimes políticos cometidos por agentes do Estado fossem passíveis de punições futuras. Aliás, essa lei viola uma série de tratados e protocolos internacionais dos quais o Brasil é signatário, mas o que importa, num país em que a justiça não alcança os poderosos.

O fim da ditadura militar -que começou em 1964 — teve início com um grande imbróglio. Tancredo Neves, eleito presidente de forma indireta em 1985, através do colégio eleitoral, não chegou a assumir. Sua morte foi cercada de uma série de informações duvidosas e deixou o cargo de presidente vago. Após sua morte, houve uma grande discussão para decidir quem assumiria a Presidência, apesar da Constituição de 1967 ser clara quanto a isso: deveria assumir o vice (3). Apesar disso, José Sarney só pode assumir graças a garantia dada pelo general Leônidas Pires, ministro do Exército, defendendo o artigo 78 da Constituição de 1967 (4). Como é evidente, a decisão por um governo de transição e a volta de um regime democrático ocorreu de cima para baixo, mais uma vez, sem que a população fosse levada em conta nessa decisão.

Em 1989, foi eleito para presidente, pela primeira vez diretamente desde o regime militar, Fernando Collor de Mello. Aliás, sua eleição só foi possível pelo altíssimo envolvimento da mídia em sua campanha. O próprio Bo ni ( José Bonifácio de Oliveira Sobrinho), aquele que, junto com Roberto Marinho, comandava a Rede Globo, confessou que trabalhou para Collor, chegando até a orientá-lo no debate promovido pela Globo, ameaçando Lula com pastas em que estariam supostas denúncias, mas que na verdade nada continham (5). Mas, assim como a mídia construiu Collor como presidente, o tirou do cargo. Apesar da história oficial citar os jovens “caras-pintadas” como responsáveis pela queda, em 1992, de Collor, uma análise mais profunda demonstra que a grande mídia foi a verdadeira responsável pelas denúncias e por sua saída da presidência, juntamente com o empresariado brasileiro, uma vez que Collor procurou ganhar acima do que era tradicionalmente combinado em contratos entre o Estado e a iniciativa privada, além de ter um projeto de poder que incluía o enorme crescimento de suas empresas de mídias, ameaçando, portanto, a mídia tradicional.

Com a renúncia de Collor, em 1992, assume seu vice, Itamar Franco. Itamar, em 1993, chama Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fazenda. Para combater a hiperinflação, um grupo de economistas do governo resolve lançar um plano baseado nas ideias do economista inglês John Maynard Keynes e nas exigências do FMI, assim como na orientação do governo e das universidades estadunidenses: o Plano Real. Em 1994, Fernando Henrique renuncia ao cargo de ministro e, apossando-se do Plano Real, torna-se candidato à presidente da República. Mais uma vez, com o auxílio da mídia, consegue se eleger e, na eleição seguinte, consegue seu segundo mandato, sempre apoiado pelas grandes empresas de mídia do país.

Em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva é eleito presidente do Brasil. Uma avaliação inferior do segundo mandato de Fernando Henrique, em relação ao seu primeiro, os erros do candidato José Serra (PSDB) que chegou ao segundo turno e uma reconstrução da imagem de Lula, feita com a ajuda de profissionais de marketing foram alguns dos fatores que impulsionaram a candidatura do Partido dos Trabalhadores. Após a vitória, Lula constrói um governo baseado no desenvolvimentismo, crescimento econômico e com uma visão social bem maior do que a dos seus antecessores. Sobrevive a uma série de turbulências políticas, faz um governo muito bem avaliado pela população e pela comunidade internacional e consegue seu segundo mandato. Após isso, consegue eleger sua sucessora, Dilma Rousseff (PT).

O primeiro governo Dilma (2011–2014) é abalado pela crise das commodities (6) e pela ação da oposição, da mídia e pela espionagem dos Estados Unidos, confirmada pelo New York Times (7). É reeleita, mas não chega a terminar seu segundo mandato, interrompido por um processo de impeachment em 2016.

Em 2015, uma série de protestos, incentivados pela grande mídia, empresariado, oposição (principalmente o PSDB de Aécio Neves) e por forças externas (EUA) enfraqueceram o governo (8). Mais uma vez, a população foi manipulada e Dilma, apesar de não ter cometido crime de responsabilidade, sofreu o impeachment acusada de ter praticado as chamadas “pedaladas fiscais”, uma série de operações orçamentárias envolvendo o atraso no repasses a bancos públicos e privados que, por sinal, já haviam sido realizadas por Lula e Fernando Henrique, por exemplo. Em seu impeachment, portanto, houve um julgamento político, o que legitima a afirmação que houve um golpe contra ela e seu governo.

Com o impeachment de Dilma, Michel Temer, seu vice, assume a presidência. Apesar de todos os escândalos (o principal diz respeito a Joesley Batista da JBS e sua delação premiada), acusações, investigações criminais e um péssimo desempenho econômico, Temer chega ao fim de seu tempo de mandato e prepara o caminho para a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

Em 2018, há uma eleição nada democrática. O principal candidato e líder em todas as pesquisa, o ex-presidente Lula, é impedido de concorrer através do uso de lawfare. Com o afastamento, através do uso injusto e manipulado da lei, de Lula, Bolsonaro (PSL) começa a subir nas pesquisas e chega na frente no primeiro turno das eleições presidenciais de 2018 e ganha a disputa com Fernando Haddad (PT) no segundo turno. Através do grande uso de fake news, principalmente através do WhatsApp, do ataque da grande mídia ao PT, do apoio estadunidense dado a extrema-direita e da derrocada do PSDB durante a disputa, Bolsonaro termina o ano como presidente eleito do Brasil.

A eleição de Bolsonaro retira a máscara de boa parte da população brasileira. A questão econômica passa ao largo nessa eleição e o tema dos costumes assume a prioridade entre os eleitores. Aqueles que elegeram Bolsonaro deram um peso maior a pauta ultraconservadora dos costumes defendida por ele. A misoginia, a homofobia, o racismo, a aporofobia, a intolerância religiosa e o horror a toda oposição são as principais características desses eleitores, demonstrando, assim, uma estranha aversão aos pilares da democracia.

Em seu governo, Bolsonaro procura privilegiar essa pauta do ponto de vista da propaganda, enquanto acaba com o país no campo econômico, utilizando uma agenda ultraliberal. Houve um retrocesso do empoderamento das minorias, conquistado durante os governos do PT e, portanto, um enfraquecimento da maior parte da população, já que essas minorias compõem a maior parte da população brasileira (9). Apesar disso, cerca de 30% dos eleitores, segundo pesquisas, ainda apoiam o governo Bolsonaro, o que nos leva de volta à estranheza de Mino Carta em relação ao Brasil e ao seu povo. Se ele está certo ou não é uma questão que deixo em aberto, porém, fica claro através de toda nossa história que a população é facilmente manipulada pelos poderosos e que sua capacidade de resposta a todos esses abusos é inferior àquela de nossos vizinhos. Entretanto, o que mais importa é sabermos se vamos conseguir dar um basta a toda essa opressão ou vamos continuar deixando que destruam o nosso presente e o futuro das próximas gerações.

Alexandre L Silva

NOTAS:

(1) Página 11 de https://www.cepese.pt/portal/pt/publicacoes/colecoes/working-papers/populacao-e-prospectiva/portugal-nos-seculos-xvi-e-xvii.-vicissitudes-da-dinamica-demografica/Portugal-nos-seculos-XVI-e-XVII-Vicissitudes-da.pdf

(2) http://www.tesouro.fazenda.gov.br/documents/10180/375694/Parte%201_1.pdf

(3) http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao67.htm

(4) Esse artigo do Estadão connfirma a estória, mas cita o artigo 76, ao invés do 78, o que seria o correto (https://politica.estadao.com.br/blogs/roldao-arruda/general-conta-como-garantiu-a-posse-de-sarney-na-presidencia/). Para qualquer dúvida, consulte o link da nota anterior.

(5)https://www.youtube.com/watch?v=VrpurEkmJkU

(6) Uma crise pouco falada, mas que influenciou negativamente toda economia dos países não desenvolvidos. Vide: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/05/130520_commodities_queda_crescimento_america_latina_lgb

(7) https://exame.abril.com.br/brasil/dilma-continua-sendo-espionada-pelos-eua-diz-ny-times/

(8) Vide https://uspolitics.10ztalk.com/2019/07/29/the-great-coup-alexandre-l-silva/

(9) https://uspolitics.10ztalk.com/2020/01/23/disempowerment-in-latin-america-alexandre-l-silva/

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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