Invasão do Capitólio: “enough is enough is enough!”

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“Enough is enough is enough (basta, já basta)”! Essas palavras de Joe Biden refletem o desespero e o espanto de um país que é tido por muitos como a maior democracia do planeta diante da invasão, por grupos de supremacistas brancos, milicianos e apoiadores de Donald Trump, do Capitólio, centro do Legislativo estadunidense. Nunca, na história do país, o Capitólio havia sido invadido e uma tentativa tão descarada de golpe havia sido feita, ainda mais com o apoio de um presidente dos Estados Unidos durante a sessão do Congresso para confirmar a vitória de Biden. Alguns pontos precisam ser esclarecidos diante do ocorrido, o que será feito a seguir.

Antes de qualquer coisa, uma mulher, civil, foi morta, baleada durante a invasão (1). Essa morte, sem dúvida, deve ser contabilizada na conta de Trump, uma vez que foi ele o responsável, com seu discurso para a multidão, de começar a marcha com o objetivo claro de obstruir um processo legal e político.

Outra coisa que precisa ser esclarecida é que o conceito de “democracia” é um conceito bastante discutível, como demonstra Robert A. Dahl (2). Ao analisar o conceito de democracia, em suas várias formas, Dahl percebe que é um conceito teórico e que não se concretiza plenamente no mundo. Dessa forma, prefere formular o conceito de “poliarquia”, uma noção que remete a essa incompletude democrática. Esse conceito diz respeito a formas de governo que se aproximam, mas não chegam, a preencher os requisitos de uma democracia, sendo esta uma espécie de ideia reguladora para Dahl. Assim, temos poliarquia mais próximas do conceito de democracias e outras mais afastadas. Além das poliarquias, marcadas por uma ampla competição eleitoral e grande participação da sociedade, há ainda outros três termos que merecem, aqui, a atenção: oligarquias competitivas (muitos candidatos e baixa participação popular), hegemonias inclusivas (grande participação popular e poucos candidatos), e hegemonias fechadas (participação popular baixa e poucos candidatos).

Acompanhando a nomenclatura de Dahl, levando em conta que a participação na última eleição estadunidense foi uma das maiores de todos os tempos, cerca de 70% (3), e que há somente dois partidos que realmente disputam a eleição presidencial nos Estados Unidos, o regime estadunidense pode ser chamado, no máximo, de uma poliarquia, podendo mesmo ser classificado como uma hegemonia inclusiva por alguns. Dessa forma, não é difícil enxergar que há países que tem poliarquias bem mais próximas à democracia que os Estados Unidos.

Apesar da distância existente entre a sociedade dos Estados Unidos e a democracia, Trump ainda representa um grande retrocesso. Seu objetivo é apenas o poder e, para mantê-lo, é capaz de corroer os pilares mais próximos da democracia dentro do sistema estadunidense. Em outras palavras, Trump visa apenas o poder e, para tal, trabalha para diminuir o acesso de boa parte da população a direitos políticos e sociais. Não é por acaso que os supremacistas brancos constituem sua base de sustentação, assim como outros membros daqueles que estão na extrema direita do espectro político. Trump é, sem nenhuma ponta de dúvida, o maior risco de retrocesso dentro da política de seu país. Com sonhos totalitários, provocou, nas palavras de Biden, uma insurreição no Capitólio (4).

A democracia é um ideal a ser buscado, mas pessoas como Trump e Bolsonaro nos afastam, a cada dia, da jornada em sua direção. Devemos, de todas as maneiras, afastar esses perigos que nos impedem de caminhar no sentido da democracia e, para tal, devemos ser mais assertivos e corajosos do que o Partido Democrata tem sido.

Alexandre L Silva

NOTAS

(1) Woman Shot in Capitol Has Died — The New York Times (nytimes.com)

(2) DAHL, Robert A. Polyarchy: Participation and Opposition. Chelsea: Yale, 1971.

(3) Eleição nos EUA: os resultados até agora explicados em gráficos e mapas — BBC News Brasil

(4) Joe Biden calls Capitol riot ‘insurrection,’ urges Trump to end ‘siege’ (usatoday.com)

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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