Greta Thunberg, autismo e as críticas preconceituosas da extrema-direita

Há pouco escrevi sobre uma menina (saudades, Ágatha!) e, agora, volto a escrever sobre uma menina. Greta Thunberg é uma garota que, gostemos ou não de suas ideias, está tendo um impacto enorme em nossa sociedade. Greta tem Transtorno do Espectro Autista (TEA), algo que só deveria importar a ela e sua família, mas, em função dos ataques que tem sofrido, especialmente da extrema-direita ( até o filho de Bolsonaro que quer ser embaixador publicou uma foto falsa, manipulada de Greta, divulgando fake news sobre ela; não vou citar outros para não dar espaço para esse tipo de gente), escreverei, visando esclarecer, sobre o autismo e o caso de Greta, o que ajudará a afastar o preconceito que ainda ronda esse tipo de transtorno.

O Transtorno do Espectro Autista (autismo) é caracterizado, principalmente, pelas seguintes características, juntas ou separadas: dificuldade de comunicação, problemas de interação social, déficits na reciprocidade socioemocional, anormalidade dos comportamentos não verbais e verbais, dificuldade de relacionamento. Como se pode perceber, o autismo afeta a linguagem, a interação com outras pessoas e o a expressão das emoções. Outros fatores, podem, também fazer parte do diagnóstico do autismo, como problemas motores, insistência em repetir as mesmas coisas ou praticar sempre a mesma rotina de maneira inflexível, interesses altamente restritos e fixos, reações anormais em relação a determinados estímulos sensoriais. O autismo tem graus e isso implica uma independência maior ou menor de auxílio. Não gosto de falar, como muitos dizem, que uma pessoa pode “levar uma vida normal”, já que não existe “vida normal” e, além do mais, todos nós precisamos, ora mais ora menos, de algum auxílio do próximo. Entretanto, qualquer autista pode ter uma vida produtiva e, no caso de Greta, a produção de sua vida está muito acima daqueles que a criticam de maneira tão grotesca. Aliás, se não fosse a divulgação da imprensa internacional do fato, nenhum deles iriam sequer cogitar o tema do autismo.

A CID-11 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde) de 18 de junho de 2018 acompanha o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), publicado em 18 de maio de 2013, classificando o autismo em níveis ou tipos, não necessitando apelar ao termo síndrome. Assim, a expressão “Síndrome de Asperger” não pertence mais as classificações recentes, ou seja, é uma classificação antiga *. Portanto, não é um diagnóstico atual dizer que Greta Thunberg tem Síndrome de Asperger, como encontramos em boa parte da mídia. Nesse ponto, vale a ressalva que alguns profissionais da saúde optam por usar classificações antigas, portanto, não brigue com seu psiquiatra ou psicólogo se ele apresentar esse diagnóstico; ele pode, já que tem qualificação para isso, já a imprensa não tem, logo, deve seguir as classificações mais recentes.

Não ouso, nem posso, fazer um diagnóstico de Greta, mas certamente seu autismo é leve e de altíssimo desempenho (no sentido comum das palavras), o que talvez proporcione uma vantagem em relação à sua luta e propósito. Seu foco e sua tenacidade são invejáveis, sua força inspira milhões em todo o mundo e sua personalidade forte acaba por impor respeito, apesar da pouca idade, em seus interlocutores. Não estou dizendo que você deve deixar sua vida nas mão de uma garota de 16 anos, mas que você a ouça e discuta, ouvindo também especialistas no assunto e procurando se informar sobre o assunto. Crianças e jovens devem sempre ser escutados e, depois de ouvidos, todos nós devemos estar dispostos a pensar sobre isso. Greta é uma menina que quer ser escutada, não uma juíza ou procuradora, apenas uma menina que está nos holofotes do mundo. Criticar e mesmo rebater suas ideias de forma fundamentada, tudo bem. Ofendê-la de forma fascista, não.

As pessoas merecem respeito e carinho e os autistas, assim como todos nós, não são exceção. Também como todos nós, eles têm suas particularidades. Alguns não toleram o contato físico, outros não tem o menor problema com isso. Outros demonstram dificuldades de linguagem, outros se expressam de uma maneira excelente. Devemos, portanto, respeitar as diferenças e saber que não existe uma coisa como um modelo ou paradigma de ser humano. Todos somos diferentes e a diferença é o conceito fundamental para olharmos para o mundo.

Hannah Arendt apresenta, em seu livro Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, o conceito de “banalidade do mal”. Arendt percebe que Adolf Eichmann, um tenente-coronel nazista responsável pela deportação em massa de judeus para guetos e campos de concentração, capturado na Argentina pelo Mossad (serviço secreto de Israel) em 1960 e julgado e condenado à morte, em Israel, em 1962, era um homem normal, um burocrata, um funcionário do governo. Diferente da impressão que todos tinham de Eichmann como um monstro sanguinário, Arendt encontrou uma pessoa comum, banal, sem grandes reflexões e que fazia o que diziam para ele fazer. Da experiência que teve com ele, surgiu a ideia de “banalidade do mal”. Apesar disso, Hannah Arendt não discorda da sentença, dizendo ser a única possível nesse caso.

O que acontece no Brasil, guardadas as devidas proporções, lembra muti o que Arendt descreve. Pessoas comuns, que encontramos todos os dias nas ruas, em suas casas, no trabalho, são capazes de praticar um grande mal. Muitas vezes, orientadas por pessoas que querem o mal e sabem como manipular essa pessoas, elas agem, sem sentir, de maneira extremamente perversa e com grande naturalidade. Deve ser lembrado a essas pessoas que o fato de serem manipuladas não lhes retira a culpa pelo mal feito. Precisamos, portanto, de reflexão para evitar que o mal se torne coisa banal.

Gostaria, para fechar o texto, lembrar mais uma vez do caso de Ágatha Félix e cobrar a apuração desse caso e os de: Jenifer Silene Gomes, Kauê Ribeiro dos Santos, Kauã Rozário, Kauan Peixoto, todas crianças mortas durante a “política de extermínio” do governo do Rio de Janeiro (https://diplomatique.org.br/a-politica-do-exterminio/).

Alexandre L Silva

*Sobre as classificações do autismo segundo a CID-11: http://pandorgaautismo.org/subnivel/importante-novidade-para-o-diagnostico-do-autismo:-cid-11

Sobre os níveis do DSM-5: https://pebmed.com.br/autismo-veja-os-criterios-diagnosticos-do-dsm-v/

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na UFF e na UERJ. Articulista de opartisano.org e escritor da New Order no Medium.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na UFF e na UERJ. Articulista de opartisano.org e escritor da New Order no Medium.