Democracia, pandemia e um governo acéfalo

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Neste momento, 21:51 h de 02/04/2020, já são mais de um milhão de casos (1.014.943) e 53.166 mortes pelo novo coronavírus, o SARS-CoV-2, no mundo. Isso representa um índice de letalidade de 5,23%, bem maior que o índice de 04 de fevereiro, por exemplo, que era de 2,07% (1). Venho acompanhando o índice de letalidade e percebo que ele só vem aumentando, como pode ser percebido em meus artigos anteriores sobre o tema (2) que apresentam os índices de 3,59%, 4,1% e 4,5% e, agora, 5,23%. Especialistas alertam que há subnotificações de casos, uma vez que no Brasil, por exemplo, essas subnotificações estariam entre 10 a 15 vezes o número de casos. Entretanto, também concordam que há subnotificações de mortes, o que, portanto, não afetaria muito o nosso índice. Também é bom lembrar que isso ocorre com todos os vírus, sem exceção. Portanto, o índice de letalidade está, sem dúvida aumentando.

Mutações tornam o vírus mais agressivo, como foi destacado por pesquisadores chineses (3). Após analisarem amostras de 103 paciente, esses pesquisadores encontraram duas cepas diferentes de vírus, “L” e “S”. “L” seria a original e menos agressiva e “S”, por sua vez, a mais recente e agressiva. Além dessas duas, outras mutações já devem existir, como no caso confirmado da mutação em território brasileiro, encontrada por pesquisadores nacionais ao sequenciar o genoma do SARS-CoV-2 (4). Apesar disso, e para nossa sorte, o índice de mutação desse novo coronavírus parece, pelo que é indicado pelas pesquisas até aqui, ser baixo. Mesmo assim, seu nível de fatalidade está aumentando, como demonstram os números.

Hoje, também foi registrado um triste recorde para os Estados Unidos: 1.169 mortes em 24 horas. Nenhum país, até agora, tinha registrado um número tão grande de óbitos em um dia (5). A Itália foi o país que chegou mais próximo disso, com 969 vidas perdidas em um único dia. Hoje, os Estados Unidos são o país com mais casos, seguido por Itália, Espanha, Alemanha, China, França, Irã e Reino Unido, nessa ordem. O Brasil está em em 17º lugar, mas as subnotificações de casos e de óbitos batem todos os recordes, uma vez que praticamente ninguém é testado aqui. O número de testes no Brasil é extremamente limitado e, muitas vezes, não chegam aos locais necessários, provocando as subnotificações. Outro problema é a confiança nos números oficiais: como confiar nesses números se o próprio presidente desconfia do ministro da Saúde? Mas não para aí, a população também não confia no presidente, e com razão. Com todos os problemas gerados por esse novo coronavírus, sem dúvida é a pior hora de ter no governo alguém tão incompetente e insensível.

No Brasil, o ministro da Saúde indica máscaras caseiras para proteção da população. O principal motivo dessa indicação é a falta de máscaras hospitalares no mercado para profissionais da saúde. Segundo o ministro, o motivo dessa falta é que o mundo concentrou a produção na China e ela, nesse momento de pandemia, é incapaz de atender o mundo inteiro. Entretanto, já sabíamos que a população iria esgotar o estoque, uma vez que drogarias, que pouco vendiam o produto, começaram a fazer grandes encomendas e a vendê-las em larga escala para a população, algo que o Ministério da saúde sequer notou; pura incompetência desse governo. Aliás, falando em incompetência, o país teve tempo suficiente para fazer com que determinadas fábricas fossem adaptadas e começassem a produzir máscaras e outros insumos necessários, coisa que não o fez.

Se o o Ministério da Saúde é ruim, o presidente é ainda pior. Líder mundial do negacionismo, ameaça a todo momento suspender o isolamento horizontal e fomenta a ideia de que a pandemia não passa de uma ficção, contrariando seu próprio Ministério da saúde, assim como todas as autoridades sanitárias no Brasil e no mundo.

Ninguém sabe quem manda nesse governo: Bolsonaro, Braga Neto e os militares, Mandetta, Guedes, a ala ideológica, Trump? Não é possível, dentro de um regime presidencialista estável, o presidente querer uma coisa e seus subordinados agirem contra sua vontade. Somente num governo fraquíssimo, como esse, é que isso se transforma em realidade. Todos sabem que os desejos de Bolsonaro são delírios perversos, mas todos os ministros fazem parte desse governo e, mesmo sem delirar, continuam com o mesmo pensamento perverso. Moro, Guedes, Mandetta e todos os demais ministros atuam no sentido de socorrer os ricos e esquecer os mais necessitados.

Os Estados Unidos erraram, com Trump, em menosprezar a pandemia. Talvez, agora, percebam que o melhor candidato que têm para a próxima eleição presidencial é Bernie Sanders. Entretanto, Trump já entendeu que não há como negar os perigos da pandemia, coisa que o governo brasileiro ainda não fez. Todos, dentro do governo brasileiro, tentam corroer o mínimo de democracia que ainda nos resta e lutar contra o povo e o país que juraram proteger. Para todos nesse governo, o vírus que merece ser combatido é a democracia e não o novo coronavírus.

Alexandre L Silva

Notas:

(1) https://www.spsp.org.br/2020/02/06/sindrome-respiratoria-pelo-novo-coronavirus-2019n-cov-o-que-precisamos-saber/

Nesse artigo, o SARS-Cov-2 ainda era chamado de 2019-nCoV, pois ainda não havia saído a nomenclatura definitiva.

(2) https://medium.com/@alexandresilva_94761/o-novo-coronav%C3%ADrus-e-o-pior-governante-que-um-pa%C3%ADs-poderia-ter-45d28fc4fe09

https://medium.com/@alexandresilva_94761/conhe%C3%A7a-os-perigos-do-novo-coronav%C3%ADrus-e-o-que-voc%C3%AA-deve-fazer-31de311eb099

https://medium.com/@alexandresilva_94761/o-coronav%C3%ADrus-e-o-governo-brasileiro-capitalismo-e-preven%C3%A7%C3%A3o-6f128c1682e5

(3) https://veja.abril.com.br/saude/coronavirus-sofreu-mutacao-e-se-tornou-mais-agressivo-diz-estudo-chines/

(4) https://paisefilhos.uol.com.br/familia/cientistas-provam-que-coronavirus-sofreu-mutacao-no-brasil-e-reforcam-importancia-do-isolamento-social/

(5) https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,eua-tem-recorde-de-1169-mortos-por-covid-19-em-um-dia,70003258574

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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