Não consigo entender como alguém prefere a ditadura que a democracia. Sem dúvida esse tipo de escolha revela a personalidade e a mentalidade de uma pessoa. Todas as nossas escolhas acabam ajudando a revelar que tipo de ser humano somos nós e o que desejamos para nossos semelhantes e, no caso de uma escolha política, a escolha espelha o que somos ou como estamos em um determinado momento.

As democracias reais têm, sem dúvida, uma série de defeitos e muita coisa, portanto, que precisa ser melhorada. Entretanto, todas as outras alternativas têm problemas muito maiores e, pelo menos por enquanto, ainda não foi inventada uma forma de governo que supere a democracia.

No Brasil atual, encontramos uma série de ataques à democracia e uma outra série de provas de sua corrupção em território nacional. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, defendeu a volta do abominável Ato Institucional Número 5 (AI-5), caso a população se rebelasse contra o seu pai, o presidente Jair Bolsonaro, como acontece no Chile com seu presidente. Mas não foi apenas isso. Defendeu também o endurecimento do regime e, de maneira indireta, uma visão totalitária de Estado, inclusive elogiando, através de um vídeo do pai, um torturador do período conhecido como Anos de Chumbo. É importante notar que Eduardo não é o único da família ou do governo que defende um Estado totalitário. Seu pai, presidente, e seus irmãos que pertencem à vida pública também o fazem constantemente. Membros do governo lutam contra instituições democráticas e, também, contra essa forma de governo. Essa defesa da ditadura diz muito sobre todos eles e revela seus reais objetivos, ou seja, acabar com a democracia e implantar um regime em que tenham o poder absoluto. Uma lástima!

Quando a democracia começa a falhar, a primeira coisa que uma pessoa com senso crítico fa é desconfiar das informações oficiais. Por exemplo, o presidente, assim que foi noticiada a tragédia das manchas de óleo no Nordeste, anunciou que tinha sido um ato criminoso por parte dos venezuelanos. Agora, depois de uma série de investigações de órgãos oficiais, surge a informação que foi um navio grego. Como posso confiar, então, no que diz o presidente? Outro fato recente remete para o mesmo problema. Após a TV Globo relacionar, em uma reportagem no Jornal Nacional, o presidente e os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, O Ministério Público do Rio de Janeiro corre para desmentir a relação, dizendo que o porteiro, fonte da informação, mentiu. Entretanto, a Folha de São Paulo e a Globo comprovaram que a perícia foi feita em menos de duas horas e meia, a toque de caixa, e sem recorrer ao equipamento original. A única coisa certa é que havia a voz do acusado de puxar o gatilho e matar Marielle e Anderson em uma gravação e isso, todos sabem, não prova nada. Além disso, uma das promotoras que afirmaram isso, na entrevista coletiva, é bolsonarista, fez campanha por ele e tem pelo menos uma foto com um dos deputados que quebraram uma placa que homenageava Marielle.

Vemos, portanto, uma busca pelo autoritarismo por aqueles que deveriam, antes de mais nada, defender a democracia.

É por essas e outras que defendo o regime democrático pleno, mas não é só por isso. Todo aquele que preza pela democracia, preza pela liberdade. É um ser que busca a liberdade, valorizando e defendendo esse valor. Na democracia você, de uma forma ou de outra, tem o direito de lutar por aquilo que acredita através de sua escolha e de sua visão de mundo. Você é responsável por suas escolhas e, portanto, é alguém que possui responsabilidade por suas escolhas, assim como o direito de fazê-las. Portanto, quem defende a democracia está defendendo seu próprio direito de ser livre, de possuir autonomia, no sentido kantiano da palavra.

Por sua vez, quem defende o autoritarismo, a ditadura, deve ser separado em dois grupos. O primeiro grupo é daqueles que querem o poder. Esse grupo fará de tudo para conseguir, não se importando com as consequências nem com os meios usados. São pessoas sem escrúpulos, gananciosas, egoístas, corruptas, opressoras e sem o mínimo de bons sentimentos em relação ao próximo. Só se interessam pelo poder e são capazes de tudo. O segundo grupo, por sua vez, é formado por pessoas que querem ser comandadas, são submissas e sem apreço pela liberdade. Não querem ter responsabilidade pelo destino da nação e preferem ter alguém que tenha essa responsabilidade por eles. Vivem para obedecer e não ter direito de zizer o que pensam. É uma vida de medo e submissão.

Alexandre L Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.