De que tem medo Bolsonaro: a ofensa de Ricardo Salles a Luiz Eduardo Ramos e o aparente fim dos arroubos antidemocráticos do presidente

<a href=’https://br.freepik.com/fotos/fundo'>Fundo foto criado por jannoon028 — br.freepik.com</a>

Há um bom tempo não vemos Bolsonaro esbravejando contra a democracia ou, como aconteceu tantas vezes, convocando manifestações antidemocráticas. Entretanto, durante esse período de calmaria do espírito totalitarista do comandante da extrema direita, desperta a atenção o estranho conflito entre dois ministros de seu governo: Ricardo de Aquino Salles, ministro do Meio Ambiente, e Luiz Eduardo Ramos, general da reserva e (ministro) chefe da Secretaria de Governo. Qual a explicação desses dois acontecimentos?

Precisamos aprender a ler os sinais para entender o que está acontecendo. Infelizmente, a explicação da imprensa tradicional não é nada satisfatória e incorre numa série de erros. Todavia, essa explicação, em companhia dos fatos, tem que ser apresentada para que possamos entender todo o jogo do poder.

Bolsonaro, repentinamente, parou com seus ataques diretos à democracia e às instituições democráticas. Essa parada é devida, para boa parte da imprensa, ao avanço das investigações sobre seus filhos e o medo de que eles sejam presos, com o auxílio do Supremo Tribunal Federal. Isso, de fato, seria um grande problema pessoal e político, pois, em tese, poderia fazer com que ele perdesse apoio político e jogar luz sobre seus crimes de responsabilidade. Essa é a leitura mais comum encontrada entre os principais comentaristas políticos. Passemos, então, à interpretação tradicional do caso de Salles e Ramos.

Ontem, dia 23 de outubro de 2020, Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, postou em uma rede social um texto em que chama o chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, de “Maria Fofoca”. A razão disso seria uma informação, supostamente passada por Ramos, publicada por Bela Megale, colunista de “O Globo”, dizendo que Salles “esticou a corda com a ala militar”. A explicação dada pela grande imprensa é feita através do conflito entre Salles, apoiado pela ala ideológica do governo, e a ala militar. Resumindo, uma luta pelo poder e pelo meio ambiente entre duas alas do governo.

Vejam, eu já estudo, de maneira muito dedicada, as táticas da extrema direita — meus outros textos comprovam isso — para afirmar que essas explicações, além de erradas, favorecem o governo atual.

O STF não “mete medo” a Bolsonaro, uma vez que já escutamos, há um bom tempo, notícias sobre ameaças de prisão que recaem sobre os filhos do presidente, sendo que isso não demoveu Bolsonaro de seus ataques, muito pelo contrário.

No caso de Salles e Ramos, o que acontece é uma exposição, por parte da grande imprensa, do governo dividido em alas e, por isso, não considera o governo como um todo que é — e convenhamos, chamar alguém de “Maria Fofoca” é algo extremamente infantil. Assim, a imprensa tradicional passa a ideia de que há alas boas e más dentro do governo, uma vez que há uma ala que não concorda com o que está sendo feito com a Amazônia e o Pantanal, dando a impressão que o governo pode ser, de alguma maneira, salvo.

Pois bem, se o STF não amedronta Bolsonaro, se a briga entre Salles e Ramos é uma estratégia, então, de que Bolsonaro tem medo? A resposta é simples, da derrota de Donald Trump.

Caso Trump seja vitorioso na eleição presidencial dos Estados Unidos, então Bolsonaro ganha carta branca para continuar buscando o caminho totalitário. Entretanto, na hipótese, cada dia mais provável, segundo as pesquisas, de uma vitória de Joe Biden, Bolsonaro passa a não ter mais um sólido apoio externo e, ao mesmo tempo, haverá um fortalecimento das instituições democráticas na colônia (Brasil), fazendo com que Bolsonaro tenha que caminhar nos limites da democracia e responder por todos os absurdos que vem criando no âmbito da política externa, direitos humanos e mudança climática. Como a questão ambiental parece ser a mais urgente para Biden, o ministro Salles já está pronto para ser “queimado” e apontado como o grande culpado por tudo que está acontecendo nessa área e, assim, livrar Bolsonaro da culpa. Será, portanto, o famoso “bode expiatório” de Bolsonaro.

Alexandre L Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.