<a href=”https://br.freepik.com/fotos-vetores-gratis/padrao">Padrão vetor criado por vectorpocket — br.freepik.com</a>

Observando o chamado bolsonarismo, qualquer um percebe que é uma verdadeira colcha de retalhos, formado por diversos grupos, cada qual com suas reivindicações e suas ideologias. Não há, portanto, uma unidade de mentalidade ou de objetivos entre eles. Entretanto, não há como negar a existência de vários pontos em comum entre esses grupos, sendo isso o que os une.

As esquerdas, entretanto, caminham no sentido inverso, pois apesar de haver muito mais pontos em comum que no campo da direita, as diferenças falam mais alto, inviabilizando uma união entre elas.

Sendo assim, os estrategistas do campo da esquerda teriam três grandes trabalhos: unir o máximo possível todas as correntes consideradas de esquerda e, indo mais longe, aceitar qualquer participação do campo democrático, mesmo não sendo da esquerda e, juntamente com isso, destruir as costuras que unem os retalhos do bolsonarismo, além de conseguir conquistar aqueles que consideram, nas pesquisas, o governo Bolsonaro como regular.

Em função do tamanho do texto, analisarei apenas a constituição do bolsonarismo e a possível forma de sua destruição.

O que há de comum entre as forças políticas que apoiam o bolsonarismo, com exceção da parcela da população que o apoia, é o poder e o dinheiro. Tanto militares, quanto políticos, empresários e religiosos, além do apoio externo, anseiam pelo poder e pelos ganhos financeiros. A parte da população que apoia Bolsonaro, por sua vez, é unida principalmente por três fatores: ódio, medo e preconceito, todos três irracionais.

Assim, a criação de um novo partido, que já está a caminho, por Bolsonaro, é uma excelente oportunidade para desmanchar a trama construída entre Bolsonaro e vários políticos de seu antigo partido, assim como vários de seus aliados na Câmara e no Senado. Não há como negar que muitos políticos perderão muito de seu poder e, de formas que eu não posso falar, dinheiro com a criação desse novo partido. Portanto, é essencial que a oposição se aproveite desse momento.

Outro ponto importante diz respeito aos militares. É essencial que a oposição aproveite a fissura criada com a reforma da previdência dos militares e demonstre e explore o prejuízo sofrido pelas patentes mais baixas desse grupo. Também, há de se pensar em explorar um possível conflito entre a área militar do governo e aquela ideológica, provocando um choque entre ambas que não possa ser solucionado. Afinal, em muitos momentos, os militares se curvaram a essa área ideológica, o que não deve ter agradado muito a eles. Assim, não adianta a oposição gritar que os militares não são nacionalistas, nem patriotas , nem se preocupam com o país. Seria mais útil demonstrar que estão ficando menos poderosos e, por isso, perdendo sua influência no governo. Essa forma de agir também é válida para todos os grupos que apoiam Bolsonaro, isto é, demonstrar que poderiam ser mais poderosos, mas outros grupos estão ficando com uma parcela maior desse poder.

No tocante a parte da população que apoia Bolsonaro, o trabalho é ainda mais difícil. Precisamos demonstrar que o preconceito e o ódio não levam a nada, isso é uma questão de princípios, logo, o combate precisa ser feito. Entretanto, é necessário que desloquemos o campo da discussão para o lado econômico desse governo, pois só demonstrando que a população, de um modo geral, está ficando mais pobre, perdendo seus direitos trabalhistas e levando uma vida mais miserável é que vamos conseguir virar esse jogo. Afinal, ficar sem carne na mesa dói mais para muita gente que qualquer questão no campo dos costumes, e digo isso com grande pesar por conhecer nosso povo. Isso terá pouco efeito naqueles que consideram o governo Bolsonaro ótimo, mas terá um grande efeito naqueles que consideram regular, 32% dos eleitores, segundo a última pesquisa do Datafolha (29/12/2019). Assim, ainda a esperança para a oposição, mas essa esperança depende de uma mudança de discurso e de estratégias.

Alexandre L Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.