Brasil, túmulo do imperativo categórico: resultado de uma política fascista

Esses dias, dentro de um grupo de WhatsApp que eu participava, recebi uma mensagem enviada para o grupo. A mensagem dizia: “obrigado, presidente, por defender nossas crianças”. O contexto dessa mensagem em louvor a Bolsonaro foi o imbróglio criado pelo prefeito do Rio de Janeiro para apreender uma graphic novel em que dois rapazes estavam se beijando. Essa mensagem atribuía a Bolsonaro a origem da ação, como que afirmando que o prefeito praticou a ação, mas sua inspiração foi Bolsonaro. Um agradecimento estranho, que poderia ser feito dessa forma: agradeço por ser a inspiração para que outras autoridades proíbam cenas, mesmo leves, de cunho homoafetivo e assim proteger nossas crianças, enquanto as envenena, destrói suas florestas, envergonha sua pátria, acaba com o futuro delas, elimina qualquer chance de chegarem a uma universidade pública, enfraquece sua educação, publica pornografia, enfim, muito obrigado. Vejam, isso não tem o menor sentido. Primeiro, agradecer pela homofobia de autoridades, segundo, não reconhecer que, ao apoiar tais políticos, está apoiando todo o mal que está sendo feito aos seus próprios filhos. É a morte da racionalidade e, como veremos, a morte do que Immanuel Kant, filósofo prussiano do Período Moderno, chamou de imperativo categórico.

Não vou passar, aqui, pelas diversas formulações do imperativo categórico, nem demonstrar a diferença entre imperativos categórico e hipotético, visto que o texto não é um artigo científico. Portanto, basta enunciar a formulação mais conhecida do imperativo categórico: “Aja de tal forma que a máxima de tua vontade possa ser considerada uma lei universal.” Esse imperativo diz, grosso modo, que devemos agir de tal forma que afirmemos uma lei universal, a lei moral, a lei que aponta para o que é certo, o que é correto. Kant ainda acrescenta que essa lei é a priori, isto é, ela não é ensinada, faz parte da própria racionalidade. Trocando em miúdos: todo mundo sabe o que é certo; você pode escolher, porque é livre, agir errado, mas sabe que não está certo.

No Brasil atual, essa tese de um dos maiores filósofos de todos os tempos parece desmoronar. As pessoas estão agredindo, verbalmente e fisicamente, as outras pessoas por qualquer motivo e, às vezes, sem motivo algum e, ainda, não admitem seu erro. Defendem a tortura como algo lícito e bom, são preconceituosas e têm orgulho disso, chegam a defender assassinatos seletivos sem nenhum embaraço. A razão prática (moral) kantiana parece que desapareceu da mente dos brasileiros e deu lugar a uma visão hobbesiana da “guerra de todos contra todos”, onde “o homem é o lobo do homem”.

Isso que foi até aqui exposto é o resultado, certamente, do fascismo sobre a mente dos indivíduos. O Brasil está vivendo um momento autoritário da sua história e isso reflete não só na política e no que é comum, mas no modo de ver a vida de cada brasileiro. Precisamos, todos, resistir a isso.

Alexandre Lessa da Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.