As razões pelas quais Bolsonaro foi votado e o esmorecer da democracia

São três motivos básicos pelos quais alguém, geralmente, vota em um candidato ou partido para governar um país, dentro da normalidade democrática: ideologia, economia, direitos. Quem vota por ideologia (ideologia não nos sentidos marxistas do conceito, mas utilizando a conceituação do senso comum) vota segundo sua visão de mundo, sua weltanschauung. Vota segundo um enquadramento político que reflete a maioria de seus valores, desejos, entendimento de mundo e perspectivas para o futuro. Vota, portanto, por se reconhecer dentro de uma determinada ideologia e acreditar na sua capacidade de construir um mundo melhor para ele enquanto indivíduo, ou para a toda a comunidade. É importante perceber, aqui, que nem sempre é preciso ter consciência dessa ideologia para dar um voto ideológico.

A economia é outro fator que pode motivar o voto. Geralmente, o voto dado por esse motivo tem como referência o governo anterior. Caso o governo passado tenha apresentado bons frutos na economia, ele levará o voto de quem adota esse critério, caso a economia tenha decaído, então não levará tal voto. Simples assim.

Os direitos também orientam o voto. A busca por manter ou ganhar novos direitos pode ser decisiva na hora da escolha de um candidato. Nesse texto, a palavra “direitos” ganha um significado maior que o conceito estritamente jurídico, já que há os direitos civis, direito à liberdade de expressão, direito a viver sem medo ou violência, direito a não ter fome, direito de ir e vir, enfim, tudo que uma pessoa tem direito a ter ou fazer, dentro dos limites kantianos do direito, isto é, a liberdade do próximo.

No Brasil, durante as eleições, a normalidade democrática foi quebrada. É evidente que nem todo mundo adota esses três critérios quando vota, já que pode votar por carisma, por conhecer pessoalmente o candidato, por querer ser “do contra”, por uma intuição, enfim, pelos mais diferentes motivos. Entretanto, a grande maioria adota um desses três critérios para escolher em quem vai votar, o que não ocorreu no Brasil em 2018 e, também, em muitos outros países no mundo recentemente.

Certamente, um número grande de eleitores escolheu Bolsonaro por uma questão ideológica, mas esses votos não seriam o suficiente sequer para ele passar para o segundo turno, mesmo numa eleição em que o seu principal oponente foi afastado utilizando lawfare. Houve mais que isso. Houve o voto religioso, o voto “contra o PT”, o voto contra os direitos do próximo, o voto por preconceito, o voto pelo medo, o voto psiquiátrico, o voto midiático, o voto dos “adoradores do bezerro de ouro” e o voto pelo empoderamento. Na maioria das vezes, esses votos, ou motivos do voto, se misturam.

Bolsonaro foi moldado pela imprensa, assim como uma espécie de “bezerro de ouro” para ser adorado pelo seus seguidores. Seu criador, o Arão estadunidense dos tempos modernos, transformou Bolsonaro numa espécie de ídolo, adorado por aqueles que não tem coragem de encarar a realidade e preferem ter um “mito” para acreditar e protegê-los. Interessante que esse moldar começou através de programas humorísticos de qualidade discutível, mas de grande apelo popular.

O voto que chamei de psiquiátrico diz respeito a uma boa parte da população brasileira que tem transtornos mentais e não sabe, portanto, não é tratada. É muito comum, na conversa com um eleitor de Bolsonaro, a não aceitação de nenhum argumento, mesmo que exaustivamente comprovado, e o uso, por parte dos partidários dele, de xingamentos e ataques pessoais virulentos. Portanto, a impossibilidade do discurso (uma espécie de forclusão do significante primordial), a ira desmedida, a falta de qualquer racionalidade, o medo e o ódio do doutro, da diferença, são características de uma série de transtornos que precisam de tratamento. Assim, uma campanha em busca da saúde mental da população brasileira diminuiria, e muti, os votos na extrema-direita.

O voto pelo medo da violência procura alguém que possa governar de tal forma que consiga combater a violência urbana e no campo. Bolsonaro se apresentou como essa pessoa, mas o que mais chama atenção é que sua principal proposta para esse campo é armar a população, ou seja, conseguiu empurrar o dever da segurança pública para a população.

O voto midiático é aquele impulsionado pela antigas e novas mídias. Através de fake news, muitas pessoas foram influenciadas pelas mentiras da mídia tradicional, assim como disparos de WhatsApp programadas para construir a opinião de eleitores.

Há pessoas que não se interessavam em quem iria vencer a eleição, mas, apenas, se o Partido dos Trabalhadores (PT) seria derrotado. Todo partido tem seus erros e acertos, mas a campanha feita contra o PT visava destruir qualquer posição de esquerda e construir um ódio irracional contra o partido. O resultado foi uma aversão criada, principalmente na classe média, por esse partido.

O voto por preconceito encontra-se intimamente ligado ao voto contra os direitos do próximo. Quem votou em Bolsonaro, pode ter votado por misoginia, já que tem a crença absurda que a mulher é inferior ao homem, por racismo, pensando que há uma cor de pele superior, por homofobia. Especialmente no caso da homofobia, o voto por preconceito se transforma em voto contra os direitos do próximo (basta falar que as mentiras mais procuradas na internet foram o chamado “kit gay” e a famosa “mamadeira” em forma de pênis).

O voto religioso, que é um atentado contra um dos pilares da democracia, o Estado laico, é o voto do rebanho. É o voto obediente ao chefe religioso, aquele que visa seguir o que sua religião manda, sendo que a questão não é religiosa. Portanto, esse voto pertence a fiéis que são manipulados com o objetivo de aumentar o poder de determinados líderes religiosos, igrejas ou princípios religiosos.

O empoderamento, durante os governos do PT, caminhou no sentido dos oprimidos. Mulheres, LGBTs, negros, pobres, excluídos começaram a ser mais valorizados e defendidos. Isso acabou por reprimir uma certa parcela da população que tem no ódio pela diferença e no conservadorismo suas características principais. Dentro dessa parcela, há pessoas que são apenas conservadoras (o que já é um grande problema) e há pessoas que odeiam fervorosamente tudo que é diferente, loucas para destilar seu ódio e se apossar da violência que, em princípio, deveria ser monopólio do Estado. Portanto, a eleição de Bolsonaro acabou por empoderar não só os conservadores, mas também o pior tipo de pessoa que possa existir: o ignorante arrogante e agressivo.

Alguém poderia perguntar, ainda, pelo voto moral, o voto contra a corrupção, mas isso é, em princípio, mais uma desculpa do que uma razão para votar. Afinal, que tipo de moral justifica Bolsonaro? Mesmo antes das eleições, já não havia denúncias de corrupção contra Bolsonaro? Como disse, moral e corrupção são apenas desculpas, não razões para o voto.

Alexandre Lessa da Silva.

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Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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