Amazônia em chamas: as consequências de um governo de extrema-direita no Brasil

O Papa Francisco anunciou em 15 de outubro de 2017 que voltaria a atenção da Igreja para os povos indígenas da Amazônia, assim como a destruição e exploração do ambiente desses povos. Com isso, a semente do Sínodo para a Amazônia (Sínodo dos Bispos para a região Pan-Amazônica) foi lançada. Esse sínodo terá seu age de 6 a 27 de outubro de 2019, quando os bispos se reunirão em Roma para debater as questões pertinente a esse tema. O sínodo terá como tema: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”, e serão discutidos, também, o impacto do interesse econômico sobre a floresta e as terras indígenas. Com os acontecimentos recentes, esse sínodo, ou reunião de bispos convocada pelo Papa, ganha enorme importância e constitui mais uma forte voz contra a antipolítica ambiental implantada pelo governo de do PSL (Bolsonaro).

Em primeiro de junho de 2017, Donald Trump decide tirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, que versa sobre as mudanças climáticas mundiais e foi firmado em 2015. A alegação de Trump, era de que o acordo era desfavorável para a economia estadunidense e, portanto, para o povo desse país. (https://www.bbc.com/portuguese/internacional-40114352)

Bolsonaro, já durante a sua candidatura, em 2018, ameaça sair do Acordo de Paris, seguindo os passos de seu mestre e senhor, Donald Trump. Já no governo, ele volta a afirmar que sairá de tal acordo, provavelmente querendo seguir Trump e Steve Bannon. Entretanto, ele mesmo se desmente, dizendo que permaneceria no acordo desde que não houvesse “projeto Triplo A” (proposta de manter terras protegidas do Andes ao Atlântico, passando pela Amazônia e que Bolsonaro considera uma conspiração internacional) nem independência das terras indígenas, e que isso fosse garantido “por escrito”. (https://amazoniareal.com.br/bolsonaro-e-o-acordo-de-paris-2-declaracoes-contraditorias/)

A SOS Amazônia, em 31 de janeiro de 2019, afirma: “O governo Bolsonaro é a representação máxima da barbárie que a 519 anos tenta expulsar os povos indígenas de suas terras originárias por meio de uma política de extermínio agora institucionalizada pelo Estado.” Ainda aponta, nessa mesma data, as invasões de terra que já começavam a aumentar e objetivo de Bolsonaro de se dobrar aos interesses do capital e, principalmente, do agronegócio. (http://www.sosamazonia.org.br/conteudo/2019/01/31/sangue-indigena-nenhuma-gota-a-mais/). Em fevereiro desse mesmo ano, a SOS volta a criticar Bolsonaro, apontando para o perigo da extrema-direita nos governos, principalmente de países estratégicos.

Em 9 de abril de 2019, o Greenpeace avalia os 100 dias do governo Bolsonaro e afirma que ele elegeu a agenda ambiental como inimiga, promoveu uma série de retrocessos e tem o apoio dos ruralistas. Aponta ainda, o objetivo frustrado, devido à repercussão negativa, de acabar com o Ministério do Meio ambiente. Como isso não se tornou viável, colocou em tal ministério, Ricardo Salles, condenado em primeira instância por “fraude na elaboração de plano de manejo em uma Área de Proteção Ambiental em favor de empresas mineradoras.” Por sua vez Salles, em comum acordo com Bolsonaro, trabalhou para implementar uma série de medidas, de cretos e desmandos para aniquilar, aos poucos, toda importância do Ministério, assim como a autoridade de seus funcionários. Bolsonaro, diz o Greenpeace, também fez promessas e adotou medidas que colocaram em risco a Amazônia, favorecendo o desmatamento, ameaçando as terras indígenas e favorecendo mineradoras, a agropecuárias e invasores. O Greenpeace ainda cita o envenenamento através da liberação de vários tipos de agrotóxicos que antes, em outros governos, não eram permitidos, assim como o forte desejo de entregar a Amazônia a Donald Trump. (https://www.greenpeace.org/brasil/blog/retrocessos-ambientais-marcam-os-100-dias-do-governo-bolsonaro/))

O Greenpeace voltará a fazer um balanço ambiental do governo de Bolsonaro, quando esse completou 6 meses de governo. Volta a apontar os mesmos problemas de outrora, com o adendo de que as suas políticas ameaçam o clima global e prejudicam a imagem do Brasil no exterior (https://www.greenpeace.org/brasil/blog/seis-meses-de-bolsonaro-ataques-ao-meio-ambiente-atingem-a-economia/).

Em maio desse mesmo ano, a WWF Brasil condena a proposta do uso do Fundo Amazônia para a desapropriação de terras, já que existe uma verba específica para esse fim e isso inviabilizaria as medidas de conservação da floresta. Além disso, a ONG faz um aviso sobre o possível aumento do desmatamento em função dessa e de outras medidas governamentais. (https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/05/25/governo-estuda-usar-fundo-amazonia-para-indenizar-desapropriacoes-de-terra.ghtml)

Em 13 de junho de 2019, o comandante do Executivo brasileiro defende a regularização do garimpo no Brasil, incluindo a região do nordeste da Amazônia. (https://jornaldebrasilia.com.br/brasil/bolsonaro-por-que-nao-podemos-legalizar-o-garimpo-no-nosso-pais/)

Em uma rápida busca no site do ISA (Instituto Socioambiental), encontramos uma série de artigos que criticam o atual governo brasileiro. Em 02 de agosto de 2019, por exemplo, o ISA critica duramente as “políticas predatórias” de Bolsonaro, especialmente em relação aos indígenas, ao Inpe e ao desmatamento da Amazônia. (https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/politicas-predatorias-isolam-bolsonaro)

O Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, é criticado por Bolsonaro (19 de julho de 2019), assim como seu diretor e pesquisadores, por divulgar dados sobre o desmatamento, fundamentados cientificamente, que, segundo Bolsonaro, “prejudicam o nome do Brasil”. Afirmou ainda, sem nenhum tipo de prova, que os dados divulgados eram falsos. (https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/07/bolsonaro-critica-diretor-do-inpe-por-dados-sobre-desmatamento-que-prejudicam-nome-do-brasil.shtml) Em 2 de agosto, é anunciada a demissão do chefe do Inpe,Ricardo Galvão, demissão criticada até por Douglas Morton, diretor do Laboratório de Ciências Biosféricas no Centro de Voos Espaciais da Nasa. (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-49256294)

Em agosto de 2019, as notícias sobre os incêndios da Amazônia, assim como o desmatamento começam a pulular. Em 23 de agosto, Emmanuel Macron, presidente da França, chama Bolsonaro de mentiroso e afirma que a França sairá do acordo entre União Europeia e Mercosul. A crítica de Macron recebe apoio dos líderes da Alemanha, Reino Unido, Irlanda e Canadá, além do apoio de várias personalidades pelo mundo. Bolsonaro, com isso, fica encurralado e em 24 de agosto faz um pronunciamento em rede nacional noticiando medidas sobre o assunto. Panelaços são ouvidos em todo o Brasil, contra Bolsonaro, e protestos são realizados no Brasil e em todo o mundo contra Bolsonaro e sua política devastadora para a Amazônia.

Em uma palestra de 22 de agosto, Claudio Almeida, coordenador do Programa Amazônia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e, também, tecnologista sênior no monitoramento da Floresta Amazônica, confirmou o enorme crescimento do desmatamento da Amazônia, responsável pela queda do chefe do Inpe. O Inpe, através do DETER ((Detecção de Desmatamento em Tempo Real), constatou um pico de desmatamento em julho de 9 mil alertas, sendo que 92% desses alertas foram confirmados. Junto com a EMBRAPA, o Inpe conseguiu apurar que 60% das áreas desmatadas estão sendo utilizadas para a pecuária (área de pastagem de baixa qualidade). A agricultura de grande escala ocupa 6,5% da área desflorestada. (http://midianinja.org/news/60-da-area-desmatada-foi-para-o-pasto-diz-coordenador-do-programa-amazonia-do-inpe/?fbclid=IwAR1oNidOAPcY98p9Y8dlplfKNOfVdMS_tHMvVKbwL4HnGfdB93rU5H9lAv8)

O desmatamento da Amazônia chega a um ponto alarmante. O DETER (Inpe) anunciou um crescimento, do desmatamento, de 278% em relação a julho passado . O crescimento do mês de junho já era enorme, 90%, mas julho extrapolou tudo aquilo que poderia ser pensado em relação à Amazônia. (https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/08/desmatamento-na-amazonia-em-julho-cresce-278-em-relacao-ao-mesmo-mes-em-2018.shtml).

A Nasa (National Aeronautics and Space Administration) confirma os dados do Inpe e afirma que 2019 é o pior ano desde 2010 em relação às queimadas, acrescentando que as queimadas que apavoram o mundo tem relação direta com o desmatamento, muito mais que a seca regional. Interessante também é a constatação, pela agência dos EUA, que as queimadas nos estados brasileiros do Pará e do Amazonas se concentram em faixas ao longo das rodovias BR-163 e BR-230(https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/08/23/nasa-diz-que-2019-e-o-pior-ano-de-queimadas-na-amazonia-brasileira-desde-2010.ghtml).

Para tentar desfazer as mentiras criadas ao redor do tema, a ONG Akatu, sem citar Bolsonaro, principal responsável pelas notícias falsas, tenta esclarecer o que é mito e o que é verdade. Afirma que são verdadeiras as seguintes afirmações: as queimadas aumentaram em 2019, em relação a 2018; o desmatamento é a principal causa das queimadas; o Brasil é o país que mais desmata no planeta. Como mito, classifica as seguintes: as queimadas mais recentes tem como causa a seca; o Brasil é, no mundo, o país com mais floresta (esse posto é da Rússia); o Brasil não tem área suficiente para produzir alimentos; o país precisará desmatar mais no futuro para produzir mais alimentos; áreas preservadas atrapalham o desenvolvimento do país. (https://www.akatu.org.br/noticia/queimadas-na-amazonia-mitos-e-verdades/)

Muitos desses mitos, mentiras, fake news foram produzidos e disseminados pelo próprio governo Bolsonaro, em especial por ele mesmo. Seu discurso, e aqueles da sua equipe, desmatam e queimam a floresta da verdade para plantar no solo fertilizado das mentes de seus apoiadores as sementes da desavença e da mentira. Suas medidas, em relação à questão ambiental, são sempre prejudiciais à preservação, aos povos originários, ao meio ambiente, enfim, a tudo que qualquer pessoa que defenda a ecologia e a sustentabilidade pode aceitar. A tática de Bolsonaro é a tática do guerra, do conflito, das mentiras, por isso nada mais normal que todo o seu governo ataque aqueles que defendem a Amazônia, incluindo o presidente da França e outros líderes mundiais, da maneira mais vulgar possível.

O capitalismo, como afirmei em outro artigo, tem uma difícil convivência com a sustentabilidade e o meio ambiente (https://medium.com/@alexandresilva_94761/anti-ind%C3%BAstria-7a303abf0a83). Nesse mesmo artigo, faço sugestões para a humanidade caminhar de um modo mais sustentável. Entretanto, o atual governo brasileiro não se interessa por isso, governa no sentido de atender aos interesses do capital internacional (EUA) e nacional. O alimento produzido pelo Brasil está sendo envenenado (290 substâncias autorizadas só até julho de 2019). Os hormônios (naturais e exógenos) são encontrados no mercado brasileiro, apesar da proibição legal do uso para crescimento, no caso dos exógenos. Portanto, não sabemos até que ponto esses hormônios estão sendo usados ou serão usados, já que o problema das queimadas da Amazônia revela como o governo do Brasil está interessado em defender os produtores rurais e, principalmente, o modo como essa defesa é feita. A Amazônia também deseja um governo verdadeiramente democrático.

A melhor ação para a preservação da Amazônia, assim como da qualidade de nossos alimentos, seria retirar Bolsonaro do poder. Mas não adiantaria muito se essa retirada fosse uma simples troca por alguém que tivesse as mesmas metas e a mesma formação dele. O Brasil precisa voltar à condição democrática, pois só assim poderemos enfrentar às questões importantes sobre o meio ambiente e os direitos humanos e das minorias, já que, como a Amazônia, os direitos humanos estão sendo queimadas e a população em estado de vulnerabilidade está sendo dizimada.

Alexandre Lessa da Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.