A teoria do bode na sala e o crescimento da direita nas eleições de 2020

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Este texto é apenas uma reflexão sobre o momento que o Brasil vive, com a extrema direita no comando do Executivo nacional e partidos de direita sendo os principais vitoriosos das últimas eleições municipais.

Para desenvolver essa reflexão será necessário lembrar que não temos partidos de centro e de centro-direita no Brasil de hoje. O que existe no país, excetuando as esquerdas e levando em conta o restante dos partidos, são dois blocos de partidos: partidos de direita e partidos que nem sequer são partidos, uma vez que não passam de siglas de aluguel ou que atendem interesses pessoais. Vale lembrar que, mesmo entre partidos catalogados como sendo de esquerda, encontram-se partidos em que os interesses pessoais ultrapassam, e muito, o ideário político. Posto isso, a questão que surge é: como esses partidos de direita e “de aluguel” conseguiram ser os vitoriosos das eleições municipais?

A teoria do bode na sala parece ser a resposta mais óbvia para a questão. Segundo tal teoria, um sujeito casado estava enfrentando uma série de problemas familiares e reclamações domésticas e procurou a ajuda de um padre (ou de um sábio, em algumas versões) para que lhe aconselhasse. O padre sugeriu, então, que o sujeito colocasse um bode na sala, coisa que prontamente fez. Passado algum tempo, o sujeito encontrou novamente com o padre, que lhe perguntou como estavam os problemas. O indivíduo, então, respondeu que as coisas estavam piores do que quando o bode não estava na sala. Ouvindo isso, o padre calmamente sugeriu que tirasse o bode da sala e, mais uma vez, foi atendido. Em um novo encontro, o sujeito relata ao padre que os problemas e reclamações se foram e que sua vida estava ótima.

Bolsonaro, portanto, é “o bode na sala” da direita, assim como foi Trump nos Estados Unidos. Em outras palavras, quando o “grande poder” (entendam como quiser a expressão) percebe que a esquerda está começando a ficar estruturada e, por isso, avança entre o eleitorado, a solução tem que ser drástica: chamar a extrema direita.

A extrema direita é, assim, “o bode da sala”. É o pior governo que um país pode ter e, dessa forma, os políticos tradicionais de direita ficam parecendo bons, diante de todos os defeitos presentes na extrema direita. Permanece, contudo, uma outra questão: por que a esquerda diminui com a eleição de 2020? A resposta é um pouco mais complexa que aquela que diz respeito à direita de sempre.

O maior partido de esquerda, no que diz respeito ao último período democrático, é o PT. Em função disso, o crescimento do PSOL nas últimas eleições não foi suficiente para alavancar a votação da esquerda, uma vez que o PT não foi bem. O motivo para a diminuição do PT em número de prefeituras e vereadores foi aquele apresentado pela grande imprensa e pelos políticos de direita para o naufrágio do país provocado pela extrema direita, o radicalismo político.

A narrativa da corrupção certamente teve algum impacto nas eleições municipais, mas não tanto quanto a questão do radicalismo político. Aliás, há um erro fundamental no discurso da direita e da imprensa, uma vez que radicalismo significa que alguém vai até o cerne de algo, até a raiz. Portanto, ser radical pode ser muito bom. O correto, para os objetivos que a direita tem em mente, seria falar em sectarismo, mas isso é esperar muito de quem estrutura esses discursos.

Com a pecha do radicalismo mal aplicado, o PT sofreu o impacto do governo Bolsonaro, por mais paradoxal que isso possa parecer, uma vez que os governos do PT estiveram sempre na fronteira entre centro e centro-esquerda e o PSOL, por sua vez, está mais à esquerda que o PT. Vale lembrar que o PT não tem nenhuma relação com o governo Bolsonaro, e, por isso, não deveria sofrer com o impacto negativo desse governo.

O paradigma de controle das esquerdas, no Brasil e no mundo, portanto, começa a mudar. Com a ascensão da extrema direita, o paradigma de controle das esquerdas era o conceito de “corrupção”, chegando mesmo a ter um status de valor negativo no campo moral e político. Essa mudança tentou passar pelo absurdo crime da pedofilia através da extrema direita, coisa que não funcionou muito bem, uma vez que não era crível para ninguém. Entretanto, a direita e, pasmem, a própria extrema direita passaram a acusar a esquerda de “ser radical”, como Trump cansou de acusar durante os debates com Biden. No caso brasileiro, boa parte da população percebeu o perigo do extremismo de Bolsonaro e identificou, principalmente através da mídia tradicional, esse extremismo com o PT e os demais partidos que o apoiam, gerando um resultado negativo para a esquerda em geral.

Alexandre L Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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