A repercussão internacional do discurso de Bolsonaro na ONU

O discurso de Bolsonaro na ONU foi um verdadeiro show de horrores e, muito provavelmente, o pior discurso na história dessa entidade. Atacou a França, a Alemanha, a Venezuela e Cuba. Fez questão de demonizar o Foro de São Paulo, o socialismo o globalismo e as questões relativas ao gênero. Defendeu sua ideologia, não a reconhecendo como tal, e investiu contra todo tipo de pensamento diferente de sua própria ideologia. Insultou e acusou a imprensa internacional, destratou seus antecessores, demonstrou-se contra a demarcação de terra indígena e louvou militares e ditaduras, inclusive a brasileira. Demonstrou sua adoração por Trump e dificultou as relações com europeus. Defendeu os absurdos de seu governo e seu Ministro da Justiça e da Segurança Pública e, também, fez uma interpretação tosca e errônea dos direitos humanos. Mentiu, e não foi pouco. Esse é o resumo do discurso de Bolsonaro.

A repercussão internacional foi bastante negativa.

O francês, Le Figaro desmente Bolsonaro sobre a Amazônia: “Esses incêndios, em sua maioria voluntários, destinam-se a abrir espaço para a criação de gado e a acompanhar o desmatamento galopante: na Amazônia, quase dobrou desde a chegada ao poder de Jair Bolsonaro em janeiro, em ritmo de 110 campos de futebol por hora” (http://www.lefigaro.fr/international/bolsonaro-a-l-onu-l-amazonie-n-appartient-pas-au-patrimoine-de-l-humanite-20190924).

Le Monde disse que “o presidente brasileiro proferiu inverdades sobre a Amazônia e disse (Bolsonaro) que líderes de povos indígenas, como o chefe Raoni, foram “manipulados pelo estrangeiro”. Chamou, ainda, o discurso de Bolsonaro de chauvinista e invectivo (injurioso) e o resumiu como uma “mistura de digressões confusas e retóricas”. Também fez menção ao ataque do brasileiro a Macron (https://www.lemonde.fr/international/article/2019/09/24/jair-bolsonaro-sonne-la-charge-illiberale-a-l-ouverture-de-l-assemblee-generale-de-l-onu_6012883_3210.html).

The Guardian, ao comentar o discurso, diz que “ele entra numa longa e bizarra dissertação sobre ideologia”. Afirma, também, que Bolsonaro defende abrir a Amazônia aos “negócios” e que a maioria das lideranças indígenas está chocada com Bolsonaro, citando Guajajara, além de chamar seus planos para região de “colonialista e etnocida” (https://www.theguardian.com/world/live/2019/sep/24/trump-bolsonaro-and-johnson-to-open-un-general-assembly-live-news).

O jornal britânico The Times prefere focar sobre a a parte da apresentação de Bolsonaro que fala sobre a Amazônia. Chamando Bolsonaro de “presidente de extrema-direita”, ressalta as afirmações de Bolsonaro que a floresta amazônica não é uma herança da humanidade e que as notícias sobre as queimadas foram muito exageradas (https://www.thetimes.co.uk/edition/world/amazon-rainforest-belongs-to-brazil-not-mankind-bolsonaro-tells-un-2j2f55l2j).

O site do jornal estadunidense The Washington Post traz uma reportagem com o título Bolsonaro diz aos líderes mundiais da ONU que a Amazônia não está sob fogo, mas cheia de riquezas (Brazil’s Bolsonaro tells world leaders at the U.N. that the Amazon is not under fire, but full of riches). Nessa matéria, é afirmado que o “líder de direita” foi eleito prometendo, entre outras coisas, reduzir a burocracia ambiental. Para corroborar isso, a jornal demonstra, utilizando dados do próprio governo brasileiro (INPE — Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que o desmatamento quase dobrou durante seu governo. Também é dito que Bolsonaro “ladeado por uma equipe que incluía um apoiadorde e um youtuber indígena, Ysani Kalapalo, disse que vastas terras tribais estão cheias de ouro, diamantes e urânio esperando para serem explorados.” Lembra ainda que, nas terras Yanomamis, quase metade da poulação está contaminada por mercúrio em função da mineração, utilizando dados da Fundação Oswaldo Cruz (https://www.washingtonpost.com/world/the_americas/brazils-bolsonaro-tells-world-leaders-at-the-un-that-the-amazon-is-not-under-fire-but-full-of-riches/2019/09/24/2bddfa34-ded0-11e9-be7f-4cc85017c36f_story.html).

Como podemos ver, pela recepção negativa do discurso de Bolsonaro na imprensa internacional, suas mentiras só “colam” para aqueles que abdicaram de pensar.

Alexandre Lessa da Silva

P.S.: Para mais comentários sobre o assunto, recomendo: https://www.brasil247.com/midia/imprensa-internacional-lamenta-o-discurso-de-bolsonaro-calamitoso

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.