A queda nas pesquisas de Bolsonaro e seu governo: uma interpretação analítica

Esse texto é uma interpretação analítica das duas últimas pesquisas para eleição de 2022 e da pesquisa sobre o núcleo duro do chamado bolsonarismo.

A pesquisa FSB-Veja de 23 de agosto de 2019 coloca Bolsonaro à frente das intenções de voto para 2022 (https://veja.abril.com.br/politica/pesquisa-os-adversarios-de-bolsonaro-em-2022/). O primeiro turno, segundo essa pesquisa teria a seguinte ordem, do mais votado para o menos votado: Bolsonaro (35%), Fernando Haddad (17%), Ciro Gomes (11%), Luciano Huck (11%), João Amoêdo (5%), João Doria (3%); teríamos ainda 9% votando em nenhum deles e 3% em branco. A pesquisa traz ainda outro cenário, substituindo Bolsonaro por Sérgio Moro. Nele, Moro também está em primeiro, mas com um índice menor (27%). Traz ainda uma simulação para o segundo turno com três cenário, dois com Bolsonaro e nenhum com Moro. Bolsonaro venceria os dois cenários em que está. Bolsonaro contra Haddad (48% a 35%), Bolsonaro contra Doria (48% a 29%). Haddad venceria, se disputasse o segundo turno com Doria (37% a 33%).

A segunda pesquisa é do Datafolha (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/09/se-eleicao-fosse-hoje-haddad-venceria-bolsonaro-por-42-a-36-indica-datafolha.shtml). Essa pesquisa foi publicada em 2 de setembro de 2019 e foi feita com 2878 pessoas com mais de 16 anos em 175 municípios. Nela, Fernando Haddad venceria Bolsonaro por 42% a 36% (a margem de erro da pesquisa é de 2 pontos, a mesma da pesquisa anterior). Não há dados para o primeiro turno. A aprovação de Bolsonaro também caiu, nessa pesquisa: de 33% para 29%. Outros dados chamam atenção. Entre os eleitores que votaram em branco ou nulo na eleição passada 21% votariam em Haddad e apenas 6% em Bolsonaro. Haddad também venceria entre os desempregados (52% a 26%), os que têm ensino fundamental apenas (45% a 33%),os que tem ensino médio (42% a 37%), estudantes (50% a 32%), pardos (43% a 36%), pretos (53% a 26%), amarelos (44% a 30%), indígenas (40% a 34%), mulheres (44% a 32%) e católicos (46% a 33%). Haddad continuaria vencendo entre os jovens (51 a 31% entre os que tem de 16 a 24 anos), assalariados sem registro, funcionários públicos e pessoas que fazem bico (sem dados). Já Bolsonaro venceria entre os empresários (61% a 26%), os aposentados (43% a 33%), os brancos (43% a 36%), os que tem acima de 60 anos, os evangélicos (47% a 32%). Haveria um empate técnico entre os homens (sem dados na matéria) e entre quem tem ensino superior (Bolsonaro 40% e Haddad 38%).

Ainda sobre essa segunda pesquisa, há de se notar que Haddad só ganha entre a faixa de renda até dois salários mínimos (49% a 28%). As demais faixa dariam vitória a Bolsonaro (de cinco a dez salários mínimos, por exemplo, Bolsonaro ganharia de 53% contra 27%). Bolsonaro também ganha em todas as regiões, menos no Nordeste. Lá, a vitória é de Haddad por 57% a 23%. A região em que Bolsonaro tem a maior vantagem é a sul (43% a 32%).

A pesquisa sobre o “núcleo duro do bolsonarismo”, realizada pelo Datafolha, afirma que a quantidade de bolsonaristas heavy é de 12% dos eleitores, enquanto os críticos heavy de Bolsonaro formam 30% do eleitorado (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/09/nucleo-duro-de-apoio-a-bolsonaro-e-de-12-da-populacao-aponta-datafolha.shtml). O termo “heavy” diz respeito à intensidade do eleitor, o que leva à conclusão da Folha de São Paulo que o “núcleo duro de apoio a Bolsonaro é de 12% da população”. As variantes que o Datafolha usou para chegar a essa conclusão são: o voto declarado no segundo turno da eleição passada; a avaliação que o eleitor faz da administração de Bolsonaro; o grau de confiança nas palavras de Bolsonaro. O bolsonarista heavy é, portanto, aquele que votou em Bolsonaro na eleição passada (pelo menos, no segundo turno), classificam a gestão atual do Brasil como ótima ou boa e dizem confiar muito no que Bolsonaro diz. Os críticos heavy são justamente o oposto. Essa pesquisa também observa que os bolsonaristas sectários (heavy) são, principalmente, homens com mais de 35 anos (sendo que quase um terço deles tem 60 anos ou mais). Essa parte da população corresponde a praticamente 50% dos bolsonaristas heavy. Também merece destaque, pois estão acima da média da população, o número de brancos, aposentados, pessoas com renda superior a três salários mínimos que estão nesses 12%. Além disso, quase um terço desses 12% tem nível superior.

Podemos, portanto, tirar algumas conclusões de uma análise dessas três pesquisas.

A primeira conclusão vem de uma pergunta: Por que fazer pesquisas eleitorias se estamos tão distante de uma eleição (presidencial)? Só há uma resposta: o mandato de Bolsonaro está sendo contado como algo que deve ser esquecido, uma espécie de purgatório que o Brasil está passando, algo anômalo dentro da história de nosso país. Isso, obviamente, demonstra a fraqueza de tal governo e um desejo de voltarmos à normalidade, o que é positivo.

A próxima conclusão é que Bolsonaro vem perdendo força com o avanço temporal de seu governo. Quanto mais tempo passa (podemos apelar para outras pesquisas que comprovam isso) mais o apoio dele diminui. Isso também é notado através de seu apoio político, e não só no Congresso, onde já acumula algumas derrotas. Políticos como os governadores do Rio de Janeiro e São Paulo, que se elegeram apoiando Bolsonaro, já o criticam e lançam suas próprias campanhas eleitorais.

A terceira conclusão é que o eleitor típico de Bolsonaro é o mesmo de Trump , é uma espécie de WASP (branco, anglo-saxão e protestante) tropical, praticamente sem a parte do anglo-saxão, ou seja, é branco e protestante. Poderíamos acrescentar que esse eleitor também não é jovem. Mas não só de um eleitor típico seu eleitorado é composto. A segunda pesquisa, por exemplo, demonstra que Haddad só ganha de Bolsonaro em função do Nordeste. Portanto, há ainda uma forte tendência de escolha de Bolsonaro em outros perfis em todas as regiões (principalmente no Sul). Isso não deve ser menosprezado, assim como também não deve ser o fato de Bolsonaro conquistar as camadas mais importantes na formação de opinião, a classe média, os empresário, aqueles que têm os maiores salários e maior educação formal.

Quarta: se a eleição fosse agora, um candidato forte de esquerda ganharia a eleição presidencial, como aponta a pesquisa que dá a vitória a Haddad. Entretanto, devemos lembrar que essas pesquisas não envolvem a variável de uma campanha eleitoral. mas apontam que a rejeição do PT vem diminuindo e a de Bolsonaro vem aumentando a cada dia. Duas variáveis serão decisivas até 2022: as eleições municipais de 2020 e, principalmente, a eleição presidencial nos Estados Unidos, também em 2020, visto que Bolsonaro apostou todas as suas fichas em Donald Trump.

A última conclusão vem da última pesquisa que aponta que o núcleo duro do bolsonarismo, se é que existe um, é de 12%. Primeiramente, devemos entender o que significa “núcleo duro”. Para a pesquisa, o núcleo duro é formado por pessoas que são incapazes de fazer uma crítica a ele. Confiam nele cegamente e defenderiam praticamente qualquer posição que adotasse. Além disso, essas pessoas praticamente abdicaram do exercício do pensamento. Esses compõem os 12%. Todavia, um núcleo duro, em termos de política e eleição, não pode ser pensado apenas dessa maneira. Deveríamos chamar de núcleo duro, além desses 12%, todos aqueles que pretendem votar em Bolsonaro mesmo reconhecendo uma série de erros em Bolsonaro. Um típico eleitor do gênero seria aquele que diz que, apesar de todos os defeitos, Bolsonaro continua sendo o melhor para ocupar o cargo. Isso, por exemplo, explicaria a pesquisa que apontou que 23% não consideram nepotismo o absurdo fato de Bolsonaro apontar o próprio filho para ser embaixador nos EUA (https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/09/04/datafolha-aponta-que-70percent-dos-brasileiros-reprovam-indicacao-de-eduardo-bolsonaro-para-embaixador-nos-eua.ghtml). Portanto, podemos dizer que o núcelo duro é maior que 12%, mas inferior aos 23 dessa pesquisa realizada no final de agosto. Não tenho medo de dizer que esse núcleo está entre 15% e 18 %, e caindo aos poucos. O interessante é notar que a franja (aqueles que votaram em Bolsonaro, mas que não têm convicção em manter esse voto) diminui com uma grande rapidez. Portanto, Bolsonaro está queimando rapidamente sua “gordura” e, aos poucos, também sua “massa muscular”.

Para a esquerda, também seria interessante saber do potencial da direita e, especialmente, da extrema-direita como um todo. Moro ao se aliar a Bolsonaro e fazer parte do seu governo, além de todas as revelações da Vaza Jato pode ser classificado como um possível candidato da extrema-direita, assim como Witzel e Doria, por seus discursos e suas ações políticas. Portanto, é essencial para todos aqueles que estão no espectro da esquerda descobrir esse potencial, posto que Bolsonaro não é o único a disputar essa fatia do eleitorado.

Alexandre Lessa da Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.