A que interessa as mensagens de Queiroz sobre o esfaqueador de Bolsonaro

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Em 27 de outubro de 2019, A Folha de São Paulo noticia que obteve novos áudios de WhatsApp de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, senador do PSL-RJ e filho mais velho de Jair Bolsonaro. Queiroz reclama, em um dos áudios, que ninguém faz nada para ajudá-lo e que o Ministério Público “tá com uma p*ca do tamanho de um cometa” para enterrar nele e nos seus. Também faz referência a alguém, dizendo “o cara lá está hiperprotegido” (1). Quem seria esse cara? O jornal O Globo responde a essa indagação e ainda afirma que teve acesso ao mesmo áudio e também a textos de WhatsApp de Queiroz que esclarecem a identidade desse “cara” (2). Esse “cara” é Adélio Bispo, julgado por ter esfaqueado o, na época, candidato a presidente, Jair Bolsonaro, e julgado inimputável pelo Judiciário. Em uma dessas mensagens, Queiroz diz que acredita que alguém contratou Adélio para cometer o crime e, caso não estivesse com todos esses problemas, iria investigar em Brasília. A questão principal que nasce desses áudios e dessas mensagens é: quem tem interesse e poder para proteger Adélio Bispo?

Antes, porém, há a questão se a facada realmente existiu. Muitos duvidam da narrativa oficial e afirmam que a facada foi uma armação da própria extrema-direita. No meu caso, não tenho provas suficiente para negar ou afirmar que a facada foi realmente dada. Essa dúvida seria desfeita se não fosse evitada uma documentação maior do caso. Como? Através de fotos, vídeos e testemunhos isentos que demonstrassem a existência da facada. A pequena mancha de um suposto sangue que aparece no vídeo não acaba com a dúvida. Também não estou aqui defendendo que tudo foi uma farsa. A verdade é que apenas levanto meu juízo sobre o assunto, já que não tenho dados para afirmar ou negar o ocorrido. Pretendo, portanto, apenas estabelecer quem tem interesse e pode proteger Adélio.

O Ministério Público Federal (MPF), lar da Lava Jato, não tem o menor interesse em prejudicar Bolsonaro. Agindo de acordo com a lei, O MPF só procuraria ajudar a estabelecer a justiça nesse caso. Caso o olhar para o MPF fosse político, encontraríamos uma instituição que sempre esteve à direita dos fatos: apoio a Moro, prisão de Lula, proteção, segundo a Vaza Jato e o Intercept, do ex-presidente Fernando Henrique, estratagemas para que o Haddad, candidato do PT, não fosse eleito, favorecimento de Bolsonaro. Portanto, se houvesse alguma prova de envolvimento da esquerda, o MPF, certamente, não deixaria o caso morrer e recorreria. Não recorreu, logo não tem provas nem interesse para isso.

O Poder Judiciário, por sua vez, também não pode ser acusado de estar protegendo a esquerda. O juiz da 3ª Vara Federal em Juiz de Fora (MG), se julgou segundo a justiça, não encontrou prova nenhuma de Adélio com qualquer setor da esquerda. Mais ainda, concluiu que Adélio agiu sozinho e não pode sofrer a sanção devida, em virtude de suas condições mentais. Observando pelo lado político, o juiz não tem qualquer relação com a esquerda e, até, assinou uma moção de solidariedade ao ex-juiz Sérgio Moro, um dos ícones do governo de Bolsonaro (3).

O que posso concluir até aqui é que não tem como defender que a esquerda tenha alguma coisa a ver com Adélio e o caso da facada. Caso tivesse, deveria estar mancomunada com o Ministério Público Federal, o Poder Judiciário e os advogados de Bolsonaro; um absurdo.

Examinando o outro lado, há uma pergunta fundamental: por que Bolsonaro e o MPF não recorreram da decisão e aceitaram que Adélio Bispo fosse considerado inimputável e que esse caso fosse encerrado(4)? Sobre o MPF é fácil responder: não recorreu porque nem Bolsonaro o fez. Mas, e Bolsonaro e seus advogados? Só há duas hipóteses plausíveis para os advogados de Bolsonaro não recorrerem. Concordarem com a decisão tomada pelo juiz ou, por outro lado, a decisão do juiz foi positiva na visão de Bolsonaro. Caso tenha sido considerada positiva, qual a razão? Por que Bolsonaro não quis continuar com a investigação? Certamente ele sabe que a continuação não implicaria a esquerda, mas e a extrema-direita? E seu pessoal?

Bolsonaro parece não entender que quanto mais ele mexe nesse assunto, mais ele acaba se complicando.

Quanto às mensagens e áudios de Queiroz, as hipóteses são as seguintes:

a) Queiroz pode ter sido gravado sem saber e revelado que pensa que alguém protege Adélio;

b) Queiroz pode ter plantado as mensagens para ameaçar Bolsonaro e pedir proteção;

c) Queiroz pode ter plantado as mensagens esperando ajuda de Bolsonaro e, para tal, tenta mostrar que é útil e cria a ideia de alguém por trás de Adélio.

Seja qual for a hipótese correta, só há duas possibilidades: Adélio agiu sozinho e não há nenhuma outra figura ou, por outro lado, a campanha de Bolsonaro tem algum envolvimento com isso tudo. Um envolvimento da esquerda implicaria na incompetência ou numa colaboração do MPF e do Poder Judiciário com a esquerda, o que é o maior dos absurdos. A investigação deveria continuar e Bolsonaro deveria provar o que fala, mas, gostaria de lembrar a todos, não vivemos em um Estado realmente democrático.

Alexandre L Silva

Notas:

(1) https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/10/ministerio-publico-tem-um-cometa-para-enterrar-na-gente-diz-queiroz-em-audio.shtml

(2) https://oglobo.globo.com/brasil/em-novo-audio-queiroz-diz-eu-nao-vejo-ninguem-mover-nada-para-tentar-me-ajudar-24045411

(3) https://diariodopoder.com.br/juizes-federais-divulgam-mocao-de-solidariedade-ao-ex-juiz-sergio-moro/

(4) https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/17/politica/1563385202_511368.html

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na UFF e na UERJ. Articulista de opartisano.org e escritor da New Order no Medium.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na UFF e na UERJ. Articulista de opartisano.org e escritor da New Order no Medium.