A pandemia, o Brasil, Bolsonaro e a insanidade daqueles que ainda defendem esse governo

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Em recentes pesquisas realizadas pelo Datafolha (1) são encontrados dados praticamente inexplicáveis de como boa parte da população brasileira ainda apoia Jair Bolsonaro, apesar de todo mal que ele faz ao país. Então, vamos aos números.

Dos pesquisados, 59% afirmam que Bolsonaro não deveria renunciar, contra 37% que têm a opinião contrária e 4% que não sabem. Em relação à liderança, 52% acreditam que Bolsonaro tem condições de liderar o Brasil, enquanto 44% que ele não tem condições e 4% que não sabem. Percebam que a maioria não quer sua renúncia e o acha em plenas condições de governar o país. Se observamos, segundo o Datafolha, os eleitores de Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais, veremos que apenas 17% se arrependeram de ter votado nele, o que demonstra um recuo muito pequeno. Isso significa que dos 57,79 milhões que votaram em Bolsonaro, apenas 9,825 milhões se arrependeram. Vale, ainda, lembrar que Haddad obteve 47,04 milhões de votos (2) e que, o número de eleitores no Brasil de 2018 era de gigantescos 147,3 milhões (3).

Quanto à pandemia do novo coronavírus, incríveis 33% acham o desempenho de Bolsonaro ótimo ou bom e 25% regular. Ruim ou péssimo, nesse quesito, temos 39% e 2% não sabem. Números realmente estranhos, apesar de não duvidar da veracidade da pesquisa, pois 76% dos entrevistados apoiam o isolamento social, coisa que Bolsonaro abomina, enquanto 18% querem acabar com o isolamento e 6% não sabem.

O que ocorre no Brasil, já que o mundo todo considera Bolsonaro um louco, incompetente e que é capaz de fazer um imenso mal ao país? O inglês ‘The Economist’, por exemplo, compara Bolsonaro a déspotas e ditadores, fala de seu apreço pelos militares, sua ignorância sobre todos os temas e diz que está sabotando a saúde pública no tocante à pandemia que vivemos. A publicação inglesa chega a afirmar que “mesmo para seus próprios padrões, a violação de seu dever principal de proteger vidas é ir longe demais. Grande parte do governo o trata como um parente difícil que mostra sinais de insanidade” (4). Assim como ‘The Economist’, outras publicações no mundo todo criticam severamente Bolsonaro, quando não debocham de seus posicionamentos. O mesmo ocorre entre a comunidade científica. A revista científica ‘Nature’, uma das mais respeitadas do mundo, tem vários artigos criticando Bolsonaro e sua postura diante à ciência (5), assim como a ‘Lancet’, outra publicação respeitada que criticou duramente Bolsonaro e sua resposta ao novo coronavírus (6).

A opinião pública mundial, a imprensa internacional, a comunidade científica como um todo, a nata da intelectualidade nacional e internacional, todos repudiam Bolsonaro e sua forma de falar e agir. Entretanto, boa parte dos brasileiros ainda acredita nessa maléfica figura e preferem acreditar em mentiras postadas numa rede social ou num aplicativo de mensagens do que tudo que é dito por especialistas, cientistas, filósofos, jornalistas qualificados e toda uma gama de intelectuais. Para eles, Bolsonaro está certo e o mundo está errado. Mas, quais os motivos dessa cegueira?

Um dos motivos foi a presença de Steve Bannon e toda sua equipe na campanha de Bolsonaro (7). Bannon permanece orientando Bolsonaro e seus filhos e, pelo que tudo indica, segundo a vontade de Trump e do governo estadunidense. Bannon estabeleceu a campanha de Bolsonaro com base na irracionalidade, na emoção, no pathos aristotélico (8). Dessa forma, seus eleitores passaram a considerar votar e defender Bolsonaro da mesma forma que se torce e defende seu time de futebol. Assim, não interessa se seu time está jogando mal ou se um dirigente tomou uma atitude errada, você continua torcendo por ele com a mesma paixão e, em muitos casos, de forma ainda mais fanática. Bannon, com certeza, sabia dessa abertura do brasileiro para o fanatismo, demonstrado pelo próprio exemplo do futebol apresentado aqui e, de forma muito bem estruturada, explorou essa potência dos brasileiros. Não é por acaso que Bolsonaro é chamado, pelos seus apoiadores fanáticos (eis um pleonasmo neste texto!) de “mito”, pois no mito você crê ou não crê, independente de toda argumentação racional.

Outro motivo é a estrutura do eleitorado de Bolsonaro. Ela é constituída, basicamente, de conservadores extremados no campo dos costumes, evangélicos, católicos conservadores de direita, militares e forças afins, da classe média que teme as classes mais baixas e da elite econômica.

Os conservadores no campo dos costumes, evangélicos — principalmente neopentecostais — e os católicos de direita são mantidos fiéis a Bolsonaro através do medo e do ódio. Medo de perder o direito de odiar o diferente, de poder dizer o que é certo e o que é errado e ódio a quem representa um perigo para seus valores. Evidentemente que, também, atendem o comando de seus líderes, líderes esses que, muitas vezes, têm um interesse pessoal na figura do chefe de governo. Portanto, medo, ódio e interesse movem esse grande grupo de apoiadores de Bolsonaro.

Em um artigo do ‘The New Tork Times’ (9), Katherine Stewart afirma que o nacionalismo religioso (a direita religiosa) transformou as diferenças políticas em “uma batalha entre o mal absoluto e o bem absoluto”. Essa afirmação, feita para a base religiosa de Donald Trump, é, da mesma forma, válida para os evangélicos e católicos de direita que apoiam Bolsonaro no Brasil. Logo, se você está defendendo o “partido da vida” contra o “partido da morte” (10), não vai querer se preocupar com cientistas, filósofos, pensamento crítico, especialistas, uma vez que você é proprietário da verdade e do bem absolutos e, então, que se dane o resto.

Os militares e forças afins apoiam Bolsonaro visando sempre algum benefício, além de se identificarem com ele. Ex-militar, apesar de praticamente expulso do Exército, Bolsonaro construiu toda sua carreira política como um político que lutava pelos direitos dos militares, o que, na prática, não aconteceu, e representante da extrema-direita brasileira. Aliás, esse era um nicho, o da extrema-direita, que não havia concorrência para ser ocupado. Em função disso, os mais incompetentes e ambiciosos sempre foram responsáveis por sua ocupação, em todas as áreas, desde a política até a acadêmica.

A classe média sempre foi marcada pelo preconceito e pelo medo, considerando as classes mais baixas como constituídas de pessoas inferiores e que, por isso, não merecem estar ao seu lado. Essa classe admira a classe superior e o chamado primeiro mundo, ao mesmo tempo que considera os pobres um dos grandes males desse país. Evidentemente, muito desse preconceito tem origem histórica na escravidão, o que se percebe através do racismo estrutural brasileiro. Entretanto, a escravidão é apenas uma das fontes da aporofobia que reina nessa classe. O medo de perder aquilo que considera privilégio também é outra das causas — há mais — da classe média ter optado por Bolsonaro e ser a difusora, já que é a classe formadora de opinião, da ideologia defendida pela elite econômica.

Todos esses setores que apoiam Bolsonaro, sem dúvida, buscam fortalecer suas relações de poder, no sentido foucaultiano da expressão, mas é a elite econômica aquele setor em que essas relações falam mais forte. Entretanto, a elite econômica brasileira comporta-se como uma classe intermediária dentro de uma relação de poder que extrapola o Brasil. Durante toda nossa história, a elite econômica brasileira permanece como a representante dos interesses internacionais, preocupando-se em ser o elo intermediário entre o grande capital internacional e a exploração da maioria da população do país. Para essa elite brasileira, a vontade de poder é reativa, interessando-se, principalmente, pelos lucros econômicos. Também preconceituosa, não aceita manter uma relação de respeito e igualdade com o resto da população, chegando até a criar uma ideologia em que lucraria mais com um governo como o de Bolsonaro do que com um governo de centro-esquerda. Para piorar, acredita firmemente nessa ideologia, mesmo que os fatos demonstrem o contrário.

Dito isso, resta saber qual o real motivo de Bolsonaro estar agindo dessa maneira, desafiando todas as orientações dadas por especialistas e autoridades no campo da saúde pelo mundo e procurando levar todo um país ao genocídio provocado por ele. Há três fortes hipóteses: loucura ou demência, autogolpe e, finalmente, um golpe militar (11). Qualquer uma dessas hipóteses implica a necessidade do afastamento de Bolsonaro de seu cargo. Por isso, é necessário que não só que boa parte da população acorde de seu sono dogmático, mas que os outros poderes ajam de acordo com o que está previsto na Constituição para um caso como esse.

Alexandre L Silva

NOTAS:

(1) https://g1.globo.com/tudo-sobre/datafolha/

(2) https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/apuracao/presidente.ghtml

(3) http://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2018/Agosto/brasil-tem-147-3-milhoes-de-eleitores-aptos-a-votar-nas-eleicoes-2018

(4) https://www.economist.com/taxonomy/term/76972/%3Cstrong%3E?page=3180&page%5Cu003d2303=

(5) https://www.nature.com/search?q=bolsonaro&page=1

(6) https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/03/27/revista-cientifica-cita-bolsonaro-e-critica-paises-que-nao-levam-a-serio-a-ameaca-da-covid-19.ghtml

(7) https://medium.com/@alexandresilva_94761/metr%C3%B3pole-e-col%C3%B4nia-a-interfer%C3%AAncia-de-steve-bannon-na-elei%C3%A7%C3%A3o-brasileira-de-2018-c02f5d1095de

(8) Sobre o pathos aristotélico: Aristóteles. Retórica das paixões. Trad. Isis Borges B. da Fonseca. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

(9) https://www.nytimes.com/2020/03/27/opinion/coronavirus-trump-evangelicals.html

(10) Ibid.

(11) A hipótese da loucura pode ocorrer sozinha, mas não descarta acontecer em conjunto com uma das outras hipóteses.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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