A ministra Damares e o dog whistle

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Em 11 e 12 de setembro de 2019, em São Paulo, aconteceu a primeira Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, a sigla, em inglês, não foi alterada). Essa conferência teve sua origem em 1974, nos EUA, fundada pela American Conservative Union (União dos Conservadores Americanos) e a Young Americans for Freedom (Jovens Americanos pela Liberdade). No Brasil, várias figuras da extrema-direita nacional compareceram, entre elas, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, a pastora Damares Alves, que falou no último dia da conferência. Em sua fala, afirmou: “eu estou há quase 24 horas com esse público, maioria jovem, e ninguém me ofereceu ainda um cigarro de maconha, e nenhuma menina ainda introduziu um crucifixo na …” (https://www.brasil247.com/midia/damares-diz-que-nenhuma-menina-de-direita-enfia-o-crucifixo-na-vagina).

Antes de mais nada, é um absurdo a fala da ministra. Ninguém em sã consciência pode admitir uma ministra falando tal coisa, parece loucura pura. Mas, como disse Polonius sobre Hamlet: há um método nessa loucura.

Uma expressão inglesa vem ganhando terreno no mundo da política nos últimos anos: dog whistle (ou dog-whistle). Essa expressão significa uma política construída com base na técnica de enviar mensagens codificadas ou implícitas para um determinado grupo de eleitores, sem que outros grupos percebam a mensagem(https://www.tai.org.au/sites/default/files/DP96_8.pdf). A expressão também pode ser aplicada às próprias mensagens. Assim, é fácil entender a metáfora com o apito de cachorro, já que este produz sons inaudíveis para os humanos, mas facilmente captados pelos cães. Nos Estados Unidos, por exemplo, o dog whistle é muito usado pelos candidatos do Partido Republicano, especialmente para unir a queda da “oportunidade econômica” entre os estadunidenses, principalmente entre os “brancos”, e o racismo, como demonstra Ian Haney López (Dog Whistle Politics: Strategic Racism, Fake Populism, and the Dividing of America. Nova Iorque, Oxford Univeristy Press, 2014). No caso dos Estados Unidos, o discurso racista aparece de maneira muito velada, dentro do discurso explícito da falta de oportunidade para os estadunidenses, possibilitando que muitos republicanos não se assumam como racistas.

Voltando para o pronunciamento de Damares, podemos perceber dois apitos dentro de uma mesma frase. O primeiro diz respeito à mulher, já que estava falando de jovens e, exatamente na parte mais feroz de sua fala, passa a falar de meninas, relacionando a mulher, e não o homem, a condição mais baixa de seu discurso. O segundo apito é para os protestantes, em especial para os neopentecostais. Reparem que ela faz uso, numa frase terrível, de um símbolo, um ícone católico e não universal para os cristãos. O crucifixo, ou cruz de Cristo, pertence à simbologia católica (algumas outras religiões cristãs o aceitam) e seu uso é condenado pela grande maioria das denominações protestantes, e todas as vertentes neopentecostais que conheço. Portanto, ao dizer tão aparente loucura, Damares está insultado a religião católica e jogando para seus apoiadores religiosos. Se assim não fosse, utilizaria a imagem da Bíblia ou simplesmente de uma cruz vazia, objetos que pertencem a todo cristianismo. Portanto, não se deixem enganar por uma aparente loucura, sem procurar antes seu método.

Alexandre Lessa da Silva

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.