A liberdade de imprensa em xeque: o caso Época e Heloísa Bolsonaro

Uma reportagem da revista Época intitulada “Um mês de coaching com Heloísa Bolsonaro” (https://epoca.globo.com/brasil/um-mes-de-coaching-com-heloisa-bolsonaro-23944567) demonstra a fraqueza da imprensa, mesmo uma imprensa colaboracionista, diante do Estado de exceção.

A reportagem não traz nada demais, nenhum ato ilícito, nenhuma declaração bombástica, nenhuma grande revelação. Apenas revela o modo de Heloísa ganhar dinheiro, algo totalmente legal, e algumas afirmações sobre a posição política dela que, obviamente, é a mesma da família que agora pertence. Talvez, a coisa mais negativa que a reportagem revele seja o apoio de Heloísa, na eleição para o Conselho Federal de Psicologia, à chapa que defende a chamada “cura gay”, nada demais para quem é da família Bolsonaro. Entretanto, esse apoio já tinha se tornado público em suas redes sociais.

Apesar da banalidade da reportagem, a Globo fez questão de lançar uma nota que expressa, segundo o Grupo Globo, o erro em publicar a matéria: “O erro da revista foi tomar Heloisa Bolsonaro como pessoa pública…” (https://istoe.com.br/apos-erro-em-reportagem-globo-pede-desculpas-a-heloisa-bolsonaro/). Ora, que eu saiba, o casamento dela com o Eduardo foi amplamente divulgado, todos os veículos da grande mídia cobriram o evento e seus preparativos. Eduardo é um deputado federal, cotado pelo próprio pai (que absurdo!) para ser embaixador nos EUA, o que a coloca, sim, no âmbito do interesse público. Só para comparar, o neto de Lula não era uma figura pública e, mesmo assim, um repórter de O Globo ficou sabendo de sua morte antes de boa parte da sua família e publicou. A propósito, houve algum pedido de desculpas sobre isso?

Repórteres disfarçados sempre existiram e fizeram história: James O’Keefe, Alex Dolan, Nellie Bly, Tim Lopes. Para quem se interessar, existe até um verbete da Wikipedia sobre isso, explicando as regras, a ética e citando alguns desses jornalistas (https://en.wikipedia.org/wiki/Undercover_journalism). O próprio Grupo Globo, em sua nota, afirma, segundo os Princípios Editoriais do Grupo Globo, seção II, item 2, letra i não deixa claro quem são essas pessoas públicas, podendo, facilmente, incluir Heloísa nesse caso (https://istoe.com.br/apos-erro-em-reportagem-globo-pede-desculpas-a-heloisa-bolsonaro/).

Afinal essa reportagem sobre Heloísa só serviu para duas coisas: mostrar como a imprensa se cala num Estado de exceção e demonstrar, mais uma vez, minha tese de que a família Bolsonaro tem como modelo Donald Trump. Heloísa é especialista em “psicologia positiva aplicada” e seu curso trabalha com essa ênfase. O seu marido, Eduardo, é o maior representante na América do Sul do The Movement, organização de extrema-direita fundada por Steve Bannon, e o filho de Bolsonaro com maior intimidade com Trump. Além disso, vale a pena lembrar que Donald Trump, muito antes de conhecer Bannon, já era enormemente influenciado por Norman Vincent Peale, um dos maiores nomes do chamado pensamento positivo, autor do best-seller O Poder do Pensamento Positivo e, também, pastor defensor da teologia da prosperidade e responsável pela condução dos funerais dos pais de Trump. Eh, aposto que essa relação você não esperava, meu caro leitor.

Vale, ainda, citar uma última informação. Três funcionários da cúpula da revista Época, de maneira muito honrada, acabou por pedir demissão. São eles: a diretora de redação Daniela Pinheiro, o redator-chefe Plínio Fraga e o editor Marcelo Coppola (https://www.brasil247.com/midia/cupula-de-epoca-pede-demissao-apos-globo-se-desculpar-por-reportagem-com-esposa-de-eduardo-bolsonaro).

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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