A Globo precisa fazer uma autocrítica

Quase 50 anos após o Golpe de 1964, a Globo fez uma autocrítica sobre seu apoio a esse golpe, através do jornal O Globo e amplamente divulgada pela própria Rede Globo. Agora, com a extrema-direita no poder e um governo autoritário instalado no Brasil, não seria a hora de uma nova autocrítica? Ou será que teremos de esperar mais 50 anos? A Globo não consegue, ou não quer, ver o quanto contribuiu para isso tudo? Evidentemente, as outras emissoras sempre estiveram nesse mesmo caminho e precisariam, como a Globo, fazer essa autocrítica. Entretanto, a Globo é o paradigma para todas as outras e, por sua audiência, deve ser tratada de maneira exemplar, por isso este texto foca nessa emissora e naquilo que fez.

Ao fazer a autocrítica sobre o Golpe de 1964, a Globo (todo Grupo Globo) fez questão de assinalar o perigo de um golpe à esquerda, a garantia, por parte dos militares, da eleição presidencial de 1966, o pretenso objetivo de João Goulart de instalar uma “república sindical”, o “radicalismo” de Goulart, a revogação, através de um plebiscito, do parlamentarismo que, por sinal, já seria, naquela época, uma espécie de pequeno golpe. A Globo (lembro mais uma vez, trato “a Globo” como todo Grupo Globo, portanto, não interessando o veículo) também fez questão de apontar que estava junto de “parcela importante da população”, assim como de boa parte da imprensa. Fez questão, ainda, de defender Roberto Marinho, dizendo que, apesar de seu apoio, confirmado em um editorial de 1984, era um homem que “sempre esteve ao lado da legalidade.” Tantas questões surgem dessas afirmações presentes nessa autocrítica. Primeira, se acreditaram nas promessas democráticas dos militares, por que continuaram apoiando vinte anos depois? Segunda, perigo de golpe não é golpe, não havia fundamento para isso. Aliás, a Globo deveria já ter aprendido com a história e observado as ditaduras de direita, com apoio americano, da Guatemala (1954), Paraguai (1954) e Argentina (1962). Terceira, quem conseguiria implantar uma “república sindical” naquele período? Quarta, sempre há “uma parcela importante da população” apoiando qualquer coisa, não é certo? Quinta, Roberto Marinho sempre apoiou a “legalidade”? Então havia uma lei suprema no Brasil de João Goulart dizendo que o presidente deveria ser deposto e os militares comandarem o país? Que péssima autocrítica!

Obviamente, pedir desculpas não é o suficiente (a não ser para Sérgio Moro) por ajudar a jogar o país em uma ditadura que desgraçou e eliminou a vida de tantos brasileiros. Mas, infelizmente, nada foi feito por tantas violações que ocorreram no período, e a Globo, também se livrou de sua responsabilidade.

Recentemente, a Globo apoiou o golpe desferido pelo Congresso contra a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016. A ex-presidente fazia um governo em que a economia passava por dificuldades, em função da crise das commodities e do aprofundamento dessa crise pela oposição de direita e pela imprensa, o que acabou por gerar protestos cujo financiamento nunca foram completamente esclarecidos. O PMDB, maior partido brasileiro em número de representantes e antigo aliado de Dilma, troca de lado, o que permite que o impeachment seja aprovado e Dilma afastada permanentemente da Presidência da República. Durante todo esse movimento, a Globo fez campanha pelo impeachment, mesmo sabendo que não existia qualquer crime de responsabilidade por parte de Dilma. Depois disso, não se esforçou, como fez com Dilma, para derrubar Michel Temer (ex-vice de Dilma e quem ocupou a cadeira da Presidência) do poder. A presidência de Temer ocorreu sem maiores ameaças da mídia, apesar da comprovação de inúmeros atos ilícitos por parte dele. No governo de Temer, foi aprovada a reforma trabalhista, responsável pela precarização das relações trabalhistas e que, por sinal, foi extremamente defendida pela Globo.

Em 2018 há eleições para a Presidência da República, Câmara dos Deputados e Senado. A Globo continua sua campanha contra o PT e a esquerda em geral, apoiando o PSDB, partido que tem uma agenda de direita. Para desespero da Globo, o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, não decola e o segundo turno da eleição presidencial passa a ser disputada entre Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL). Esquerda (PT) contra extrema-direita (PSL) e a Globo, continua com seu ataque ao PT e apoia, de maneira velada, Bolsonaro.

Bolsonaro vence o segundo turno e em 2019 começa seu governo com uma série de escândalos envolvendo milícias (crime organizado), corrupção, nepotismo, crimes de responsabilidade, ataques aos direitos humanos e políticas ambientais. Nesse verdadeiro governo de destruição nacional, a Globo defende e apoia fervorosamente a Reforma da Previdência que virá a prejudicar milhões de brasileiros, principalmente os mais pobres.

Como se pode perceber, a Globo é uma das grandes responsáveis pela atual situação do país e, até agora, não esboça nenhuma reação no sentido de fazer uma autocrítica em relação a todo esse comportamento prejudicial ao país. Será que devemos esperar mais 50 anos?

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.