A família Bolsonaro, o esquema de rachadinha e a investigação sobre Marielle Franco

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Jair amava Flávio que amava Queiroz

que amava Adriano que amava Diego que amava Eduardo

que amava Carlos que amava Steve

que não amava ninguém.

Obviamente, muita gente reconheceu a adapatação que fiz desse poema de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1930, na obra Alguma Poesia. O curioso é que o título do poema é “Quadrilha”, o que revela muito sobre a adaptação. A parte final do poema é encaminhada no sentido que não é positivo para a maioria dos citados. Um deles vai para os Estados Unidos, outra para o convento, outro morre de desastre, uma fica para tia, o quinto, por sua vez, suicida-se e a última, então, casa-se com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. É o resultado do amor ou, adaptando ao caso em questão, das relações perigosas que uma família mantém, de forma promíscua, com pessoas que tem uma moral, assim como uma ficha criminal, um tanto quanto perigosa.

Nos subúrbios do Rio de Janeiro, pouco antes da votação do segundo turno, em 2018, praticamente toda van e toda kombi, responsáveis pelo transporte irregular e mantidas, em muitos casos, pelas milícias, faziam propaganda e boca de urna para o 17 de Jair Bolsonaro. Foi, para mim, uma das primeiras provas que havia uma relação das milícias com a família Bolsonaro. Essa relação, pelo menos nesse primeiro momento, não poderia ser definida, podendo ir de um simples apoio e simpatia até algo bem mais preocupante. Mas, o que sabemos, até o momento, dessa relação?

Sabemos que Flávio Bolsonaro tem uma “fantástica fábrica de chocolate”, isto é, uma franquia da Kopenhagen, quatro mandatos de deputado estadual, o início de um mandato de senador, imóveis e várias, várias relações com a milícia que, agora, O MP do Rio investiga para se pronunciar sobre a legalidade, ou não, dessas relações.

Durante um de seus mandatos na Assembleia do Rio de Janeiro, Flávio votou a favor da nomeação de Domingos Brazão para o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (1). Brazão, durante um bom tempo, soi acusado de ser o mandante dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, assim como de tentar atrapalhar a investigação. Também durante esse tempo na Assembleia Legislativa, Flávio homenageou sete policiais que trabalhavam no mesmo batalhão do ex-capitão da PM Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado pelo MP do Rio como chefe do “Escritório do Crime”, milícia localizada na região de Rio das Pedras (2). Além dos sete, um outro PM da tiva foi homenageado naquela data (4/11/2003), Fabrício Queiroz, seu futuro assessor e apontado como coordenador do esquema das “rachadinhas” que ocorria, segundo o MP, no gabinete de Flávio na Assembleia.

Partindo para a figura de Adriano, aquele que é considerado o chefe do “Escritório do Crime”, uma outra ligação, ainda mais perigosa aparece. O ex-capitão da PM (Adriano), assim como Ronnie Lessa, foi “caveira”, ou seja, havia feito o curso do Batalhão de Operações Especiais (Bope). Além disso, ambos foram acusados de pertencer ao grupo de seguranças do contraventor Rogério Andrade. Ronnie, ainda, abriu uma academia em Rio das Pedras, em conjunto com a esposa, região de atuação da milícia em questão (3).

De setembro de 2007 até novembro de 2018, o gabinete de Flávio Bolsonaro empregou a mãe e a mulher do ex-capitão Adriano (4). Adriano também é sócio de duas pizzarias (Tatyara e Pizzaria Rio Cap, possivelmente uma referência a seu posto) no Rio Comprido, suspeita de serem usadas para lavagem de dinheiro, já que ambas repassaram dinheiro para Fabrício Queiroz (5). Aliás, Flávio não foi o único da família que usou o mandato para ajudar aquele que é acusado de ser o chefe do “Escritório do Crime.” Em 27 de outubro de 2005, o na época deputado Jair Bolsonaro proferiu um discurso no plenário da Câmara dos Deputados em defesa do ex-capitão Adriano que acabava de ser condenado, quatro dias antes, pelo assassinato do guardador de carros Leandro dos Santos Silva que, segundo a família, denunciou PMs que praticavam extorsão em sua comunidade. Portanto, assim como o filho Flávio que concedeu a Medalha Tiradentes, a maior das honrarias da Assembleia do Rio ao ex-capitão Adriano, Jair Bolsonaro usou seu mandato a favor do ex-capitão da PM.

Diego Sodré de Castro Ambrósio é outro PM envolvido com Flávio Bolsonaro. O PM foi responsável pelo pagamento de uma parcela de 16 mil e quinhentos reais referentes a um imóvel comprado pela esposa de Flávio Bolsonaro, um valor mais que três vezes maior que seu salário e que foi pago a pedido de Flávio. Diego, em 2014, abriu uma empresa de segurança, a Santa Clara Serviços, que cobrava para retirar, de forma ilegal, moradores de rua na Zona Sul do Rio. Essa empresa e, também, o próprio Diego, depositavam valores em cheque, entre 2015 e 2018, na conta corrente da loja de chocolates de Flávio (7).

Apesar da divulgação que o MP havia encontrado uma movimentação de 1,2 milhão na conta de Queiroz, o COAF identificou pelo menos 7 milhões nas contas do ex-assessor de Flávio, o que significa uma movimentação financeira de, no mínimo, 4 milhões (8), muito maior que aquela primeiramente divulgada. Essa movimentação ainda não foi explicada, assim como os dez cheques que Queiroz entregou, segundo ele próprio, a Michelle Bolsonaro, mulher de Jair, referentes a um suposto empréstimo feito pelo próprio Jair a Queiroz.

Pelo que se sabe, através das palavras do próprio Queiroz, a rachadinha existia dentro do gabinete de Flávio, já que retirar uma parte dos salários dos empregados do gabinetes para fazer qualquer outra coisa já configura a rachadinha. No entanto, a investigação começa a apontar para algo ainda mais criminoso: a relação com a milícia e o envolvimento com os assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes. Para sorte da família Bolsonaro, o MP do Rio e a Justiça não estão utilizando a “Teoria do Domínio do Fato”.

Uma última coisa: gostaria de saber se parte desse dinheiro foi usado, ou não, para financiar alguma sociedade conservadora e populista de extrema-direita fora do Brasil. É apenas um palpite, mas que acho (puro achismo) que merece uma investigação, já que o vendedor dos apartamentos investigados, também, como lavagem de dinheiro é estadunidense.

Alexandre L Silva

NOTAS:

(1)https://pt.wikipedia.org/wiki/Fl%C3%A1vio_Bolsonaro

(2)https://oglobo.globo.com/brasil/flavio-bolsonaro-homenageou-sete-colegas-de-suspeito-de-integrar-guarnicao-da-morte-23424537

(3)https://oglobo.globo.com/rio/policia-investiga-elo-entre-pm-preso-por-morte-de-marielle-com-milicia-que-atua-na-gardenia-azul-23517087

(4)https://oglobo.globo.com/brasil/flavio-bolsonaro-empregou-mae-mulher-de-chefe-do-escritorio-do-crime-em-seu-gabinete-23391490

(5)https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-do-cerco-ao-esquema-bolsonaro-por-luis-nassif/

(6)https://oglobo.globo.com/brasil/jair-bolsonaro-defendeu-chefe-de-milicia-em-discurso-na-camara-23401641

(7)https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-do-cerco-ao-esquema-bolsonaro-por-luis-nassif/

(8)https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-do-cerco-ao-esquema-bolsonaro-por-luis-nassif/

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.