A falsa briga entre Moro e Bolsonaro

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Lá vou eu, de novo, remar contra a corrente. Vejo em toda a imprensa, incluindo aquela de esquerda, manchetes gritando como Sérgio Moro está sendo fritado por Bolsonaro. Entretanto, tenha uma perspectiva bem diferente daquilo que está acontecendo e não acredito que haja um ponto sem nó nessa relação.

Bolsonaro, pelo menos até agora, é um candidato forte com 29.1 % das intenção espontânea de voto, segundo a última pesquisa (1) e que tem um grande curral eleitoral. Entretanto, é um candidato perigoso. Comete crimes de responsabilidade, quebra o decoro, flerta com o nazismo e anda além dos limites de um presidente. A todo momento, insulta um grupo social e faz declarações capazes de fazer qualquer um perder uma enxurrada de votos. Além disso, tem uma família problemática e não consegue viver em paz com os outros poderes da república, o que o torna um candidato altamente instável para as próximas eleições.

Por outro lado, há Sérgio Moro. Moro é o mais bem avaliado dentro do governo, tem um histórico ligado ao ilusório combate à corrupção, uma vez que a Vaza Jato demonstrou que todo esse combate não passa de uma combinação de lawfare e interesses políticos e pessoais, além de ser o ministro mais conhecido do governo. Algo importante a ser notado é que Moro, apesar do seu discurso contra a corrupção, nunca disse diretamente que Bolsonaro ou alguém da sua família possa estar envolvido com a corrupção. Aliás, aí está todo problema: a relação de Moro com Bolsonaro e sua família, afinal, para que serviria um candidato idêntico a outro candidato?

Se Moro continuar rezando (ou orando) pela cartilha de Bolsonaro, os votos de Bolsonaro, se ambos se candidatarem, serão divididos entre os dois, com vantagem para Bolsonaro. Além disso, caso Bolsonaro naufrague irá levar Moro consigo, o que é mais que evidente. Portanto, a continuidade da relação existente entre Moro e Bolsonaro só prejudica a extrema-direita e a direita, uma vez que, na prática, ambos seriam uma única candidatura, ao invés de duas.

Sabendo que os grupos dominantes no país pretendem chegar com a força máxima para a disputa da próxima eleição presidencial, nada mais natural do tentar fazer com que o segundo turno seja disputado por dois candidatos de direita, ou extrema-direita. Para isso, esses grupos têm a necessidade de desvincular Moro de Bolsonaro e o tornar, assim, um candidato independente. Dessa forma, Moro seria uma alternativa a Bolsonaro e poderia, dessa maneira, elevar o número de votos da direita, Bolsonaro naufragando ou não.

Não devemos ser ingênuos e pensar que não há um plano sendo tramado diante dos aparentes conflitos entre Bolsonaro e Moro. Agir de forma a apresentar uma briga legítima entre os dois e uma ruptura entre seus pensamentos é legitimar todo esse planejamento e, portanto, cair na estratégia que está sendo montada pela direita brasileira e internacional. Só espero que, com esse artigo, ajude a abrir os olhos da esquerda e que ela mude sua estratégia, ou falta dela, e passe a apresentar Moro não como uma oposição a Bolsonaro, mas como sua continuidade, aquilo que realmente é.

Alexandre L Silva

Nota:

(1)https://noticias.uol.com.br/colunas/reinaldo-azevedo/2020/01/22/pesquisa-copo-meio-cheio-meio-vazio-era-pior-bolsonaro-lidera-para-22.htm

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Ex-professor de diversas universidades públicas e particulares. Lecionou na Universidade Federal Fluminense e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.